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Quinta-Feira, 15 de Novembro de 2018
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Fortaleza de Araçatuba, no Sul da Ilha de Santa Catarina, receberá restauração definitiva

Em ruínas, fortificação construída no século 18 para a defesa da Ilha será recuperada para se transformar em destino turístico

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis

Da bateria circular que domina a ilhota de Araçatuba, a vista é deslumbrante, mesmo nos dias de pouco sol. De um lado, a praia e o farol de Naufragados, em meio ao verde escuro da Mata Atlântica. De outro, as montanhas não menos verdes do Parque da Serra do Tabuleiro, com as areias da praia do Sonho e os costões da Ponta do Papagaio no lado oposto do canal, a poucas centenas de metros dali. Ao Sul e a Leste, o mar imenso, ornado pelas ilhas Três Irmãs e pela Moleques do Sul. Para quem conhece a região, cada detalhe é uma referência, um motivo de admiração, mas a joia maior está ali – a única fortaleza construída no século 18 que exibe ruínas a céu aberto no litoral catarinense.

Marco Santiago/ND
Em ruínas, a fortaleza passou por uma tentativa frustrada de recuperação

 

Após uma tentativa frustrada em 2003, a fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Araçatuba, no Sul da Ilha de Santa Catarina, deve ser alvo de um processo definitivo de restauração, passando a compor com as demais atrações do entorno – praias, unidades de conservação e uma natureza exuberante – um novo destino turístico na Grande Florianópolis. O primeiro passo é combater a degradação e o mau uso do espaço, uma tarefa para a 14ª Brigada de Infantaria Motorizada do Exército, batizada de Brigada Silva Paes. Depois, a ideia é investir na recuperação da parte mais intacta da estrutura, para estancar a deterioração em curso. Por fim, a construção de um atracadouro surge como opção para a visitação organizada e sistemática da fortaleza.

“Dinheiro não é problema”, diz o coordenador do Projeto Fortalezas da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Roberto Tonera. O PAC das Cidades Históricas destinou R$ 10 milhões para a recuperação das fortificações no Estado, e há a possibilidade de buscar recursos em outras fontes, como os ministérios do Turismo e da Cultura, além de entidades estaduais e municipais. Uma parte da verba do PAC já vem sendo aplicada nos fortes sob a administração da UFSC, em São José da Ponta Grosa (Jurerê) e nas ilhas de Anhatomirim e Ratones – que recebem, juntos, 140 mil visitantes por ano.

Cuidados com a sinalização e paisagismo

O primeiro passo para mudar o cenário atual foi a decisão do Exército de dar status de espaço cultural ao espólio da fortaleza de Araçatuba, erguida a partir de 1742 pelo brigadeiro José da Silva Paes, e também ao forte Marechal Moura, construído em 1909 próximo ao farol de Naufragados, já na Ilha de Santa Catarina. Isso cria condições para que os projetos de recuperação das duas fortificações, mas especialmente da primeira, também chamada de Barra do Sul, sejam retomados.

Na última quinta-feira, o Exército promoveu um mutirão de limpeza da ilhota, com a participação de bombeiros e de voluntários, a maioria estudantes universitários. O resultado foram dezenas de sacos com plásticos, restos de grelhas de churrasco, xepas de cigarro, tampas de garrafas, linhas de pesca e até colchões abandonados. Uma placa de advertência e com informações históricas foi descerrada, marcando uma espécie de reconquista do local pelas instituições que desejam vê-lo valorizado do ponto de vista histórico e cultural. “A decisão do Exército é corajosa e esta visita marca o início de uma nova fase para este patrimônio nacional”, afirma o arquiteto Roberto Tonera.

Florianópolis e os municípios vizinhos, além de Paulo Lopes e Garopaba, poderão se beneficiar com o projeto. Contudo, o Exército e a UFSC pensam também no curto prazo, pois o mais urgente é melhorar a sinalização, o paisagismo e o balizamento da fortaleza, como já vem ocorrendo em outras fortificações da região. Segundo o general de Brigada Richard Fernandez Nunes, o forte Marechal Moura, pela maior facilidade do acesso, pode ser aproveitado para visitação antes que o de Araçatuba.

 

Um canal que entrou para a história

Assim como os demais fortes da região, o complexo de Araçatuba nunca chegou a ser utilizado na função de defender a Ilha de Santa Catarina dos invasores espanhóis que almejavam, assim como os portugueses, tomar conta dos territórios do Atlântico Sul a partir do século 17. Os inimigos surpreenderam ao entrar por terra, na região de Canasvieiras, em 1777, e tomar conta da Ilha sem dar um tiro. No entanto, no caso de Naufragados, a mística é muito grande, porque em 1753 ali afundou um navio com casais açorianos que se dirigiam ao Rio Grande do Sul, deixando apenas 77 sobreviventes.

Outro episódio conhecido dá conta de que em várias ocasiões a escultura de Nosso Senhor Jesus dos Passos, feita em madeira pelo artista baiano Francisco das Chagas e que seria levada para Porto Alegre, precisou voltar por causa do mau tempo na barra Sul da baía. Na época, os devotos entenderem que era vontade divina que o santo permanecesse na Ilha de Santa Catarina, e assim foi feito. Até hoje, a procissão do Senhor dos Passos, cuja imagem fica na capela do Hospital de Caridade, leva milhares de pessoas às ruas todos os anos.

 

Estruturas podem ser recuperadas

O coordenador do Projeto Fortalezas, Roberto Tonera, explica que há na ilha de Araçatuba estruturas bastante danificadas, como a Casa da Guarda, da qual restaram apenas algumas paredes, enquanto outras, como a Casa do Comandante, objeto de ações emergenciais nos anos de 1988 e 2000, são “perfeitamente recuperáveis”. No lado da primeira está a Casa da Palamenta, onde se guardavam os apetrechos para uso em canhões, e uma cisterna intacta que armazenava água da chuva para garantir o abastecimento em caso de invasão inimiga ou isolamento da tropa por um período prolongado.

No chamado Armazém da Praia, a UFSC realizou há mais de 20 anos, com o patrocínio da Fundação Banco do Brasil, a consolidação de algumas partes em ruínas, fazendo o que os técnicos chamam de reembrechamento para garantir a integridade temporária de paredes ameaçadas. No entanto, telhas cerâmicas e madeiras foram roubadas, porque não há uma fiscalização permanente que iniba a chegada de pequenas embarcações na ilha.

A fortaleza tinha dois paióis da pólvora, um deles já com características do século 19, com apenas uma porta, corredor a céu aberto e corta-fogo para evitar riscos de explosão e danos em caso de ataques inimigos. No complexo é possível encontrar um canhão parcialmente soterrado, quase submerso na vegetação. A fortaleza foi tombada em 1980 pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e ainda está sob a jurisdição do Exército.

 

Projeto existente deve ser readequado

O projeto para a recuperação da fortaleza de Araçatuba está pronto, diz Roberto Tonera, porque na década de 80 já havia a possibilidade de uma intervenção, e no máximo será preciso fazer algumas adequações e agregar anexos atualizados. No ano 2000 a UFSC licitou os trabalhos e usaria recursos do Ministério do Turismo para executar as obras, mas resolveu devolver a ilha ao Exército em 2003 e com isso o projeto foi engavetado. O atracadouro chegou a receber as primeiras estruturas, mas elas não resistiram à força do mar da Barra Sul.

A iconografia remanescente, documentos textuais (relatórios da época) e eventuais fotos e desenhos permitem que os técnicos saibam como era a maior parte das construções hoje arruinadas. “Para restaurar, é preciso ter informações suficientes, de preferência fontes primárias”, ressalva o arquiteto, que é profundo conhecedor do tema. Antes de qualquer intervenção é feita uma pesquisa arqueológica e um cadastro físico, arquitetônico e fotográfico das edificações existentes. No caso de Araçatuba, será preciso pensar em questões como abastecimento de água e energia elétrica, em vista da estrutura a ser montada e das necessidades dos futuros visitantes.

Pelas convenções internacionais, não é obrigatório restaurar todas as casas e até se admite realizar um projeto contemporâneo, preservando o espólio existente. Caso a restauração for realizada, a intenção da UFSC é instalar sanitários, área de exposição, espaço para apoio administrativo e talvez uma cafeteria para melhor atender aos turistas.

 

CONHEÇA AS EDIFICAÇÕES


Casa da Guarda
Edificação semidestruída que ficava de frente para a entrada da baía Sul, permitindo a observação do movimento de embarcações no canal.

Armazém da Praia
Dava suporte ao desembarque dos víveres, numa época em que, por motivo de segurança, os fortes não tinham trapiches ou atracadouros.

Casa do Comandante
Construção em bom estado de conservação, que já foi alterada no século 19 e que chama a atenção pelas paredes de quase um metro de largura.

Casa dos Moços
Essa expressão, encontrada na iconografia sobre as fortalezas do litoral, designa os dois locais na fortaleza em que os auxiliares dos oficiais ficavam alojados.

Paiol da Pólvora
Espaço com paredes grossas e aberturas enviezadas que ficava geralmente na parte alta do terreno para dificultar a ação da artilharia inimiga.

Quartel da Tropa
Local onde ficavam os soldados, que pela hierarquia militar não podiam se misturar com os ocupantes de cargos superiores.

Bateria Circular
Local mais elevado da fortaleza, é onde estão alguns dos velhos canhões dos séculos 18 e 19 que nunca foram utilizados.

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