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"Florianópolis hoje é uma repetição da década de 1980", diz Vinícius Lummertz

Catarinense, que tomou posse como Ministro do Turismo na semana passada, fala sobre o foco de sua gestão à frente da pasta e também sobre questões ligadas a Florianópolis

Fabio Gadotti
Florianópolis
15/04/2018 às 20H51
Vinicius Lummertz é o novo Ministro do Turismo  - Marco Santiago/ND
Vinicius Lummertz é o novo Ministro do Turismo - Marco Santiago/ND


Em entrevista ao Notícias do Dia, o catarinense Vinicius Lummertz, 57, que tomou posse como Ministro do Turismo falou sobre o foco de sua gestão à frente da pasta. Ele ainda comentou sobre questões ligadas a Florianópolis, que “hoje é uma repetição da década de 1980, com exceção de Jurerê Internacional e do Costão do Santinho”, segundo avalia. Confira abaixo a entrevista na íntegra.

Notícias do Dia - Qual vai ser o foco da sua gestão, levando em conta especialmente a falta de recursos e poucos meses até o fim do governo?

Vinícius Lummertz - A prioridade, a nível nacional, é passar o projeto que transforma a Embratur em uma poderosa agência internacional, abrir o capital das aéreas para que as nossas empresas possam se capitalizar. Precisamos de voos baratos no Brasil, internamente e externamente, para isso é preciso melhorar o ambiente de negócios. Estamos fazendo 118 mudanças na lei geral do turismo para desburocratizar. Queremos manter essa janela de oito meses de isenção de importação de equipamentos que conseguimos para parques temáticos. E já conseguimos também a desregulamentação dos voos charters, que vai beneficiar Florianópolis. Temos mais mudanças, entre elas crédito e consultoria a municípios nessa parceria fechada com o Sebrae e com o BNDES, que terá uma linha de crédito de R$ 5 bilhões. Nosso grande desejo é transformar esses projetos num ambiente de mais concessões e PPPs (parcerias público-privadas). Porque teremos mais investimentos privados. O raciocínio é ter um investimento privado que fomente o público. Se você investe R$ 4 milhões de recursos públicos para fazer o projeto, pode ter R$ 40 milhões de investimentos privados. Essa é a lógica. Nós compreendemos isso ou realmente a falta de imaginação vai se tornar crônica. Estudo da Oxford Economics diz que SC é um dos lugares com maior diversidade do planeta.

O que falta para que o turismo no Brasil seja efetivamente uma potência sob o ponto de vista econômico?

Faltam atitude política e imaginação. Falta colocar o turismo no centro da agenda do país. Na França, é o primeiro item do PIB. O que as pessoas não entendem é que o turismo fomenta todas as demais indústrias. A França vende mais perfume, alimentos e vinhos por causa do turismo. Vende até os carros. Quem vai à França e gosta do país é possível que compre um Peugeot ou um Renault. Porque compra a experiência, a percepção. É muito importante entendermos o quanto o futuro de Santa Catarina vai passar pelo turismo, inexoravelmente.

Por que é importante transformar a Embratur em agência?

Porque a Embratur investe pouco, o plano de cargos e salários não atende a um recrutamento de jovens em nível de competição internacional. Para ter uma ideia, a média de investimento dos países da América Latina em investimento em promoção no exterior é US$ 100 milhões, nós temos US$ 17 milhões. E somos o maior país turístico da região. A agência tem mais flexibilidade de contratação, tipo a Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) e o Sebrae, e pode fazer parcerias com a iniciativa privada.  E Embratur é proibida de abrir escritório no exterior, acredita? Daí tem representação terceirizada. As instituições têm que servir ao seu tempo, e não o contrário. Ela tem que ser modernizada.

O senhor fala que a gente perdeu a capacidade de imaginar o futuro. Pode explicar melhor essa ideia e relacionar com o turismo?

Sim, eu penso que estamos perdendo a capacidade de imaginar o futuro. Retomamos o crescimento, fizemos reformas, mas penso que precisamos sair de uma discussão que hoje, em grande parte, está no século 19. Precisamos de uma discussão do século 21. E o Brasil me lembra muito aquele filme “O Show de Truman” (EUA, 1998), em que o indivíduo descobre que vivia no meio de uma bolha. O Brasil é uma bolha de ideias, não é um aberto para o mundo. A juventude atual espera resposta da nossa geração. Que caminhos estamos apontando?

No caso de Florianópolis, esse raciocínio está relacionado à tecnologia e à economia do mar?

Temos o maior parque urbano nativo do mundo dentro de uma cidade, que pode ser transformado num ativo perene de sustentabilidade, proteção ao meio ambiente, mas também de turismo, valorização da relação com a natureza, educação para os jovens etc. Pode ser tudo! E nada é. Isso é falta de imaginação! Temos duas baías, absolutamente fantásticas, que poderiam estar movimentando uma indústria náutica de mais de 10 mil barcos. E é muito? Não. A Flórida tem um milhão! E 10 mil empregos, porque isso fomentaria não só a indústria náutica. Santa Catarina produz 60% dos barcos do Brasil e não tem marinas. E Florianópolis teria que ser a brasileira mundial do mar.

O Brasil tem potencial para receber muito mais turistas do que recebe. Qual o pulo do gato?

Há uma grande curiosidade sobre o Brasil, mas há uma competição internacional, com voos baratos no mundo inteiro e o Brasil muito reticente em entrar nisso. É que o Brasil é um país bloqueado, caro e isolado. O custo Brasil é muito alto. É uma construção de competitividade, palavra que aqui é mal interpretada. Muitos interpretam como uma situação com ganhadores e perdedores, mas não é. É a única maneira de sobrevivência e enriquecimento.

O senhor tem falado bastante sobre a Mata Atlântica e de como Florianópolis se diferencia nesse aspecto.

Sim, mas não é só isso. Veja que nosso equipamento cultural mais importante é da década de 1980. Queremos ter um turismo de valor agregado e um ambiente que fomente a tecnologia e as startups, mas estamos estagnados. Florianópolis hoje é uma repetição da década de 1980, com exceção de Jurerê Internacional e do Costão do Santinho.

O ministério tem R$ 215 milhões em obras para Santa Catarina atualmente?

Sim, é o que está rodando. A maior delas é o Centro de Eventos de Balneário Camboriú. E esta semana liberamos R$ 3 milhões para uma rodovia entre Balneário Barra do Sul e Araquari.

Uma queixa recorrente de quem quer investir na área do turismo é a insegurança jurídica, especialmente em Florianópolis. Como vê essa questão?

Florianópolis é a capital nacional da insegurança jurídica, uma cidade refém de um embate ideológico que está disfarçado debaixo de um bom mocismo de todos os lados. Aliás, tem erros e equívocos de todos os lados. Temos que planejar e construir o que dá sustentabilidade econômica para a cidade. Equipamentos como um hotel, um hospital, um centro tecnológico vão gerar mais impostos por metro quadrado e empregos do que um condomínio. Essa distinção Florianópolis tem que fazer e não está fazendo. A construção de uma marina, de um centro de apoio a um parque natural, de uma trilha, centros de eventos, casas de shows. Tem que facilitar o equipamento que gere imposto e pague a conta social da cidade, a saúde, educação, transporte e segurança. Que seja um modelo economicamente sustentável, inclusive para preservar o meio ambiente. E aqui esse tripé economia-natureza-social está barrado. O principal equívoco de Florianópolis é o desprezo pelo vocacional da cidade. A vocação turística, florestal, marítima, tecnológica tem que ser privilegiada.

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