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Feira Afro-Artesanal na Escadaria do Rosário evidencia a cultura negra, em Florianópolis

Evento será realizado todas as terças, com artesanato, história, música e poesia

Dariele Gomes
Florianópolis
11/07/2017 às 23H53

De pele negra e turbante, a designer Fernanda Jerônimo, 27 anos, utiliza o talento com desenho para resgatar e valorizar a sua cultura, a afro-brasileira. Ela se inspira na mulher negra e na personalidade da professora, jornalista e política Antonieta de Barros para fazer arte, estampar a beleza e a identidade dessa cultura em cadernos e camisetas. “Expresso meu talento de desenhar, evidenciando e resgatando as tradições afros de forma contemporânea. Nos traços não há só arte, mas também cultura, identidade e história”, diz.

A designer Fernanda se inspira em Antonieta de Barros para fazer arte em cadernos e camisetas - Marco Santiago/ND
A designer Fernanda se inspira em Antonieta de Barros para fazer arte em cadernos e camisetas - Marco Santiago/ND


A arte de Fernanda pode ser conferida na Feira Afro-artesanal, que deve ocorrer semanalmente, às terças-feiras, das 10h às 17h, na Escadaria do Rosário, no Centro de Florianópolis. A primeira edição foi realizada nesta terça-feira (11), dia em que Antonieta de Barros completaria 116 anos de idade. Ela, que foi primeira deputada estadual negra do país e primeira deputada mulher do Estado, teve uma atuação política dedicada a causas como educação universal, valorização da cultura negra e emancipação feminina.

“Me orgulha que exista essa feira, que exista o nome de Antonieta para nos inspirarmos. Considero essa homenagem um ato de delicadeza enorme ao trabalho e à atuação dela”, afirma Fernanda.

Conforme um dos organizadores da feira, Márcio de Souza, 58, o projeto de evidenciar a cultura afro no Centro surgiu em parceria do Instituto Wilma Garcia com a prefeitura. “Nesse espaço temos empreendedores negros, fomentando arte e cultura negra. Antonieta é nossa referência política, intelectual e cultural, pois ela quebrou os paradigmas, mostrou que além de ser mulher, era negra, e chegou onde quis, conquistou o seu espaço”, destaca.

Em 1985, Souza fez um samba-enredo em homenagem a Antonieta, e sempre teve uma grande admiração por ela, tanto que a feira ocorre em homenagem à ela. “Temos bonecas, turbantes, roupas, bolsas, acessórios, música boa, dança e boas histórias. O lugar não poderia ser outro, pois a igreja aqui foi feita por mãos negras. Esse lugar tem nossa identidade”, diz.

Através da confecção de bonecas, a artesã Maria Conceição Nascimento Costa, 52, expõe arte, traços negros e uma identidade cultural. “Eu coloco em cada boneca uma impressão, um pouco da identidade negra. Há uma troca entre esse lugar e nossa essência”, conta.

História, música e poesias

Na abertura da programação da feira, foi apresentada uma explanação histórica sobre o espaço que dá acesso à Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos e sobre o projeto, que contempla ainda outras atividades no local. Na sequência, houve intervenção musical com cantos em Iorubá e participação de ogãs; declamação de poesias; e participações dos atores JB Costa e Solange Adão, que interpretaram um encontro simbólico entre o poeta Cruz e Sousa e a educadora Antonieta de Barros, ícones catarinenses da cultura negra. Também teve uma mostra de dança afro e apresentação musical com Neném Maravilha.

Antonieta de Barros

Nascida em 11 de julho de 1901, em Florianópolis, Antonieta de Barros era filha de uma escrava liberta, que trabalhou na casa de Vidal Ramos, pai do ex-presidente da república Nereu Ramos. Atuou como professora de português e literatura, e foi também diretora do Instituto Estadual de Educação. Como jornalista e escritora, destacou-se pela coragem de expressar suas ideias em uma época em que era negado às mulheres o direito à livre expressão.

Militante política, Antonieta teve uma participação ativa na vida cultural de Florianópolis e de Santa Catarina. Fundou e dirigiu o jornal A Semana entre os anos de 1922 e 1927, onde escrevia crônicas em que manifestava suas ideias relativas à educação, emancipação feminina, preconceito racial e política. Em 1937, escreveu o livro Farrapos de Ideias, com o pseudônimo de Maria da Ilha.

Com o incentivo da família Ramos, entrou para a política, tornando-se a primeira mulher negra deputada catarinense, eleita em 1934, dois anos depois de o voto feminino ser permitido no Brasil. Fundou o curso particular Antonieta de Barros, voltado à alfabetização da população carente, atividade que exerceu até sua morte, em 28 de março de 1952.

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