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Florianópolis fechará 2017 com recorde histórico de mortes violentas

Mais cruéis, mais armadas e mais ousadas, facções criminosas instauram “guerra” por controle de territórios; para 81% da população, caminhar à noite na Capital é inseguro

Fábio Bispo
Florianópolis
29/12/2017 às 10H01

Tida como cidade pacata em outros tempos, Florianópolis conquistou fama internacional de maneira vertiginosa e hoje está entre os principais destinos turísticos do mundo. Em 30 anos, a população fixa duplicou, mas sem que a capacidade de suporte, seja social ou de infraestrutura, acompanhasse o mesmo ritmo. E não tardou para que problemas típicos dos centros urbanos, aos poucos, aparecessem: mobilidade, saneamento e segurança, por exemplo. E se em anos anteriores a qualidade das praias ou o caos no trânsito eram as maiores preocupações das autoridades, o ano de 2017 pode ser considerado o mais violento da história recente da capital catarinense.

Zelindro de Freitas, que trabalha há 35 anos no Centro, agora tem medo de chegar de madrugada - Marco Santiago/ND
Zelindro de Freitas, que trabalha há 35 anos no Centro, agora tem medo de chegar de madrugada - Marco Santiago/ND



O número mortes violentas em Florianópolis cresceu 89% na comparação com o ano passado, fazendo 173 vítimas fatais entre homicídios dolosos (145), latrocínios (7), lesões seguidas de morte (6) e confrontos com as polícias (15) entre 1º de janeiro e 27 de dezembro. Em todo o ano passado, foram 92 casos de mortes violentas.

Para se ter ideia, o número de homicídios dolosos na Capital, que somam 145 casos, é praticamente quatro vezes maior que o número de casos registrados em Palhoça e São José, cada um com 37 homicídios. Isso que em Palhoça o número de homicídios dolosos teve um crescimento de mais de 100% desde 2016. Em São José os homicídios cresceram 10%, e em Biguaçu, até o dia 20, o número de assassinatos era o mesmo do ano passado, 11 pessoas.

As principais causas apontadas pela Segurança Pública de Santa Catarina para o crescimento da violência na região estão relacionadas à uma “guerra” entre as facções PGC (Primeiro Comando Catarinense), fundado em 2003 nas cadeias do Estado, e o PCC (Primeiro Comando da Capital), facção paulista que tenta expandir sua área de atuação no território nacional. O reflexo da briga entre as organizações criminosas, no entanto, não passa despercebido pela população. Seja pelo impacto que tem trazido para os bairros mais pobres, onde famílias vivem praticamente sitiadas, ou até mesmo nas regiões mais centrais que se tornaram palco de horrores neste ano.

“Hoje não se tem mais segurança na cidade, estamos presos e a criminalidade à solta. Há menos de um mês roubaram o portão da minha casa. Há 35 anos, quando eu comecei a trabalhar aqui, podia-se chegar no Centro de madrugada tranquilamente, hoje tenho medo”, conta Zelindro de Freitas, 80 anos, tradicional vendedor de roscas do Largo da Alfândega, a poucos metros de onde em março um homem foi assassinado de dia, às 11h40.

Rede de Monitoramento aponta Segurança como área sensível

O Relatório Anual de Progresso dos Indicadores da Rede de Monitoramento Cidadã de Florianópolis, divulgado em novembro, aponta que 81% da população não se sente segura caminhando à noite pela cidade. Outros 16% dos entrevistados relataram terem contratado serviços de segurança privada para suas casas ou comércios.

Se levados em consideração os parâmetros da Rede para o índice de mortes violentas por grupo de 100 mil habitantes, a cidade está em grau de alerta com 36,8 mortes por 100 mil moradores. O indicador, que mede de forma semafórica 30 temas, coloca a Segurança Pública em nível máximo de alerta ao lado da falta de transparência, da participação popular e da burocracia.

A pesquisa de opinião da Rede de Monitoramento, que ouviu 1.021 pessoas mostra que a Segurança Pública é a primeira preocupação da maioria dos entrevistados, com 19%. O tema é o mais recorrente também entre o segundo e o terceiro assunto que mais preocupa as pessoas.                             

A sensação de insegurança é a mesma sentida por Rosa Freitas, 47 anos, que trabalha no Mercado Público e mora no bairro José Mendes. “Eu sou gaúcha e moro há 22 anos aqui. A cidade mudou muito nos últimos anos. Antes eu ia a pé para casa, mas hoje não me sinto mais segura”, diz.

Solange Maria Costa, 67, acompanha a escalada da criminalidade pelos jornais da banca de revista que mantém há 43 anos na praça 15. “Fui assaltada duas vezes recentemente. E o que tenho visto é que existe uma guerra de gangues. Aqui na praça ouço reclamações todos os dias de moradores e turistas”, conta.                          

>>Taxa de mortes por habitante em Florianópolis é maior que na cidade do Rio 

Facções naturalizam barbárie em nome do poder

Desde 2011 à frente da Delegacia de Homicídios da Capital, o delegado Ênio Mattos não tem dúvidas de que 2017 é o ano mais violento da última década. Ele diz que o crescimento da criminalidade tem ligação direta com a falência de políticas públicas em setores sensíveis, como educação e assistência social, por exemplo. Mattos lembra que há anos a cidade não registrava tantos crimes ousados ou com requintes de crueldade como em 2017. Um dos últimos casos chocantes na cidade ocorreu há quase dez anos, em 2008, o chamado “crime do cadeado”, quando um corpo carbonizado foi encontrado com um cadeado na boca, na trilha da Lagoa do Peri.

Mas este ano ocorreu uma seleção de horrores cometidos em Florianópolis facilmente comparáveis aos mais violentos grupos terroristas de outras partes do mundo. “Os criminosos da cidade foram aprendendo esse tipo de violência com membros de facções de fora. É uma forma que eles encontram para mostrar poder de uma facção sobre a outra. O que impressiona é a crueldade desses crimes, com decapitações e requintes de crueldade”, diz Mattos.

Algumas dessas execuções foram filmadas e espalhadas via redes sociais, algo até então incomum na cidade. Foi assim com um casal de jovens, ela de 20 e ele de 18 anos, que foi queimado vivo diante da lente de um celular; ou como o caso de uma mulher decapitada com um facão, cujo corpo foi encontrado na noite do domingo, véspera de Natal, no Moçambique.

“Isso é uma forma que eles encontram para mostrar poder. O que impressiona é a crueldade, com decapitações e outros crimes bárbaros”, comenta o delegado. Para ele, que já identificou a autoria de 68% dos crimes e prendeu mais de 50 pessoas relacionados aos casos de homicídios registrados em 2017, o problema maior não está na Segurança Pública. “O que acontece é que não há educação e moral na sociedade. A maioria dos envolvidos não tem estudo e vem de famílias desestruturadas. Não adianta colocar polícia na rua que não vai se resolver isso do dia para a noite. Não dá para acreditar que se vai desarticular essas facções assim. Eles estão muito mais bem armados e ousados”, afirma.

Capital alcança índice das cidades mais violentas do mundo

Todos os anos a ONG mexicana Conselho Cidadão pela Seguridade Social Pública e Justiça Penal apresenta a lista das 50 cidades mais violentas do mundo com mais de 100 mil habitantes. O relatório de 2016, por exemplo, continha 21 cidades brasileiras, sendo que a última da lista, Obrégon, no México, teve uma taxa de 28,29 mortes por grupo de 100 mil habitantes.

Naquele ano, Florianópolis tinha uma taxa de 19,61 mortes por 100 mil habitantes, e estava longe de entrar para a lista. Hoje, com uma taxa de 36,8 mortes a Capital estaria na 39ª posição do ranking.

Taxa de mortes por 100 mil habitantes:

173 mortes

469.690 habitantes

36,8 mortes por 100 mil/hab.

Secretário de Segurança liga crimes ao consumo de drogas

Seguindo o tom já manifestado pelo governador Raimundo Colombo (PSD), o secretário de Estado da Segurança Pública, Cesar Grubba, igualmente defende que a guerra de facções e as mortes causadas por esses confrontos são fruto do mercado de consumo de drogas. Grubba reforça que o Estado tem contratado pessoal e que a criação do Gramfacrim (Grupo de Acompanhamento e Monitoramento de Facções Criminosas) tem envolvido diversas instituições no combate aos crimes cometidos pelas organizações. “Não sabemos quando vai acabar a guerra das facções. Enquanto houver consumo e tráfico de drogas, ou seja, uma atividade criminosa que rende milhões, fica difícil responder. O poder público segue regras legais enquanto o crime segue a tendência do mercado. Em 2017 as forças de Segurança de Santa Catarina apreenderam 52 toneladas [de drogas]. Este número representa que as polícias de Santa Catarina estão no caminho correto”, afirma.

Para o ex-comandante da Polícia Militar e especialista em segurança pública, coronel PM reformado Édson de Souza, a violência está ligada diretamente ao tráfico de entorpecentes. “Estatísticas apontam que 90% de homicídios têm esta conotação”, diz, apontando que há necessidade de criação de uma Vara de Justiça específica para apurar o tráfico para que os processos tramitem de forma mais rápida.

Souza diz ainda que está faltando prestação de contas por parte das autoridades. “Não se vê a cúpula da Segurança Pública ir para a mídia e falar o que ela fará para baixar o índice de violência”, diz. Para o coronel, falta a presença maciça do policiamento ostensivo e a polícia tem que usar a inteligência. “Se a polícia sabe aonde funcionam as bocas de fumo porquê não fecha?”, questiona.

Mortes violentas em Florianópolis

2010 - 97

2011 - 95

2012 - 68

2013 - 60

2014 - 61

2015 - 67

2016 - 92

2017 - 173*

*até 28 de dezembro

 

 

Homicídios dolosos

 

2014

2015

2016

2017

Florianópolis

43

49

74

145

Palhoça

21

18

18

37

São José

23

32

33

37

Biguaçu

8

9

11

11

 

Assassinato ocorreu na avenida Paulo Fontes, ao lado do Mercado Público de Florianópolis - Daniel Queiroz/ND
Assassinato ocorreu na avenida Paulo Fontes, ao lado do Mercado Público de Florianópolis, no dia 3 de março  - Daniel Queiroz/ND



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