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Segunda-Feira, 24 de Setembro de 2018
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Famílias da Grande Florianópolis mantêm tradições natalinas europeias

Descentes de poloneses, italianos e portugueses se esforçam para manter vivos os costumes herdados

Felipe Alves
Florianópolis

Preservar tradições é fazer viver memórias, culturas e povos. Para muita gente, o Natal virou uma festa pasteurizada e focada no consumo. Mas em muitos lares da Grande Florianópolis, tradições natalinas herdadas de portugueses, poloneses, italianos, gregos e alemães seguem vivas ou misturadas ao sabor local. 

O historiador Joi Cletison lembra que os primeiros a chegar a Florianópolis foram os portugueses, especialmente os açorianos, até meados do século 18. “No século seguinte vieram pessoas de outras etnias, como gregos, libaneses, italianos, alemães, poloneses, índios e negros. Estes povos formam o mosaico cultural de Santa Catarina. Na Capital,n ão é diferente.”

Rosane Lima/ND
familia Scoz
Além do peru natalino, não podem faltar comidas típicas e  Notte Felice na família Scoz

Na casa de dona Maria Helena Correia Marques, de 74 anos, por exemplo, a expressão Papai Noel não tem vez. Ali só se chama o bom velhinho de Pai Natal, como ela aprendeu em Portugal. Mas ele não é a personagem principal da festa. O Menino Jesus é o responsável pelas prendas (presentes) e é para ele que as crianças escrevem cartas com os pedidos. 

Em volta do presépio, cada pessoa que chega deve colocar um sapato. “Em vez das meias, para nós é o sapato que identifica a pessoa e é com ele que a brincadeira acontece”, diz ela.

Depois do jantar, os adultos pedem que as crianças saiam da sala: é hora do Menino Jesus colocar presentes no sapato de cada um. Além da culinária polonesa, dona Martha Piskorski, 74, passa para os filhos e netos as tradições e os costumes da Polônia. “No Natal, nossa mesa é coberta com palha de trigo. Por cima, colocamos uma tolha branca, simulando a manjedoura de Jesus.

Depois do jantar, cada pessoa tira uma palha. De acordo com a tradição, o mais novo que tirar a maior palha estará próximo de casar. E o mais velho que tirar a maior palha estará próximo do fim da vida”, explica ela.

Pratos típicos e reconciliação à mesa 

 Ao virar um pequeno copo de vodka e gritar “nadrovia” (saúde), a família de Martha Piskorski comemora o nascimento de Jesus. Na tradição polonesa é o Menino que leva os presentes no lugar do Papai Noel. Vestido com uma camisola branca, o neto mais novo de dona Martha, Henrique, representa o Menino Jesus e entrega os presentes para as cerca de 30 pessoas que se reúnem para celebrar a festa.

Rosane Lima/ND
Martha Piskorski, descendente polonesa
Na mesa de Martha Piskorski não pode faltar o tradicional pierogi 

Antes da ceia, uma espécie de hóstia é repartida entre todos. O dono da casa divide o pão ao meio com sua mulher e ela faz a partilha com outra pessoa, que vai repartindo com os demais. O hábito, que simboliza a união, é também de conciliação. “Se alguém tem alguma rusga ou uma briguinha com aquela pessoa, é preciso pedir perdão a ela antes de entregar e tomar a hóstia”, diz dona Martha.

Depois, todos rezam e cantam músicas natalinas.A família de dona Martha sempre faz 12 pratos típicos poloneses para a ceia. Cada um representa um apóstolo. Tem pierogi (pastel cozido com ricota, batata e molho branco), bigos (repolho refogado com carne, cogumelo, linguiça e chucrute, entre outros) e barszcz de uszkm (sopa de beterraba).

De sobremesa, torta de maçã e bolo de mel no lugar de panetone. Na Polônia, dona Martha conta que o Natal só começa quando aparece a primeira estrela no céu. Lá, as crianças ficam na janela esperando aparecer a estrela e só aí começa a festa com direito a muito frio e neve.

Por aqui, este costume se perdeu, mas ela procura passar as tradições polonesas aos filhos e netos, como Luiz Carlos Alves Júnior, de 30 anos, que aprendeu polonês com a avó.Filha de poloneses que fugiram da Primeira Guerra, dona Martha nasceu em Três Barras, no Norte catarinense.

Aprendeu a falar primeiro o polonês e, mais tarde, o português na escola. Casou-se com um catarinense, mudou-se para Florianópolis e separou-se dele. Desde então, procura manter vivos os traços poloneses na família. “São nossas raízes, temos que ter uma ligação forte com nossa tradição. Gosto de passar isso para meus filhos e netos, ensinar o polonês, as receitas e os costumes e eles gostam de manter isso vivo”, explica.

Brindes e muita música

Polenta, fortaia e macarrão misturam-se ao tradicional peru de Natal na ceia da família Scoz. Os pratos italianos não podem faltar. Antes da ceia, a família se reúne em volta da mesa e, juntos, cantam “Notte Felice” (Noite Feliz) e outras músicas natalinas em italiano.

 

Daniel Queiroz/ND
tradições italianas
Dona Rita Scoz enfeita a casa nesta época e faz questão de fazer uma ceia italiana

 

“O mais importante é o encontro da família, que reúne cerca de 20 pessoas. Cantamos e brindamos, passando as tradições por gerações”, diz dona Rita Scoz, 68, casada com Valmor Scoz, 71, ambos de descendência italiana.Desde o fim de novembro, o Papai Noel já enfeita a casa de dona Rita.

A decoração é colocada em praticamente todos os cômodos,  com árvores de Natal, imagens de Jesus, presépio, enfeites nas paredes, portas e mesas.Na mesa montada com velas, toalhas natalinas e pratos decorados só entra espumante ou vinho  de origem italiana ou de Rodeio, cidade catarinense com forte influência italiana. 

Consoada com bacalhau e convívio familiar

Nascida em São Pedro de Rates, uma vila tradicionalista do norte de Portugal, mas morando em Florianópolis há mais de 10 anos, a portuguesa Maria Helena Correia Marques faz questão de passar os costumes adiante para os filhos e netos.

 

Daniel Queiroz/ND
tradições portuguesas
É nos sapatos ao redor do presépio  que são colocados os presentes, explicam Maria Helena e a filha, Lúcia

 

“Mantemos o máximo que podemos de nossas recordações de Portugal para sobreviver sentimentalmente das nossas lembranças. Mas, às vezes, é difícil porque o frio faz falta por aqui no Natal”, brinca ela ao comparar a gélida São Pedro de Rates com a Florianópolis da praia e do sol.Pelo fator climático, dona Maria Helena explica que é difícil reproduzir o “cheirinho do Natal de Portugal”.

Nesta época era comum ela sentar com a família em volta de uma lareira para assar pinhas verdes e retirar a casca com um quebra-nozes guardado até hoje. Mas que não possa reproduzir todos os costumes da sua terra, dona Maria Helena mantém o principal: o convívio familiar.

Sem eles, não há festa.“Estarmos reunidos é muito significativo para a gente e isso só acontece no Natal. Nunca passamos sem concentrar a família em algum lugar e, quando alguém está longe, sempre há trocas de telefonemas”, diz Lúcia Miranda, 50, filha de dona Maria Helena.A consoada (ceia) é recheada de peru, lombo de porco e, claro, muito bacalhau.

“Sem bacalhau, não é Natal”, comenta dona Maria Helena. O prato tradicional de Portugal, servido com batatas e verduras, nunca falta no Natal da família de dona Maria Helena. Para estar ainda mais perto dos portugueses, o brinde e o jantar são servidos às 21h, no horário em que é meia-noite em Portugal. 

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