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Floripa sem berbigão: pelo menos desde abril de 2016 não há mais extração do molusco

Mortandade do berbigão começou em 2015 e teve pequena recuperação no ano seguinte, mas o molusco não se regenerou naturalmente

Felipe Alves
Florianópolis
30/01/2017 às 20H17

Cascas de berbigão espalhadas pelo mangue, rastelos enferrujados, ranchos fechados e caixas vazias são tudo o que sobrou da extração de berbigão na Tapera, Sul da Ilha. Nas duas principais áreas de cultivo de Florianópolis - Tapera e Costeira do Pirajubaé -, a extração de berbigão, que por muitos anos garantiu a subsistência de dezenas de famílias, tornou-se atividade em extinção. Desde abril de 2016, o departamento de aquicultura da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e o ICMBio (Instituto Chico Mendes da Biodiversidade) monitoram mensalmente a área da Resex (Reserva Extrativista) do Pirajubaé. A esperança era de que o molusco se regenerasse naturalmente, mas o berbigão não voltou e, hoje, não há mais famílias vivendo dessa atividade na Ilha.

Maria de Lourdes, que sustentou a família durante 11 anos descascando berbigão, agora é sócia de um brechó - Marco Santiago/ND
Maria de Lourdes, que sustentou a família durante 11 anos descascando berbigão, agora é sócia de um brechó - Marco Santiago/ND


Uma grande mortandade da espécie foi registrada no início de 2015, com perda de pelo menos 95% de moluscos adultos em uma área de 17 hectares da baía Sul. Em fevereiro de 2016, o ICMBio chegou a registrar um início de regeneração do estoque de berbigão, mas que acabou não vingando.

O projeto de pesquisa da professora Aimê Rachel Magenta Magalhães, do departamento de aquicultura da UFSC, começou em abril de 2016 e deve ser concluído em setembro deste ano, com o intuito de analisar os estoques naturais de berbigão na Costeira. Mensalmente uma equipe vai até a região e coleta amostras em 24 locais. “Até agora não se viu a recuperação natural de berbigões. Há pouca quantidade e, mesmo assim, estão morrendo”, afirma.

Uma ideia discutida desde 2015 para repovoar as áreas produtivas é a produção de sementes em laboratório a serem plantadas na baía Sul. De acordo com Leci Santin, chefe substituta do ICMBio, como ainda não há a confirmação de dados científicos que atestem o que levou à morte dos berbigões, o plantio de sementes ainda não será feito. “Corremos o risco de fazer um grande investimento e morrer tudo. Biologicamente o replantio tem mortandade bastante grande também. O ideal seria a recuperação natural, mas isso não está acontecendo”, explica.

Causas ainda são investigadas

De acordo com a professora Aimê Magalhães, as causas da mortandade de 2015 e que se arrastam até hoje ainda não estão cientificamente esclarecidas. Entre as hipóteses estão o excesso de chuva naquela época, o acúmulo de sedimentos no fundo lodoso, a poluição, a alta temperatura da água e o excesso de extração do molusco. Um parasita também foi encontrado nos berbigões, mas ainda está sendo identificado se isso foi um agravante para a mortandade. “O substrato do local está diferente, o fundo está diferente, cheio de pedras, e o resultado disso é a ausência de berbigões”, diz.

Segundo Aimê, o replantio com sementes produzidas em laboratório é possível e teria apoio do laboratório de aquicultura da UFSC do ponto de vista de pesquisa. Mas ela ratifica o posicionamento do ICMBio: “É preciso entender o porquê de não ter mais berbigões ali. Não adianta nada lançar indivíduos no local se eles vão morrer também”. Todo material coletado (de substratos e sedimentos) será comparado também com amostras coletadas há dez anos pela Univali (Universidade do Vale do Itajaí), que também faz pesquisas no local.

Plantio de sementes seria alto investimento

O ICMBio, que é responsável pela Resex, atua em parceria com UFSC e Univali nos campos de estudos para tentar entender o que levou à morte dos berbigões na baía Sul. Segundo Leci Santin, a região já foi o maior banco do Sul do Brasil de berbigões. A alternativa de produzir as sementes em laboratório demandaria um alto investimento e seria também um risco, já que a iniciativa seria inédita em Santa Catarina. “Temos pesquisas iniciais, mas isso nunca foi feito, só a nível de pesquisas”, afirma.

De acordo com Sirlei de Castro Araújo, do Programa Pesca e Maricultura da Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina), caso o repovoamento seja aprovado futuramente, a Epagri deverá participar com a capacitação dos extrativistas. “Temos pesquisadores que podem auxiliar os extrativistas a como fazer esse plantio. Como nunca foi feito esse tipo de plantio, tem que se testar a melhor forma para que funcione”, diz.

No ano passado, o conselho deliberativo da Resex chegou a iniciar conversas com os extrativistas para alterar a portaria de regramento da extração de berbigões na cidade, mas a iniciativa não avançou. “Ali na reserva havia um número limitado de 25 extrativistas que podiam atuar, um determinado número de lotes e só em quatro dias de semana. Mas houve uma desmotivação muito grande do pessoal em continuar se reunindo porque não havia mais berbigões”, explica Sirlei.

Famílias não vivem mais de berbigão

Dona de um rancho na Tapera, Maria de Lourdes Custódio, 49 anos, criou as duas filhas descascando berbigão durante 11 anos. Segundo ela, desde o vazamento de óleo na subestação da Celesc, em dezembro de 2012, o cultivo na região deixou de ser o mesmo. Com o problema ambiental, as pessoas passaram a desconfiar da qualidade do molusco e, logo depois, ele começou a sumir.

Por isso, Maria de Lourdes resolveu abrir um brechó com a irmã para sobreviver. “Terminei minha casa através do berbigão e dei estudo para as minhas filhas descascando berbigão. O que eu ganho no brechó em uma semana eu tirava em um dia com berbigão”, conta.

Na praia da Mutuca a maioria dos ranchos está vazia e outros estão ocupados por familiares dos ex-extrativistas. No lugar do berbigão, peixe, camarão e carangueijo ainda são pescados no local.

Dono da Peixaria Cia do Mar, no Rio Tavares, Moacir Westphal Júnior, 36, não compra berbigão na Ilha desde 2015. “Agora eu só compro de São Francisco do Sul. É mais caro, antes eu pagava R$ 14 o quilo e agora pago até R$ 20. Mas o nosso berbigão daqui era maior, mais saboroso”, afirma.

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