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Exposição sobre os 100 anos do Aldo Luz relembra os tempos de glória do remo na Capital

Com a construção do aterro da baía Sul, na década de 1970, o esporte perdeu espaço na cidade, mas se refez do baque e continua atraindo as novas gerações

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
16/03/2018 às 22H35

Nos fins de semana, a população se concentrava na orla, da Capitania dos Portos ao cais Rita Maria, para acompanhar as regatas e palpitar sobre o favoritismo deste ou daquele competidor. Mais que o futebol, o remo é que monopolizava as atenções da população, estimulada pelas emissoras de rádios que alimentavam a rivalidade entre os clubes e monitoravam até os treinos dos atletas. Com a construção do aterro da baía Sul, na década de 1970, o principal esporte da cidade perdeu espaço, mas se refez do baque e continua atraindo as novas gerações. Parte dessa história é contada pelo Clube de Regatas Aldo Luz, que faz 100 anos em 2018 e será homenageado com uma exposição a partir desta segunda-feira (19), às 19h, na galeria Ernesto Meyer Filho da Assembleia Legislativa do Estado.

Quadro com a imagem de Aldo Luz e troféus conquistados pelo clube - Divulgação/ND
Quadro com a imagem de Aldo Luz e troféus conquistados pelo clube - Divulgação/ND


Ali, troféus, medalhas, vestimentas dos atletas, barcos, fotos e reportagens vão contar um pouco dessa trajetória de glórias e títulos – e da íntima vinculação com Florianópolis, um celeiro de craques no remo de um século para cá. Criada em 27 de dezembro de 1918 como Clube de Regatas Florianópolis, a agremiação teve como primeiro presidente um dos filhos do governador Hercílio Luz, precocemente falecido aos 22 anos de idade e que, em maio do ano seguinte, passou a denominar aquele que seria o terceiro clube de remo da cidade. Com o Aldo Luz, surgiram as condições para a criação de uma federação de remo, incluindo também o Martinelli e o Riachuelo, nascidos em 1915.

Os três clubes tinham por endereço as atuais ruas Antônio Luz e João Pinto, onde o Aldo Luz construiu sua sede em 1921. Dali é que partiam as embarcações que disputavam a primazia do remo na cidade, passando atrás do Mercado Público – outro ponto privilegiado de observação das regatas. Antes disso, em 1919, quatro atletas do clube tomaram um barco yole e remaram até Itajaí, numa aventura temerária que durou nove horas e que será repetida, a título de homenagem, no ano que vem, já sem as limitações e os riscos de um século atrás.

No século passado, população acompanhava as regatas à beira-mar - Arquivo Clube Aldo Luz/ND
No século passado, população acompanhava as regatas à beira-mar - Arquivo Clube Aldo Luz/ND


Entre 1931 e 1933, o clube conquistou o primeiro tricampeonato da cidade, nos anos de 1950 foi bicampeão sul-americano e dali para frente se consolidou na formação de novos atletas e em conquistas para a cidade, o Estado e o país. O Aldo Luz foi o único clube que nunca fechou as portas, nem durante os duros anos que se seguiram ao aterro, que afastou em 800 metros o mar do miolo urbano da Capital.

Uma história de muitas conquistas

Já na sede definitiva, no parque náutico criado em 1979 ao lado da ponte Colombo Salles, o clube Aldo Luz abriu a primeira escolinha de remo da cidade, sob os cuidados do vitorioso técnico alemão Henry Krakal. O coordenador das ações do centenário, André Arthur Dutra, destaca que o projeto Remo na Escola leva a estrutura do clube para a rede pública de ensino e traz estudantes para atividades gratuitas, difundindo o esporte e garimpando potenciais atletas na faixa dos 12 aos 18 anos (de 2 a 4 de abril, o projeto estará no Instituto Estadual de Educação). Em comemoração ao centenário, o clube programa o desafio Volta à Ilha, para a qual está sendo projetado em Brasília o Coastal, barco com características especiais para navegação em mar aberto.

André Dutra, responsável pela agenda do centenário, competiu pelo clube - Daniel Queiroz/ND
André Dutra, responsável pela agenda do centenário, competiu pelo clube - Daniel Queiroz/ND


Os títulos foram se acumulando e com o novo século vieram, entre outras conquistas, a medalha de ouro de Josiane Lima no Mundial de Munique, em 2007, e o bronze nos Jogos Paraolímpicos de Pequim, no ano seguinte. Em 2008, três atletas do clube – André Dutra, Norma Moura e Josiane Lima – representaram o Brasil nos Jogos Paraolímpicos da China. Em 2014, o clube foi campeão brasileiro e vice sul-americano e um ano depois representou o país no Mundial que funcionou como evento teste para os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. Novas conquistas vieram em 2017, ano em que Guilherme Soares foi eleito o melhor técnico no Troféu Gustavo Kuerten, após sagrar-se campeão sul-americano na modalidade skiff duplo.

Aos 89 anos, remador treina todos os dias

Uma das figuras marcantes do Aldo Luz é o remador Odilon Maia Martins, de 89 anos, que ainda rema diariamente e é o mais experiente atleta da modalidade em atividade na América do Sul. Campeão máster de remo em 18 oportunidades, ele tem a memória do clube na ponta da língua e diz que a época áurea do esporte foram os anos de 1960, quando o Aldo Luz colecionou títulos dentro e fora do Estado e em competições continentais. Em uma regata realizada na Argentina, ele superou uma guarnição europeia que havia sido campeã do mundo pouco tempo antes. Na época, o clube bateu várias vezes equipes argentinas de renome, o que era uma façanha porque o país vizinho tinha mais tradição que o Brasil no remo.

Odilon Martins colecionou troféus e tem a história do clube na cabeça - Daniel Queiroz/ND
Odilon Martins colecionou troféus e tem a história do clube na cabeça - Daniel Queiroz/ND


“Quando o clube ganhava uma competição lá fora, éramos recebidos pelo governador do Estado em seu gabinete”, recorda Odilon, como a dizer que os tempos estão muito mudados. Ele fala do prestígio social do remo, de amigos que já se foram e do público que, a partir do bar Miramar, extinto com a construção do aterro, acompanhava as regatas na baía Sul. “Um dos navios da Hoepcke chegou a adernar porque ficou cheio de gente para assistir uma regata”, conta. Na mesma medida em que se destacava, o remo catarinense perdia atletas de ponta para clubes do Rio de Janeiro, como Flamengo e Vasco da Gama, tão fortes no remo quanto no futebol.

Ainda em novembro passado Odilon Martins ganhou três provas em São Paulo, na categoria máster, acompanhado de um remador mais novo – de 68 anos! Ele já competiu em diferentes países, e aproveitou para conhecer quase toda a Europa, o Canadá e os Estados Unidos. E diz que vai aos mesmos torneios todos os anos, deixando qualquer ameaça de estresse para trás e encontrando renovada motivação para não parar de remar.

Homenagem a atletas e dirigentes

Na exposição a ser aberta segunda-feira na Alesc, também haverá homenagens a atletas e dirigentes do clube, como Odilon Maia Martins, Carlos Alberto “Liquinho”, Ernesto Tremel, Francisco Schmidt, Edison Westphal, Luiz Carlos Mello e João Silveira, além do ex-governador Aderbal Ramos da Silva (in memoriam), que foi um incentivador do remo no Estado. Um destaque da mostra é a capa do jornal “A Republica” que noticiou a façanha dos quatro remadores que foram até Itajaí em 1919. “Eles pegaram um vento nordeste e tiveram que pedir socorro em Cabeçudas, de onde ligaram para cá pedindo para ser resgatados por um carro do governo”, conta André Dutra. Na época, raros eram os carros, e menos numerosos ainda eram os telefones. Esta foi uma entre as tantas odisseias em que os remadores do clube se envolveram de um século para cá...

Destacam-se também na exposição antigas camisas da CBD (Confederação Brasileira de Desportos), que abarcava todos os esportes e que foi dirigida durante muitos anos por João Havelange, depois presidente da Fifa. O coordenador das ações do centenário do Aldo Luz, André Dutra, suspeita que algumas dessas camisas eram da seleção brasileira de futebol.

Clube de Regatas Aldo Luz - Daniel Queiroz/ND
Clube de Regatas Aldo Luz - Daniel Queiroz/ND


Títulos mundiais do Aldo Luz

1954, 1955, 1985 – Campeão Sul-Americano de Remo

1954, 1955, 1983, 1985, 2009, 2010, 2011, 2012 – Campeonatos Brasileiros de Remo

2007 – Campeão mundial de Double Skiff TA (Alemanha)

2009 – Vice-campeão mundial de Double Skiff TA (Polônia)

2011 – Campeão e vice-campeão mundial de Remo Indoor (Estados Unidos)

2012 – Campeão e vice-campeão mundial de Remo Indoor (Estados Unidos)

2012 – Vice-campeão Copa do Mundo de Double Skiff TA (Sérvia)

2012 – Vice-campeão Copa do Mundo de Quatro Com Timoneiro LTA (Sérvia)

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