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Governador de Santa Catarina teria recebido R$ 10 milhões da JBS

De acordo com o delator, o valor teria sido acertado para que Estado beneficiasse empresa em licitação

Felipe Alves
Florianópolis
19/05/2017 às 20H15
Segundo relator da JBS o governador Raimundo Colombo teria recebido R$ 10 milhões  - Flávio Tin/ND
Segundo relator da JBS o governador Raimundo Colombo teria recebido R$ 10 milhões - Flávio Tin/ND


Em troca de licitar a Casan (Companhia de Águas de Santa Catarina), o governador Raimundo Colombo (PSD) e o secretário da Fazenda, Antônio Gavazzoni, teriam recebido R$ 10 milhões em propina da empresa JBS. Em acordo de delação premiada realizada em 5 de maio deste ano, o diretor da empresa, Ricardo Saud, revelou à Procuradoria-Geral da República que R$ 8 milhões desta verba foi para o diretório do PSD para a campanha de Colombo em 2014. O restante foi pago através da rede de supermercados Angeloni.

Os encontros entre Wesley Batista, dono da JBS, Colombo e Gavazzoni teriam começado em 2013, quando a empresa alimentícia comprou a Seara, no Oeste catarinense. “Com isso, criou-se uma intimidade entre o Gavazzoni”, disse Saud. A aproximação teria começado por que Gilberto Kassab sempre pediu para a JBS “dar um apoio” ao (governador do Rio Grande do Norte) Robinson Faria e a Colombo. De acordo com Saud, ele foi procurado por Gavazzoni, que teria feito um apelo para que a empresa comprasse a Seara, que estava prester a fechar.  

Com a estreita relação entre os políticos e os empresários, Gavazzoni teria pedido dinheiro para as eleições de Colombo. Em um jantar na casa de Joesley Batista, dono do grupo J&F, entre junho e julho de 2013 em São Paulo, Sadi afirma que a empresa não tinha “nada para pedir ao governo”, mas a JBS estava montando uma construtora que trabalharia com concessões. Durante o jantar, os empresários afirmaram que poderiam “ajudar” o governo em troca de um favor.

“Nós temos interesse em comprar a Companhia de Água e Esgoto, nós estamos querendo montar essa empresa exatamente para ver se nós conseguimos com essas doações algumas facilidades na licitação, para ver se nós combinamos...”, afirmou Sadi.

Tanto o governador quanto Gavazzoni teriam assentido e concordado com a ideia. Gavazzoni foi designado pelo governador para dar seguimento ao assunto e chegou-se ao número de R$ 10 milhões para “ajudar a fazer o edital de licitação”. De acordo com Sadi, como a construtora não deu certo, o acordo com o governador de Santa Catarina e o secretário da Fazenda só não foi para frente porque a própria JBS não teve interesse.

“Nós desmontamos essa empresa, nós não queríamos mais confusão, não queríamos nada, já desmontamos a empresa, então não foi pra frente”, relata.

“Pagamos R$ 8 milhões dessa proprina dissimulada em forma de pagamento no PSD nacional carimbado para a candidatura do Raimundo Colombo e R$ 2 milhões foi pago em dinheiro vivo lá em Florianópolis mesmo. Eu não posso afirmar se foi o Gavazzoni quem buscou o dinheiro ou se foi um mensageiro dele, mas o dinheiro foi entregue num supermercado que nos ajudou sem saber de nada, pagando em espécie como se fosse uma nota fiscal nossa de R$ 2 milhões”, diz Saud. Este dinheiro, entregue no supermercado Angeloni, teria sido entregue por Augusto Fretta, presidente executivo do Angeloni, sem saber que era ilícito, de acordo com Sadi.

Outro lado

Em resposta enviada pela assessoria de imprensa, o governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, afirma que "as doações da campanha foram feitas de forma transparente e legal. Foram depositadas na conta do diretório nacional do PSD, que repassou para o diretório estadual por conta bancária. Está registrado nas contas da campanha, foi entregue ao Tribunal Regional Eleitoral, é de conhecimento público e está lá para quem quiser conhecer. Nada além disso aconteceu, posso garantir a cada um de vocês. Esta é a realidade. Era a legislação vigente, a forma que se tinha de fazer a campanha e nós cumprimos todos os ritos legais”.

O secretário de Estado da Fazenda, Antonio Gavazzoni, encaminhou nota informando que "declara com absoluta certeza e convicção nunca ter tratado de assuntos da Casan com o referido delator ou qualquer outro executivo da JBS". Para Gavazzoni, essa narrativa é "absolutamente falsa e surpreendente".

Ele afirma que foram efetivamente convidados para o jantar na residência do dono da JBS, em São Paulo, a que o delator se refere e que, neste jantar, a empresa ofereceu ajuda de campanha oficial, como consta das declarações eleitorais, mas não houve nenhuma conversa sobre Casan.

“Eles estão mentindo e por isso nunca terão como provar. Se a companhia detinha alguma expectativa sobre esse tema, os fatos falam por si: não houve edital nem venda de nenhuma ação da Casan. Vamos nos inteirar melhor dos detalhes e em seguida tomar os procedimentos cabíveis. A verdade prevalecerá", declarou o secretário.

O Angeloni afirmou que não houve qualquer participação direta por parte do presidente do grupo na transação, sendo que ele somente autorizou os pagamentos por acumular o cargo de diretor comercial da empresa. "O pagamento pelos produtos adquiridos deste fornecedor é tradicionalmente feito através de depósito bancário, mas, num determinado momento, recebemos a solicitação da JBS para que algumas duplicatas fossem pagas em carteira. Foi então encaminhado o pedido ao Departamento Financeiro para que efetivasse os pagamentos da forma solicitada. Não houve qualquer participação direta por parte do presidente do Grupo, que apenas autorizou os pagamentos por acumular o cargo de diretor comercial da empresa", afirma a nota da assessoria de imprensa do Angeloni.

Casan e Colombo mais uma vez citados na Lava-Jato

Esta é a segunda vez que a venda da Casan e o governador Raimundo Colombo são citados dentro da Operação Lava-Jato. Em 17 de março deste ano, foi revelado que Colombo estava na “lista de Janot”, que continha nomes de mais de cem políticos com pedidos de investigação feitos pelo procurador-geral da república, Rodrigo Janot, ao STF. Os políticos foram citados nas delações de 77 executivos e ex-executivos da empreiteira Odebrecht e da petroquímica Braskem (empresa do grupo Odebrecht).

As declarações de Paulo Welzel e Fernando Reis à Justiça apontaram que a Odebrecht teria interesse na privatização da Casan, e que para isso apoiou as campanhas de Raimundo Colombo através de doações de R$ 13 milhões via “caixa 2” em 2010 e 2014, segundo consta nas delações. Logo no início da gestão de Raimundo Colombo, em 2011, a Alesc chegou a aprovar a possibilidade da venda de até 49% das ações da estatal sem consulta popular, mas o leilão que teria sido prometido à empreiteira, de fato, nunca chegou a ocorrer. E esse é um dos principais trunfos do governador em sua defesa.

Colombo negou qualquer relação pessoal, política ou do Estado com a Odebrecht. O governador afirmou que, em 2010, a proposta era estabelecer um modelo com um parceiro privado que tivesse conhecimento técnico, mas o passivo trabalhista e previdenciário da Casan não tornou a venda viável.

 

Confira a transcrição da delação

O depoimento de Ricardo Saud, que cita o governador Raimundo Colombo e o secretário Antônio Gavazzoni, durou 6 minutos e foi feito em 5 de maio de 2017, na Procuradoria-Geral da República, no Paraná (veja acima).

 

- Senhor Ricardo, agora a gente vai tratar do tema no anexo apresentado pelo senhor aqui, numerado como 29 e intitulado “Raimundo Colombo”. O que o senhor tem a narrar sobre esse fato?

- O Raimundo Colombo, assim como o Robson Farias, são todos os dois do PSD, né? O Raimundo Colombo tava disputando a reeleição ao governo de SC pelo partido do Kassab. O Kassab sempre pediu para a gente dar um apoio ao Robson e ao Raimundo Colombo. Mas nos não [incompreensível] nada do Kassab não, procuramos o Raimundo Colombo direto. Eu fui procurado pelo secretário de Fazenda, o Gavazzoni, numa data oportuna, porque lá nós compramos a Seara. A empresa Seara tava pra fechar, ia dispensar não sei quantos mil trabalhadores, ia ser um caos no Estado de SC. Na época o secretário da Fazenda, o Gavazzoni, nos fez um apelo se podia comprar, o que tinha condições de fazer ou não... o governador Raimundo Colombo conversou muito com o Wesley também petindo para que isso acontecesse, um diretor nosso lá também, o Tomazoni, que hoje é o presidente da Seara. Então nesse contato começou ali uma amizade, uma coisa e tal... e por sorte, não foi por influencia nenhuma deles, o Wesley comprou a Seara, o grupo acabou comprando a Seara, além de salvar a empresa acabou gerando muito mais empregos do que.... E, com isso, criou-se uma intimidade entre o Gavazzoni e ele falou “ó a eleição tá vindo aí, nós vamos ter uma eleição agora, apertada, vamos disputar com o Paulo Bauer aí, não sabe se é o Dário Berger, quem que é eleição, nós estamos precisando de recursos”. Eu ainda falei “pô, mas vocês estão no poder, estão com a máquina na mão e ainda querem recursos, dinheiro, alguma coisa e tal...” mas aí assim mesmo nós convidamos eles para irem num jantar lá na casa do Joesley mais ou menos em junho, julho... isso é, antes, é 2013 que eu to falando, nem chegou na eleição ainda.

- Na casa do Joesley em SP?

- Em SP. Aí foi o Raimundo Colombo, foram alguns outros assessores que eu não lembro o nome e foi o Gavazzoni. E lá, nessa época, nós não tínhamos nada que pedir pra ele, mas por outro lado nós estávamos montando uma empresa, uma construtora na verdade, mas que trabalharia mais com concessões e nós estávamos muito interessados nessa empresa que nós fizéssemos concessões de água e esgoto dos Estados. Então lá no jantar, nós falamos “ó, nós podemos dar uma colaboração aí, podemos ajudar, tal, do grupo não temos nada, vocês nunca nos ajudaram em nada, nem nós queremos, porque o Estado já tem uma parceria com a Seara, nós só queremos que continue o que fazia com a Seara quando ela era do Marfrig, não era do grupo J&F ainda”. “Nós temos interesse em comprar a Companhia de Água e Esgoto, nós estamos querendo montar essa empresa exatamente para ver se nós conseguimos com essas doações algumas facilidades na licitação, para ver se nós combinamos”. Acabei de falar isso, olhei para o Joesley, olhei para o governador, os dois balançaram a cabeça...

- Você disse que tinha o secretário de Fazenda também estava lá, o Antonio Gavazzoni?

- Isso, o secretário e vários outros assessores.

- Ele era secretário de Fazenda?

- É, continua sendo. Eles assentiram, tal, aí falou ó “então faz o seguinte, do meu lado eu ponho o Paulo Ricardo pra tratar desse assunto e ele falou ‘então do meu lado vai o Gavazzoni para tratar do assunto’ ” e nós chegamos a um número aí para a gente participar dessa licitação e ajudar a fazer o edital de licitação, a gente chegou no número de R$ 10 milhões. Então R$ 10 milhões, R$ 10 milhões e tal... e a propina foi paga da seguinte forma. Ah e só pra você entender, esse ato de ofício só não foi pra frente porque nós não tivemos interesse.

- Vocês desistiram do negócio?

- Nós desmontamos essa empresa, nós não queríamos mais confusão, não queríamos nada, já desmontamos a empresa, então não foi pra frente. Então o que nós fizemos para ele, nós pagamos R$ 8 milhões dessa propina dissimulada em forma de pagamento no PSD nacional carimbado pra candidatura do Raimundo Colombo e R$ 2 milhões foi pago em dinheiro vivo, lá em Florianópolis mesmo. Eu não posso afirmar se foi o Gavazzoni que buscou o dinheiro ou se foi um mensageiro dele, mas o dinheiro foi entregue num supermercado também que nos ajudou, coitado, sem saber de nada, pagando em espécie, como se fosse para pagar em espécie uma nota fiscal nossa que estava vencendo, no valor de R$ 2 milhões.

- Pagou para um intermediário do...

- Gavazzoni.

- Gavazzoni...tá. Você não sabe o nome do intermediário?

- Não... Eu afirmaria talvez que foi o Gavazzoni que pegou o dinheiro, mas eu não quero afirmar porque eu não quero também...

- Mas você acha que foi?

- Eu acho que foi.

- E você tem condições de afirmar quem lá no supermercado fez a entrega?

- Tenho, sim senhor.

- Você sabe agora ou quer pesquisar para ter certeza?

- Eu sei agora.

- Então quem foi a pessoa?

- Foi... O supermercado é o Angeloni e quem entregou foi o genro do dono do Angeloni, o Guto, que a gente trata de Guto Angeloni.

- Sem saber que era algo ilícito?

- Não, não sabia não.

- Tá, mas a gente pode checar com ele a informação.

- Eu já me coloco desde hoje à disposição para fazer qualquer tarefa.

- Perfeito. Dr. Francisco, não havendo mais perguntas...


Confira as notas na íntegra

Posicionamento do governador de Santa Catarina

"O governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, contesta com veemência as declarações feitas pelo delator da JBS sobre doações relativas à campanha eleitoral de 2014.

Ressalta que a empresa, conforme a legislação eleitoral vigente, fez doações ao diretório nacional do PSD, que repassou para a campanha do partido em SC.

A doação feita pela JBS foi dentro da legislação eleitoral de forma oficial na conta bancária do partido e está registrada na prestação de contas apresentada e aprovada pelo Tribunal Regional Eleitoral".

Posicionamento do secretário da Fazenda, Antônio Gavazzoni

"Com relação à delação do executivo Ricardo Saud da JBS, o secretário de Estado da Fazenda, Antonio Gavazzoni, declara com absoluta certeza e convicção nunca ter tratado de assuntos da Casan com o referido delator ou qualquer outro executivo da JBS.
Para Gavazzoni, essa narrativa é absolutamente falsa e surpreendente. O secretário esclarece que foram efetivamente convidados para o jantar na residência do dono da JBS, em São Paulo, a que o delator se refere e que, neste jantar, a empresa ofereceu ajuda de campanha oficial, como consta das declarações eleitorais, mas não houve nenhuma conversa sobre Casan. “Eles estão mentindo e por isso nunca terão como provar. Se a companhia detinha alguma expectativa sobre esse tema, os fatos falam por si: não houve edital nem venda de nenhuma ação da Casan. Vamos nos inteirar melhor dos detalhes e em seguida tomar os procedimentos cabíveis. A verdade prevalecerá", declarou o secretário".

Posicionamento do Angeloni

"Temos histórico de relacionamento de muitos anos com a JBS, que deve ser um dos maiores fornecedores da maioria das redes de supermercados. O pagamento pelos produtos adquiridos deste fornecedor é tradicionalmente feito através de depósito bancário, mas, num determinado momento, recebemos a solicitação da JBS para que algumas duplicatas fossem pagas em carteira.

Foi então encaminhado o pedido ao Departamento Financeiro para que efetivasse os pagamentos da forma solicitada. Não houve qualquer participação direta por parte do presidente do Grupo, que apenas autorizou os pagamentos por acumular o cargo de diretor comercial da empresa.

Todos os títulos, inclusive esses em carteira, encontram-se devidamente contabilizados, quitados e as tratativas entre as partes registradas em correspondências eletrônicas.

Ficamos surpresos com as notícias veiculadas, pois, conforme afirmado por um dos delatores, jamais tivemos conhecimento do que se tratava. Estávamos considerando apenas a regularidade do procedimento comercial."

Confira os trechos em que Colombo e Gavazoni são citados na delação

Documento delação Ricardo Saud sobre Raimundo Colombo e Antônio Gavazoni - Divulgação
Documento delação Ricardo Saud sobre Raimundo Colombo e Antônio Gavazoni - Divulgação

 

Documento delação Ricardo Saud sobre Raimundo Colombo e Antônio Gavazoni - Divulgação
Documento delação Ricardo Saud sobre Raimundo Colombo e Antônio Gavazoni - Divulgação

 

Documento delação Ricardo Saud sobre Raimundo Colombo e Antônio Gavazoni - Divulgação
Documento delação Ricardo Saud sobre Raimundo Colombo e Antônio Gavazoni - Divulgação

 

Documento delação Ricardo Saud sobre Raimundo Colombo e Antônio Gavazoni - Divulgação
Documento delação Ricardo Saud sobre Raimundo Colombo e Antônio Gavazoni - Divulgação

 

Documento delação Ricardo Saud sobre Raimundo Colombo e Antônio Gavazoni - Divulgação
Documento delação Ricardo Saud sobre Raimundo Colombo e Antônio Gavazoni - Divulgação

 

Documento delação Ricardo Saud sobre Raimundo Colombo e Antônio Gavazoni - Divulgação
Documento delação Ricardo Saud sobre Raimundo Colombo e Antônio Gavazoni - Divulgação

 

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