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Sexta-Feira, 21 de Setembro de 2018
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Governo argentino auxilia na investigação sobre morte de catarinense durante ditadura

Na reta final para elaboração do relatório final, ofício argentino confirma onde o militante foi sequestrado

Stefani Ceolla
Florianópolis

Três casos eram considerados prioritários pela Comissão Estadual da Verdade: a morte de Higino João Pio e os desaparecimentos de Paulo Stuart Wright e João Batista Rita. O resultado mais contundente até agora está relacionado a Higino Pio. O laudo pericial quanto à morte do político concluiu que a tese de suicídio foi forjada. Na verdade, Pio  foi assassinado. Já quanto a Wright e Rita, as investigações pouco avançaram. No entanto, perto do encerramento do relatório final catarinense, um documento enviado pelo governo da Argentina traz uma nova luz sobre o caso Rita. O documento confirma a versão de que o militante foi sequestrado na Argentina e trazido de volta ao Brasil, onde foi morto.

Reprodução/ND
Existem poucos registros de João Batista Rita

 

O ofício encaminhado pelo governo argentino à Comissão Nacional da Verdade foi entregue ontem ao presidente da Comissão Estadual, Anselmo Livramento Machado, durante a reunião do grupo, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Segundo a integrante da comissão, Derlei de Luca, o documento confirma que Rita foi sequestrado na província de Paraná, na Argentina, perto da fronteira com o Brasil.

Até então, a única pista sobre o caso João Batista Rita era o depoimento publicado no livro “Memórias de uma Guerra Suja”, de 2012. Única versão do paradeiro do catarinense era considerada insuficiente para as investigações. “É preciso pelo menos duas pessoas confirmando essa versão. Não é que a gente não acredite, mas é preciso mais um depoimento para esclarecer o caso”, explicou Derlei, quando os trabalhos da comissão iniciaram, ainda no ano passado.

Agora, o ofício argentino, documento oficial, será anexado ao relatório final que será enviado à Comissão Nacional da Verdade. A apuração ajuda a esclarecer as circunstâncias da prisão, mas não traz novos fatos sobre a morte do militante.

Quem foi João Batista Rita

Membro da M3G (Marighella, Marx, Mao e Guevara), João Batista Rita é considerado desaparecido. Nascido em Braço do Norte, começou a militância política em Porto Alegre. Segundo os dados de sua ficha na Comissão Nacional de Mortos e Desaparecidos Políticos, ele foi vítima da operação Mercúrio, fase inicial da operação Condor, ação que reuniu seis países sul-americanos, inclusive o Brasil, com o intuito de reprimir os opositores às ditaduras militares. “Rita foi sequestrado na Argentina em dezembro de 1973 e levado para o DOI-CODI do Rio de Janeiro, desaparecendo a partir de 12 ou 13 de janeiro de 1974”, apresenta o texto da comissão. Como sua atuação ocorreu no Rio Grande do Sul e a morte no Rio de Janeiro, houve pouco avanço na comissão catarinense.

Depoimento de professora encerra apuração antes do relatório final

Encerrou ontem o prazo para que as testemunhas levantadas pela Comissão Estadual da Verdade prestassem depoimento. Cinco pessoas foram chamadas, mas apenas uma compareceu. Anita Pires, professora presa em 1964 em Florianópolis devido a sua atuação no movimento estudantil, deu sua versão dos fatos. “Você tem uma história de militância e preocupação com a melhoria social e é presa por isso”, resumiu.

Carlos Kilian/Agência AL/ND
Ao longo do relato ao grupo integrado por Derlei de Luca (à dir.), Anita Pires (à esq.) se emocionou

 

Em tom de desabafo, ela chorou ao falar da descriminação que sofreu após a prisão e da tortura psicológica que enfrentou. Presa aos 18 anos, Anita ficou três meses detida onde hoje é o hospital da Polícia Militar, no centro da Capital. Perdeu emprego, bolsa de estudos e se viu obrigada a mudar de cidade. Chegou a morar fora do Brasil na década de 1970 e retornou em 1979. Continuou sua militância nas áreas sociais.

Com o prazo para envio do relatório final à Comissão Nacional da Verdade já encerrado, a coordenação do grupo estadual optou por finalizar o documento sem os depoimentos das testemunhas que não compareceram. “Elas serão ouvidas posteriormente e enviaremos os dados em documento a ser anexado ao relatório”, explicou o coordenador da comissão Anselmo Livramento Machado. A intenção, segundo o coordenador, é concluir o relatório na semana que vem. O resultado final será apresentado em audiência pública que será realizada no dia 18 de agosto. Os trabalhos da comissão, no entanto, continuam até o mês de dezembro.

Mudança na causa da morte de Higino João Pio será pedida à Justiça

Outro documento entregue ontem ao presidente da Comissão Estadual da Verdade foi o laudo final da perícia sobre a morte do ex-prefeito de Balneário Camboriú, Higino João Pio. Ele foi assassinado em 3 de março de 1969 no Camarote do Capelão da Escola de Aprendizes-Marinheiros de Santa Catarina, em Florianópolis. “Houve tentativa de montar um suicídio. Não houve enforcamento, mas homicídio por estrangulamento”, afirmou o perito Pedro Cunha, de Brasília, contratado pela Comissão Nacional da Verdade para fixar a causa da morte.

Com o laudo final em mãos, a comissão pedirá ao Ministério Público Federal a retificação do atestado de óbito, apontando a verdadeira causa da morte do político. Além disso, solicitará a abertura de inquérito sobre o caso.

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