Publicidade
Sexta-Feira, 21 de Setembro de 2018
Descrição do tempo
  • 25º C
  • 17º C

Gestão e vínculo com sociedade diferenciam museus de EUA e Brasil

Estados Unidos têm em torno de 35 mil museus, que se distinguem dos quase 3.800 brasileiros especialmente em relação à gestão, ao financiamento e ao vínculo com o público

Folha de São Paulo
Washington (EUA)
07/09/2018 às 15H44

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Os Estados Unidos têm em torno de 35 mil museus, segundo dados do Institute of Museum and Library Services, que se distinguem dos quase 3.800 brasileiros especialmente em relação à gestão, ao financiamento e ao vínculo com o público.

E, claro, na oferta: enquanto há cerca de um museu para cada 55 mil brasileiros, existe um para cada grupo de cerca de 9.000 americanos.

A maioria dos museus brasileiros está sob a responsabilidade de entidades públicas, segundo dados do Ibram (Instituto Brasileiro de Museus): 63% deles são vinculados a órgãos públicos e 37% privados.

É o caso do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, na zona norte do Rio, que teve parte do seu acervo histórico, cerca de 20 milhões de itens, destruído por um incêndio no último domingo (2).

Museu Nacional após incêndio - Tânia Rêgo/Agência Brasil
Museu Nacional após incêndio - Tânia Rêgo/Agência Brasil


As causas da tragédia ainda estão sendo investigadas. Nos últimos cinco anos, o repasse federal ao museu caiu à metade: de R$ 1,3 milhão em 2013 para R$ 643 mil no ano passado, como revelou reportagem da Folha de S.Paulo.

Nos Estados Unidos, existe uma tradição de o financiamento e a gestão ficarem sob a batuta de fundações, sociedades e coletivos que contam com grande apoio da iniciativa privada, diz Maria Cristina Oliveira, museóloga da USP. 

Os museus privados sem fins lucrativos (há também os públicos) são maioria nos EUA, segundo Wilson E. O'Donnell, museólogo da Universidade de Washington: cerca de 24 mil.

"O que não significa que não tenham lucros", diz. "Mas todo o dinheiro vai para o museu, não para os controladores."

Eles recebem recursos do setor privado e uma parte dos recursos do governo, por meio de programas de financiamento.

O professor estima que em torno de 60% dos recursos das instituições venham de doações da iniciativa privada. Dos 40% restantes, a minoria do dinheiro vem da venda de ingressos.

Todos têm um corpo de diretores para gerir e garantir o bom funcionamento do lugar. Os gestores brasileiros, por outro lado, nem sempre são bem qualificados e podem ser fruto de indicação política.

"O maior desafio para as instituições é ter uma governança estável, com profissionais especializados, sem que sejam comprometidas por oscilações políticas", afirma Luciana Cardoso, museóloga da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

A falta de equipamentos de segurança adequados para proteger acervos e itens no Brasil chamou a atenção de Christopher Dick, diretor do museu de Zoologia da Universidade de Michigan que trabalha com pesquisadores do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia).

"Nos grandes museus dos Estados Unidos, proteções contra desastres e roubos e o recebimento de fundos para que as coleções não sejam roubadas são prioridades", diz.

"Muitas instituições brasileiras não têm nem sistema contra incêndio", afirma.

A relação entre museus e a sociedade americana também é mais próxima do que no Brasil, segundo Marina Roriz, doutora em sociologia e professora da UFG (Universidade Federal de Goiás) que realizou pesquisa sobre o assunto.

"O envolvimento com as instituições começa na infância, já que as crianças podem se transformar em futuros mantenedores", diz. "E não querem que frequentem só com a escola, mas também com os pais."

Ações educativas e de lazer são desenvolvidas ao longo dos anos para a construção de vínculos.

"Uma gestora me disse uma vez: 'ninguém acorda com 50 anos e decide que, a partir dali, vai passar a doar recursos para o museu'", conta Roriz.

Cardoso, da UFSC, acredita, contudo, que os museus brasileiros têm sido inseridos cada vez mais no dia a dia da sociedade, de escolas e de minorias até então pouco representadas nesses espaços.

Sobre este último grupo, ela cita como exemplo o Museu de Diversidade Sexual (São Paulo) e o Museu das Remoções da Vila Autódromo (Rio).

Um dos trunfos das nossas instituições é a riqueza dos seus acervos, diz Oliveira.

"Temos muitas instituições de primeira linha, apesar das crises que o país enfrenta", afirma. "O mais importante é divulgá-las."

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade