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Terça-Feira, 11 de Dezembro de 2018
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Funk ostentação é a isca para menores ingressarem no tráfico de drogas em Florianópolis

Em três anos, o envolvimento de meninos com o tráfico cresceu 3.200% na Ilha

Aline Torres
Florianópolis

Em três anos, o número de meninos envolvidos com o tráfico em Florianópolis cresceu 3.200%. Uma das iscas utilizadas pelos chefes das bocas de fumo é a criação de bondes de funk ostentação com patrocínio de bailes para atrair a garotada iludida com a possibilidade de se vestir como a classe A: Nike Shox,Tommy Hilfiger, Oakley. No mesmo ano em que a criminalidade cresceu, a estrutura do Estado desabou. Não há política pública capaz de conter a cooptação dos jovens. Em contrapartida, os chefões do PGC fortalecem a facção com a exploração do trabalho infantil.

Em duas semanas de apuração, a reportagem do Notícias do Dia entrevistou menores traficantes, participou da ronda da Polícia Militar, levantou estatísticas das polícias Civil, Militar das secretarias de Segurança Pública e Justiça e Cidadania e do Conselho Nacional de Justiça, avaliou documentos oficiais que vinculam o movimento musical com a participação dos jovens no mercado dos narcóticos, ouviu Ministério Público, Tribunal de Justiça, Conselho Tutelar e a Prefeitura de Florianópolis, traçou a ação dos traficantes nos bairros e mapeou o tráfico na Capital.

Gustavo* viu quando o irmão foi baleado. O primeiro tiro no braço. O segundo no abdômen. O terceiro no coração. Era uma noite quente de novembro e tudo estava bem minutos antes. Os garotos do morro iam buscar coca cola e salgadinhos para aguentar o trabalho na boca de fumo. Dedeh, seu irmão, e chefe de uma das três bocas da Vila Cachoeira, no Monte Verde, pagou o lanche com a grana de uma bucha de pó vendida para um “playboy”. Foi sua última contribuição para o tráfico.

Dedeh começou a vender drogas aos 17 anos, comprou moto, roupas e coisas que a mãe não conhecia, como alcaparras. Em dois anos virou patrão (o líder da boca). Gustavo foi trabalhar como gerente em 2011. Seu trabalho era basicamente conferir a qualidade das drogas para o irmão, mandar embrulhá-las, controlar os desperdícios, e contabilizar os lucros. Na época, Gustavo tinha 14 anos.

Como os irmãos, cada vez mais adolescentes são atraídos para esse mundo. Em 2009, a Polícia Civil investigou 72 menores envolvidos com o tráfico em Florianópolis. Nos anos seguintes os números dispararam. O aumento foi de 3.200% em três anos. O que as autoridades percebem é que os jovens são cooptados pelo desejo de consumir o supérfluo, característica da sociedade brasileira independentemente do contracheque, que, entretanto, se fundiu com a criação do funk ostentação. A atual isca dos traficantes da cidade.

Débora Klempous/ND
Débora Klempous/ND
Grosso cordões de ouro e prata são alguns dos objetos de consumo ostentados pelo funk

 

Nos últimos dois anos, dez bondes de funk ostentação foram criados por traficantes em Florianópolis. Os patrões das bocadas, atentos ao interesse dos jovens, patrocinam bailes semanais para, obviamente, os colaboradores do negócio. O status de bandido, e a adrenalina das bocas de fumo, agora são revestidos pelo poder de possuir (e exibir).

O novo funk é Lacoste, Louis Vitton, Christian Audigier. É a exibição de marcas antes vistas nos guarda-roupas da classe A. Em 2010, quando surgiu o movimento, o trabalho dos meninos nas bocas de fumo cresceu oito vezes na Ilha e no Continente. Em 2011, no auge, 1.594 adolescentes já estavam sendo investigados na Capital. Ano passado 2.379 jovens foram denunciados por tráfico na cidade.

 Seus serviços são explorados das piores formas. Os olheiros fazem rondas nas madrugadas. Isolados no mato ou sentinelas no alto das pedras do morro, têm o sono roubado pela vigia à polícia e o medo dos traficantes. Se dormirem, apanham. Os vapores vendem a mercadoria e se ela for apreendida, apanham. Os fiéis são responsáveis pelo esconderijo das drogas e armas. Se descobertos, sofrem castigos severos. As mulas carregam as cargas, os gerentes administram, os soldados garantem a segurança e os matadores executam os contra (adversários). Todos são funcionários do patrão, também chamado dono. Os salários, exceto do gerente, não ultrapassam R$ 1 mil. Parece pouco, mas é mais do que ganham suas famílias.

Exercendo estas funções, o 4° BPM Batalhão da Polícia Militar já apreendeu 148 menores neste ano. Meninos que em alguns casos já foram levados para a delegacia mais de 70 vezes pelo mesmo crime. E 70 vezes foram soltos pelas mesmas deficiências do Estado. O Batalhão também mapeou zonas onde os bailes funk e o tráfico são organizados pelas mesmas pessoas. Não por coincidência.

Gustavo deixou de frequentar os bailes de bairro, agora só vai às baladas de Canasvieiras: Life, Mood, que são administradas por empresários. Assim, não cria dívidas com os traficantes. Quando viu o irmão preferido ser executado na sua frente desistiu do tráfico. A redenção também foi marcada na pele. Num braço está tatuado Jesus Cristo, no outro a frase “Dedeh, saudade eterna”.

A Rede Furada

O número de apreensões é o mesmo de aniversários: 13. João* é mais um dos adolescentes angariados pelo tráfico de drogas. Já foi preso com uma pistola 7.65 mm com silenciador, balança de precisão e embalagens de bicarbonato de sódio, para dar volume às buchas de pó. Os números são justamente o reflexo do descaso. Não há solução efetiva para o caso dos meninos criminalizados em Florianópolis.

Há três anos, magistrados do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), inspecionaram as unidades para recuperação de adolescentes infratores em Santa Catarina. Chamaram de “Masmorras da Idade Média”. No porão, três algemas denunciavam o local das penitências dos jovens rebeldes. Sem água ou comida suportavam dias no escuro. Não eram soltos nem para ir ao banheiro. Gritavam até a exaustão.

As crueldades dos locais criados para recuperar os menores infratores puseram o Estado, que se orgulha por estar no topo da avaliação do Índice de Desenvolvimento Humano, em 4° lugar no ranking das piores unidades do país, segundo o CNJ (Conselho Nacional de Justiça).  A posição de Santa Catarina subiu para o 9º lugar depois que o São Lucas foi demolido. Em seu lugar, alicerça-se a mesma estrutura: paredes novas, para a mesma doutrina de castigo e punição.

“Não acredito em reestruturações físicas, um prédio sem goteiras não ressocializa ninguém, nem impede o crescimento da violência. É preciso um amparo social consistente, que começa com uma boa escola. Posso te dizer que 80% dos menores infratores em Florianópolis não vão para aula. Elas não são atrativas. E esse é apenas um ponto. Se a política sócio-educativa do Estado é insuficiente, em muitos municípios ela é inexistente”, critica o promotor de Justiça Marcelo Wegner, responsável pelo destino dos jovens que infringem a lei no município.

Ao Estado cabe a internalização dos menores. Em Santa Catarina, das 27 unidades apenas sete são administradas pelo governo. Os municípios cumprem outras medidas: reparo de dano, prestação de serviços à comunidade e liberdade assistida.

Há menos vagas que a necessidade. Em Florianópolis, 68 menores e suas famílias são atendidos pelo Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), mas a demanda reprimida não é divulgada. A coordenadora do centro, Kátia Selene, explica que os prontuários estão sendo revisados já que muitos adolescentes completaram 18 anos sem nunca terem sido chamados. Há pedidos encaminhados pela justiça há oito anos.  

Na outra ponta, está a falta de base familiar. De acordo com o promotor, a maioria dos adolescentes não conhece o pai. Vivem com as mães, avós e tias, que muitas vezes passam o dia na labuta e eles têm que dividir as responsabilidades da casa. Os mais velhos cuidam dos mais novos.

Para comprar o que não tinha, João largou a família. A vaga na boca de fumo foi oferecida na porta da escola pelo traficante Playboy, gerente de Nenén da Costeira, o chefe da zona Sul de Florianópolis. Sem a presença dos amigos de bairro, colegas de escola e irmãos, substituiu o futebol pelo videogame, brincadeira solitária. “É que aqui ninguém tem amigo”, explica.

A balada da morte

Douglas Machado, ex-gerente para Nenén da Costeira, um dos traficantes mais citados na crônica policial de Santa Catarina, abandonou o posto quando foi solto do sistema carcerário e abriu a gravadora Tudo Nosso Produções. Sua mulher, a Patricinha do Funk, é uma das atrações. Mas, o casting conta com outras estrelas locais, um dos hits de sucesso descreve o apreço pelos sintéticos: “Qué balinha toma/ qué docinho toma/ quero ver resultado depois na minha cama”.

Pedro*, 15, é fã de um dos MCs da Tudo Nosso Produções e das coisas que ele veste. No dia 13 de setembro, aceitou trabalhar para Ticão e Salomé, chefes do João Paulo, para comprar um tênis de marca. Os outros 11 meninos que vendem as drogas no bairro elitizado calçam, principalmente, Nike. Mas a avó que o cria, acha absurdo gastar R$ 600 por um par de sapatos, e comprou exemplares semelhantes aos que o neto gosta no camelódromo municipal. Pedro recorreu à mãe que mora em Biguaçu, mas não foi ouvido. O pai ele não conhece.

Marco Santiago/ND
Pedro entrou para o tráfico para comprar um tênis Nike de R$600

 

Quando surgiu a vaga para vapor ele não questionou. Acha que não será seu o destino dos irmãos de 13 e 16 anos que trabalhavam na boca. Os corpos amanheceram perfurados e cobertos por areia, a mãe correu com a notícia chorada pela vizinhança e chegou a tempo de ver os filhos sem vida na beira da praia, e ainda assim, não teve forças para impedir que seu terceiro menino se unisse aos possíveis assassinos dos irmãos. A comunidade comenta que os garotos foram mortos a mando dos traficantes como advertência aos funcionários imprudentes. Viciados, eles consumiram parte do pó das vendas.

Nos bailes funk organizados no João Paulo, a cocaína gratuita estende-se como uma teia, usada pelos traficantes para dominar as presas, no caso, os funcionários clientes. Maconha tem todos os dias.

Alaf também não teve sorte. O Mc De Menor estava no baile funk "Noite da Minissaia" em Palhoça e durante um conflito policial foi morto com um tiro no abdômen. Menor morava no Morro da Mariquinha e traficava por lá. O corpo foi velado na igreja da comunidade e enterrado no cemitério do Itacorubi, dia 19 de agosto. No mesmo dia, um ano antes, Eduardo, 16, foi morto pela Polícia Militar com dois tiros nas costas na avenida Madre Benvenuta. Entre as duas mortes, outros três adolescentes foram assassinados. Suas mães aguardam pela justiça, que não virá. As mortes não terão mais nenhuma investigação. Os casos estão arquivados.

O que não é espelho

Muitos meninos quando optam pelo tráfico reproduzem o que aprenderam em casa. Quando Denilson da Silva, um dos mandantes do assassinato do Baga foi condenado a 11 anos de prisão por tráfico – e também, pela execução do olheiro Jonathan Robson da Silva, que desapareceu com 2 kg de maconha, foi espancado, jogado dentro de uma vala profunda e queimado vivo, no crime conhecido como do micro-ondas – José de Castilho Martins Júnior, seu braço direito, assumiu o Morro do Mocotó e promoveu a gerente três homens: Cleber de Souza, o Mão Branca, Arnaldo Ferreira e André Gouveia Coelho.

Ano passado, os quatro foram presos pelo Pelotão de Patrulhamento Tático do 4° Batalhão da PM. Mas, a venda de crack no Mocotó continua ativa e abastece moradores da rua. Filhos e sobrinhos dos traficantes assumiram a venda de drogas e disputam o controle do morro.

Marco Santiago/ND
Gustavo começou a traficar no Monte Verde por influência do irmão Dedeh

 

Conexão São Paulo - Florianópolis

O novo funk estourou com tamanha força na Baixada Santista que os estilos pancadão e proibidão, apelos ao sexo vulgar e ao uso de drogas, influenciados pelo Miami bass e pelo rap americano, foram abolidos dos palcos. A batida que agora funde classe media e periferia no litoral sul paulista é outra: “vida é ter um Hyndai e uma Hornet / 10 mil pra gastar / Rolex e Juliet”.

A rima de MC Danado mostra que o funk ostentação é “top do momento”, como já sugere o título da sua música com mais de 200 mil visualizações no YouTube. Para quem não entendeu a letra do MC, antes conhecido como André Moura, office boy de uma sapataria da Zona Leste de São Paulo, ele fala das marcas de carro, moto, relógio e óculos, além do dinheiro. Refrão avaliado em R$ 500 mil.

Ao ostentar - o que não têm - os paulistanos assumem a vanguarda do estilo que surgiu nos subúrbios do Rio de Janeiro nos anos 70 e ganhou as telinhas com o apoio da apresentadora Xuxa e mais tarde com o Furacão 2000. Mas do romântico ao erótico, os funkeiros tiveram que mudar para não perder espaço.

“O que vale hoje é ter a rima e os kits”, ensina MC Danado, referindo- se ao manual básico de vestimentas de um funkeiro: Nike. Oakley. Adidas. Lacoste. Christian Audigier. Tommy Hilfiger. Ir para o baile com uma camiseta sem grife é como ir para o inferno sem pecados. “Diferente do funk carioca, o visual e os carrões inspirados nos rappers americanos, viram o tema das letras”, comenta Sílvio Essinger, autor de “Batidão”, livro sobre o funk brasileiro.

E o precursor do movimento, que ensaiava sua aparição desde 2008, foi MC Bio G3, criador do Bonde do Juju, com 1 milhão de visualizações no YouTube, apesar do vídeo caseiro:“Quem não é, não se mete /Nóis só porta Oakley / É o bonde da Juliet / Romeo 2 e Double Shox / 18 K no pescoço, de Ecko e Nike Shox”

Mas foi a “Mégane”, do Boy do Charmes, lançada no YouTube em junho de 2011, que deu fama ao movimento. Foi a primeira vez que o funk ostentação teve um clipe. Trabalho feito por Konrad Dantas, o KondZilla. A batida de “Imagina nós de Mégane, ou de 1.100 / Invadindo os baile / Não vai ter pra ninguém”, teve 3 milhões de acessos.A partir daí o ostentação virou lei.

Depois disso, no bairro Pantanal, em Florianópolis, Biel e Choquito viraram MCs e foram dar suporte à banca de Adriana Sabino Alves. A viúva de Cesinha ainda atende no mesmo endereço. Apesar do assassinato do marido e da filha de 19 anos, Adriana mantém os quatro filho e três sobrinhos, todos menores, a frente das negociações. Quando as drogas estão em baixa, em períodos de férias ou rondas militares, eles migram para os roubos.

No morro da Caixa, berço do tráfico em Florianópolis, desde que o Baga alimentou três gerações com cannabis: dos anos 1980 ao dia 16 de agosto de 2000, dia que foi morto num dos pés-sujos da avenida Mauro Ramos, trabalham dois MCs: de 13 e 16 anos. São olheiros nas bocas de Válter Costa Filho, o Tico, ex-cabo do Batalhão de Infantaria do Exército.

Nas páginas do facebook, os MCs traficantes da Capital, divulgam dois ídolos do funk paulista: MC Kauan, que se apresenta com máscara de palhaço, símbolo também do 157 (assalto), e MC Vitinho, entusiasta do tráfico. Ambos já se apresentaram na cidade, que em abril foi sede do 1° Luxúria e Ostentação.

Consumismo

O promotor Marcelo Wegner, titular do gabinete de Apoio Operacional da Infância e Juventude do município crê que a vontade de estar na moda é uma tentativa para minimizar a sensação de exclusão. “Não sei se esse funk é a causa ou a consequência. O entendimento dessa questão não é simples. Mas, vários menores quando questionados falam que o motivo dos crimes é comprar a calça tal ou os óculos tal. A música retrata a cultura”, avalia.

Para o sociólogo Marcos Rolim, especialista em direitos humanos e segurança pública, com vários livros publicados sobre o assunto, antes de condenar o novo estilo musical, temos que perceber o quanto há dele nos nossos valores. Na adoração do ter e da sensação de poder que é alcançada.

Apesar de o novo estilo ser apenas reflexo e embora não tenha sido criado com esta intenção, serve para atrair alguns jovens para o crime, analisa o comandante do 4° Batalhão da Polícia Militar da Capital, tenente coronel Araújo Gomes. Observação é alicerçada por estatística: a cada semana, 10 menores são encaminhados ao Ministério Público por envolvimento com o tráfico.

Na média, cada um recebe R$ 50 por dia para os serviços de base: apoio, logística, comunicação. Dinheiro gasto com superficialidades. Os que prosperam assumem o posto de gerente ou matador antes dos 18 anos. Poucos são resgatados antes disso. Outros viram líderes, como na região Continental.

César Tiago Raupp, da Ilha Continente, Alexandre do Amaral, o Sandrinho, da Chico Mendes, e Carlos Roberto Alves, Queijinho, da Caixa D’água, entraram para o tráfico na menoridade e hoje lideram a venda de narcóticos nos bairros, empregando meninos.

Débora Klempous/ND
Bailes funk para os menores empregados nas bocas são patrocinados por traficantes  

 

Facção explora o trabalho infantil

O tráfico alimenta o PGC (Primeiro Grupo Catarinense). No estatuto da facção criada dentro da Penitenciária de São Pedro de Alcântara, dia 3 de março de 2003, por Nelson de Lima, o Setenta, a ordem é expandir o mercado dos narcóticos em Santa Catarina. No alicerce deste império, invisível até o dia 12 de novembro do ano passado, quando começaram os atentados contra o Estado, está o trabalho infantil.

No Norte de Florianópolis quem manda é o MC do funk, patrão da Favela do Siri, ele é sobrinho de Damacir Cândido, 40, - membro do alto escalão do PGC. Quando o tio foi preso em novembro de 2011, na Operação Matuto, assumiu o comando do tráfico. Tinha 12 anos.

Agora o menino é o rei do Siri: 90% das casas do bolsão de pobreza no bairro Ingleses, construído no governo Ângela Amin, são propriedades da família. Poucas são as viaturas da polícia que se arriscam a entrar lá. Denúncias que ainda estão sendo investigadas apontam que os ônibus incendiados em Ingleses, durante os atentados ao Estado, tenham sido ordenados por Damacir de dentro da cadeia.

Na favela a venda de drogas é constante, mas às terças-feiras têm baile funk, com carne, bebidas e drogas liberadas. Nas biqueiras do Siri não trabalham adultos.

No Morro no Horácio, o bonde Poseidon é patrocinado pelo traficante Fabrício da Rosa, que divide o poder no morro com Rodrigo da Pedra, ambos apontados pelo Ministério Público como líderes do PGC.

O título rendeu a Rodrigo a transferência para a Penitenciária Federal de Mossoró, depois da segunda onda de atentados que atingiu 52 cidades catarinenses. Já Fabrício responde judicialmente pelo assassinato de Deise Alves. A morte da agente prisional (em 26 de outubro de 2012) foi o estopim para os ataques.

Um dos principais MCs do Poseidon, no Morro do Horário, tem 17 anos, 14 passagens policiais por tráfico, roubo, receptação e porte ilegal de arma. No “Gangster Gospel” clipe do Poseidon, ele e outros menores desfilam com um revólver 38 e uma pistola 9 mm - calibre restrito às forças armadas. Fabrício aparece num dos clipes, o “Ilha Mapeada” – disponível no YouTube.

Já quando canta com um parceiro, o MC fuma charolas (charutos de maconha) e abastece os copos com uísque e Red Bull. Quem não vive a mesma experiência é “chinelo” “recalcado” e “invejoso”. E deve temer, porque “A firma é treinada / A quadrilha é mostra / Somos caçadores de cifrão / E quem antes tava a pé hoje tá na condição”. Em 2011, foi preso num baile funk na Life, em Canasvieiras. No meio da multidão ele disparou 14 vezes num desafeto com uma pistola .40. O inimigo saiu ileso.

Aldonei Paim, patrão do Caju, no Saco Grande, mantém um pequeno exército chamado de Comando G “meninos 12/11”, referência à idade dos membros do grupo que tatuam na pele um compromisso: o palhaço vermelho que na cadeia significa matador de policial. Seu arquirrival é Geovani de Souza, dono da rua Nossa Senhora de Lourdes, terceira via da Vila Santa Rosa, na Agronômica.

O começo da guerrilha pela Santa Rosa foi em outubro do ano passado. Desde lá, Paim tomou as vias principais da favela, invadida pelas duas famílias na década de 90, a servidão Santo Antônio e rua Zumbi dos Palmares. Sua pretensão é dominar o morro do Quilombo, no Itacorubi, tomado por craqueiros que traficam para bancar o vício. Os meninos são os braços dessa guerra. O PGC o cérebro.

Governo repete erros

Em 2010, por intermédio do Conselho Nacional de Justiça, o PAI (Plantão de Atendimento Inicial) e o São Lucas foram interditados. O PAI foi reaberto em 2012, depois de uma reforma que não sanou deficiências físicas, nem humanas. O São Lucas foi demolido em junho de 2011. No mesmo lugar é construído o Case (Centro de Atendimento Socioeducativo da Grande Florianópolis), no bairro Areias, em São José. A conclusão está prevista para fevereiro de 2014.

O Estado oferece 365 vagas para cumprimento de medidas socioeducativas: 95 jovens aguardam na fila de espera, que na prática, significa que eles estão nas ruas, cometendo os mesmos delitos.

Das 27 unidades, sete centros são administrados diretamente pelo Estado. As outras unidades são mantidas através de convênios com ONGs (Organizações Não Governamentais). Em 2012, a Secretaria de Justiça e Cidadania repassou mais de R$ 4 milhões para as entidades não governamentais.

O governo prevê a construção de três novos centros administrativos, em Criciúma, Lages e Chapecó, que disponibilizarão 120 vagas para atendimento definitivo e 60 para provisório. Em novembro será inaugurada uma unidade em Joinville, com 70 vagas. Em Florianópolis não há nenhum centro para internação. Os menores infratores são enviados para Lages e Chapecó, o que fere o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), porque as famílias devem estar próximas dos menores. Por isso, só há detenção apenas em casos críticos. Do contrário, o município executa as medidas de ressocialização.

Na visão do promotor Marcelo Wegner reestruturações físicas não impedirão o crescimento da violência. “Precisamos ter outros cuidados. Nos locais não há separação por sexo, faixa etária e gravidade de crime. Não há educação de qualidade. Nem cursos de profissionalização. Os jovens também não têm atendimento individualizado. E os agentes não são capacitados, o Estado sequer pode investir nisso, não é possível gastar dinheiro público na formação de profissionais de ONGs”.

O que Santa Catarina oferece para os menores são cópias das cadeias, que depois dos atentados, servem como provas de que a violência vivida intramuros respinga na rua e atinge todos.

Ronda

Sexta-feira 13. Faz frio em setembro. Entro com o fotógrafo Marco Santiago na viatura do 4° Batalhão da PM. O Tenente Riskala nos mostrará a realidade policial das rondas noturnas. Falta uma hora para meia-noite. Na avenida Beira-mar Norte o movimento é em direção ao El Divino, onde o palco espera MV Bill. Coincidentemente nosso trabalho é o mesmo que o rapper desenvolveu entre 1998 e 2006: conversar com meninos do tráfico. A diferença é que ele teve oito anos - nós, uma noite. Ídolo, principalmente daqueles que conhecem a cara da desigualdade, a apresentação faz o movimento das bocas juvenis cair. Muitos vão para balada e compram camarotes com espumante liberada.

Percorremos a cidade. Subimos os morros e não faltam olheiros para avisar nossa chegada. São os ditos corres. Logo as ruas esvaziam para em seguida serem ocupadas por mulheres grávidas, com bebês no colo ou crianças. Indiretamente estão a serviço do tráfico. Postas no front na tentativa de amenizar confrontos. Não há confronto. E não precisamos ir longe. Eles estão ali: à mercê da morte.

Marco Santiago/ND
O 4° Batalhão da Polícia Militar já apreendeu 148 menores neste ano

 

Em bairros próximos, histórias opostas. Enquanto, Gustavo*, 16, morador da Vila Cachoeira, no Monte Verde, abandonou a gerência da boca, após assistir e execução do irmão, Pedro*, 15, do João Paulo, começou naquela madrugada a vender drogas para os traficantes do bairro, apontados pela vizinhança como os matadores dos dois irmãos que trabalhavam para eles. Saldos da cocaína.

Por onde passamos, Riskala conhece todos pelo nome. Vive como gato atrás de rato, num diário prende e solta. Não crê na eficiência do judiciário ou na participação efetiva do Conselho Tutelar, seu objetivo é dar prejuízo nas bocas. Os narcóticos e as armas apreendidas evitam que um ponto cresça mais que o outro. Consequentemente não há guerras do tráfico. Quando as bocas são sitiadas, os roubos na cidade aumentam. Colaboradores silenciosos da policia, alguns pais ligam para o 190 e denunciam o mocó das drogas. À deriva, esperam que a PM resgate seus filhos submersos numa tragédia anunciada.

As marcas mais ostentadas pelos funks

- Citado em várias músicas, o Megane, modelo da Renault, dá título a um hit do MC Boy do Charmes. Já o carro da Chevrolet que desperta cobiça de muitos MCs, como o Guime, é o Camaro. Veja no clipe “Tá Patrão”.

- O uísque Red Label, as vodkas Absolut e Big Apple, e os energéticos embriagam os bailes funk. A prova está no “Como é bom ser vida Loka”, do MC Rodolfinho e “Sou patrão, não funcionário”, do MC Menor do Chapa. Já o espumante Chandon é degustado nos clipes do MC Boy do Charmes, MC Pikeno e Menor e da MC Pocahontas.

 - Vida para o MC Danado é ter uma Hornet. As motos mais lembradas pelos funkeiros paulistas são Honda, Sukuzi e Kawasaki.

 - Já as marcas de roupa são resumidas neste refrão do Boy do Charmes, "De Christian [Audigier] ou de Oakley/De Tommy [Hilfiger] ou de Lacoste". 

 - Já a MC Pocahontas canta que com uma bolsa Louis Vitton vira uma “mulher do poder”.

:: Centro cultural supre lacunas do Estado na recuperação de menores infratores em Florianópolis

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