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Sexta-Feira, 16 de Novembro de 2018
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Falta de infraestrutura urbana não é obstáculo à consolidação do Sapiens Parque no Norte da Ilha

Novo sistema viário, reutilização de esgoto tratado para economizar água tratada e reforço energético são estratégias para viabilizar conceitos do empreendimento e beneficiar comunidades do entorno

Edson Rosa
Florianópolis

O transporte coletivo ainda é precário, e, ultrapassado, o sistema viário tem sido readequado na base do improviso. Falta água o ano todo, os apagões na rede elétrica são localizados, mas persistentes, e os serviços de saneamento básico têm capacidade abaixo do crescimento desordenado. Mesmo assim, o Norte da Ilha é estratégico para desenvolvimento do Sapiens Parque, empreendimento de capital fechado implantado em 2006 com controle acionário do Estado.

Flávio Tin/ND
Aos poucos, a cidade tecnológica recebe os primeiros grandes prédios

Vencidos os desafios ambientais e jurídicos, o projeto ainda não fechou a primeira das cinco etapas,  mas está consolidado por meio de parcerias com a iniciativa privada, UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e Sesi (Serviço Social da Indústria). A meta até o fim de 2015 é a implantação de 30 projetos atualmente em fase de licitação, com desenvolvimento de pelo menos outros 45.

Para os próximos 20 anos a previsão é bem mais ousada, garante o diretor executivo José Eduardo Azevedo Fiates, 50, no Sapiens desde o marco inicial. O desafio é criar a infraestrutura adequada para o funcionamento da nova cidade, tecnológica e sustentável, com 271 unidades condominiais e empregos diretos para 30 mil pessoas. Tudo nos 4,3 milhões de metros quadrados da área degradada da antiga Colônia Penal Agrícola de Canasvieiras, desativada em meados da década de 1970.

Nesta mesma área caberia uma vez e meia o polígono urbano entre a esquina das avenidas Beira Mar Norte e Mauro Ramos, a cabeceira insular da ponte Hercílio Luz e o túnel Antonieta de Barros. A diferença é que no Centro moram cerca de 200 mil pessoas e trabalham diariamente pelo menos outras 100 mil. “E aqui preservamos importante bioma da mata atlântica”, compara Fiates.

Hoje, 90% da água consumida em banheiros, limpeza e jardins é originária de reuso. Também está nos planos a compra de esgoto da Casan (Companhia Catarinense de Água e Saneamento) para tratamento na estação do próprio Sapiens e reutilização. “Fica mais caro, é necessária dupla tubulação. Mas este é o conceito de sustentabilidade”, explica.

Para não ficar sem energia elétrica, já foram iniciadas tratativas para construção de nova subestação em terreno doado pelo próprio Sapiens.  O projeto original da Celesc (Centrais Elétricas de Santa Catarina), previsto para o ano passado, foi adiado por falta de área disponível em Ingleses.

 

Números

Área: 431,5 hectares

Capacidade: 257 unidades condominiais

Potencial construtivo: 1,3 milhões de metros²

Arrecadação tributária na implementação: R$ 1,2 bilhão

Investimento total (20 anos – terreno + infraestrutura + edificações): R$ 2,430 bilhões

Área verde preservada: 2,4 milhões m²

Empregos diretos: 27 mil vagas

Empregos indiretos: indiretos

Estacionamento privativo: 6.800 vagas

Estacionamento público: 27.200 vagas

Lagos: 115.000 m²

Sistema viário: 17 km

Fonte: Sapiens Parque

 

 

Antiga prisão dá lugar à cidade tecnológica

Restaurado, por fora o velho casarão retangular ainda parece o mesmo.  É o que restou da Colônia Penal de Canasvieiras, que, sem grades ou muros, foi até a metade da década de 1970 modelo de inovação no hoje corrompido sistema carcerário catarinense.

Flávio Tin/ND
Casarão foi reconstruído e hoje é considerado o Marco Zero do Sapiens

Na entrada, as salas do diretor e do chefe de segurança eram passagem obrigatória à escadaria ao segundo piso, alojamento que durante 40 anos abrigou condenados por crimes comuns identificados por números pretos carimbados no uniforme de brim coringa azul. Os casados moravam em casas individuais, e seus filhos compartilhavam das mesmas brincadeiras e escola dos filhos dos guardas prisionais.

Misturados a presos políticos da Operação Barriga Verde, a caça a trabalhadores, estudantes e políticos ligados aos movimentos de esquerda contra a ditadura do governo militar, os últimos sentenciados da colônia foram libertados em 1975. Devidamente ressocializados e sem reincidência, o que ainda é motivo de orgulho para o ex-diretor, José Vitor Amorim, 75.

Nem todos ficaram por perto para entender a transformação do lugar. Por dentro, ar condicionado, câmeras de monitoramento, computadores de última geração e reforço de ferro na velha estrutura com paredes e vigas de tijolos maciços garantem segurança e conforto de funcionários silenciosos, aparentemente bem sucedidos e, é claro, bem pagos. Símbolo da primeira etapa do projeto, o Marco Zero, lá funciona a sede e a incubadora do Sapiens.

Salas envidraçadas e bem iluminadas, com vista privilegiada da planície cercada pelos morros de onde descem nascentes dos rios do Braz, Palha e Papaquara, deram nova função ao prédio remodelado em 2005.  “A colônia representava a inovação para o sistema penal da época. O Sapiens manteve este conceito inovador no uso da área”, compara o diretor executivo José Eduardo Azevedo Fiates, no projeto desde a implantação, em abril de 2006.

 

Demora traz desconfiança e obra é transtorno temporário

Se o futuro vislumbra um centro urbano com conceito ecológico, sustentável, funcional e tecnologicamente inovador, o presente tem sido desgastante para quem circula até mesmo motorizado pelo principal  acesso ao Sapiens Parque. Em obras, o trecho da rua Luiz Boiteux Piazza entre o campo de futebol da Associação de Moradores de Canasvieiras e a rótula da SC-401 ficou ainda mais perigoso para pedestres, ciclistas e usuários do transporte coletivo.

Marco Santiago/ND
Por causa das obras, Valdete precisa esperar o ônibus em meio às pedras e sem qualquer proteção de sol ou chuva

Sentada desconfortavelmente sobre uma das caixas de concreto da nova rede de drenagem pluvial à espera do ônibus para Ponta das Canas e Lagoinha, a dona de casa Valdete Martins da Silva, 53, resumiu o que enfrenta todos os dias. “Pular as pedras, desviar das máquinas, engolir poeira e ficar embaixo do sol ou da chuva.”

A demora aumenta a desconfiança de Valdete, que há uma década ouve propaganda favorável, mas pessoalmente ainda não percebeu os reflexos na qualidade de vida das comunidades do entorno. “Prometem mais infraestrutura e emprego, mas o que se vê é este abuso. Não conheço ninguém da região que trabalhe lá, saem contar os desmatamentos”, critica.

Neusa Savi Mondo, 50, moradora na cachoeira do Bom Jesus, esperava ônibus  no mesmo ponto e reclamou da falta de abrigos na Luiz Boiteux Piazza. “É horrível sair do trabalho e ficar neste sol quente”, diz. A falta infraestrutura urbana no Norte da Ilha, segundo ela, vai piorar nos  próximos anos. A irmã mais nova e duas sobrinhas de Neusa, com experiência em tecnologia da informação, deixaram currículos na administração do Sapiens há dois anos, mas ainda não foram chamados.

 

Novo sistema viário garante mobilidade

O alargamento da rua Luiz Boiteux Piazza  e a construção de 300 metros de marginais na SC-401, defronte ao centro de convenções, integram o projeto do novo sistema do elevado que desafogará o acesso ao Sapiens e aos bairros de Canasvieiras, Cachoeira e Ponta das Canas.  As mudanças no trânsito em torno do Sapiens, no entanto, não param por aí.

Entre os 17 quilômetros de arruamento previstos, está a abertura de ampla avenida entre a rua Luiz Boiteux Piazza e a SC-403. Serão construídas pistas de rolamento, calçadas para pedestres e ciclovias, no trecho entre o campo do Grêmio, na Cachoeira, e da Escola Municipal Ponta do Morro, na Vargem do Bom Jesus.

Pronto e à espera de recursos para execução da obra, o projeto do sistema viário leste fechará o anel do Norte da Ilha e criará alternativa ao tráfego da rua Allan Kardec, atualmente a única ligação com Ingleses.

O traçado atravessará áreas de capoeira, onde se concentram espécies do primeiro estágio de regeneração da mata atlântica, intercaladas com densa floresta de pinnus elliotti. O corte da espécie exótica que se espalhou espontaneamente na região devido à proximidade com o antigo horto florestal do extinto IBDF [Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal], segundo Fiates, é licenciado após licitação pública.

 

Indústria sem chaminé é real perto das praias

A caminho das praias, a moderna cidade da tecnologia começa a surgir em meio a resquícios da floresta de eucaliptos e pinus que predominava na extensa áOrea pública ociosa desde a década de 1970. No principal centro empresarial do Sapiens, uma das obras mais avançadas é a sede da Softplan, a maior empresa de tecnologia da Grande Florianópolis e uma das maiores do Estado, com 28 mil metros quadrados de área construída.

Sustentabilidade é a base para implantação do laboratório urbano que pretende colocar Florianópolis definitivamente no ranking das cidades com melhor qualidade de vida do país. O desafio aponta o diretor executivo José Eduardo Azevedo Fiates, é  tornar real  o conceito de indústria sem chaminé, atrair investidores e mão de obra qualificada.

“Em mais uma década, talvez menos, teremos toda a estrutura pronta para atender às 257 unidades condominiais projetadas”, prevê Fiates, que não tem pressa. “O importante é garantir o enraizamento, a consolidação do empreendimento”, diz. O número  parece pequeno para a grandeza da área, mas já são 350, e até o fim de 2015 serão pelo menos 1.500 pessoas empregadas em uma das 257 unidades.

As vizinhas Ana Maria Corrêa Lima, 60, e Patrícia Manso, 45, moradoras na Cachoeira do Bom Jesus, pretendem estar entra elas, e foram juntas para deixar currículos. Há dois anos em Florianópolis, Patrícia, que veio da província de Córdoba, Argentina, tem experiência como técnica de enfermagem, auxiliar de farmácia ou operadora de caixa, mas está preparada também para outras tarefas.

“Pode ser de camareira, na cozinha ou na limpeza”, admite, sem saber exatamente o que encontraria pela frente.  A expectativa da paulistana Ana Maria é a mesma, na Ilha desde 2010, quando foi lançado o Marco Zero do projeto.

“A gente vê tantos prédios novos sendo erguidos, parece uma nova cidade que surge. Deve ter empregos em diferentes áreas”, diz, sem saber que entre os focos da engrenagem do Sapiens estão formação profissional e qualidade de vida. “Tudo o que queremos é trabalho para continuar em Florianópolis”, completa.

 

Veleiro terá missão ecológica

Qualificação foi o que garantiu o emprego do técnico em mecânica Cleber Guedes, 36, responsável pelos trabalhos de calderaria e soldagem do superveleiro oceânico ECO UFSC, de 60 pés (18 metros), desenvolvido para pesquisas cientificas marinhas da Universidade Federal de Santa Catarina.

Marco Santiago/ND
Cleber faz parte do grupo de técnicos que constrói o superveleiro da UFSC

Estrutura, banheiros, anteparos e casco são de alumínio importado da Austrália, revestido com lã de pedra, materiais especiais para suportar as baixas temperaturas da Antártida, por exemplo. Retrátil, a quilha pode ser levantada para permitir navegação também em áreas de manguezal, com  apenas um metro e meio de profundidade. Na fase de acabamento, casario e móveis de bordo são construídos em fibra por Adrian Savaris, 24, há três anos no estaleiro ao lado de Cleber Guedes. 

A embarcação é um dos projetos pioneiros do Sapiens, construído com mão de obra local pela SPS (Soluções Para Soldagens), empresa criada no laboratório de solda da engenharia mecânica da UFSC. Pelo ritmo atual, a dupla precisa de, pelo menos mais um ano e meio para entregar a parte deles, antes das instalações hidráulica, elétrica e equipamentos de navegação. “Não pronto antes de quatro anos, pelo menos”, avisa Guedes, que entre uma solda e outra não esconde o desejo de navegar  no gigante que está ajudando a construir.

 

 

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