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Sexta-Feira, 16 de Novembro de 2018
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Exclusivo: comando do 4º Batalhão da PM faz mapeamento econômico do tráfico na Capita

Entrevista com tenente coronel Araújo Gomes revela um homem apaixonado pela segurança pública e decidido a combater o crime na Capital

Colombo de Souza
Florianópolis
Daniel Conzi/ND
Coronel Araújo Gomes estuda a logística econômica do tráfico de drogas em Florianópolis

 

Quarta geração de uma família de militares(o bisavô materno foi civil em São Paulo e o avô paterno) ajudou a construir o Quartel General da Polícia Militar, na praça Getúlio Vargas, onde depois foi comandante), o tenente coronel Carlos Alberto Araújo Gomes encara a segurança pública com paixão. Na última quinta-feira, ele alterou a rotina da caserna e recebeu a equipe do ND para falar dos projetos e programas que está implantando para conter a onde de violência e o tráfico de drogas na área central, Leste e Sul da Ilha.

No 4º BPM desde o início do ano, o oficial comanda 323 policiais para cobertura de 300 mil habitantes, excluindo somente o Norte da Ilha e a área continental da cidade.

Sabe que está em guerra contra o crime e, para combater com vantagem estratégica, estuda detalhadamente a logística econômica de cada ponto de tráfico, a que chama de geomarketing, em relação à localização geográfica. Diz que a área mais rentável para os criminosos é o morro do Horácio, por estar próxima a Beira-mar Norte e outras áreas de alto poder aquisitivo. A segunda na escala financeira do crime é a favela  da Panaia, no Carianos, em dias de jogos do Avaí na Ressacada.

 

Notícias do Dia - Quem é o tenente coronel Araújo Gomes?

Coronel Gomes - Nasci em Canoinhas, mas fui criado em Florianópolis.  Vim para cá bem cedo.  Sou a quarta geração de uma família de militares, o avô da minha mãe foi coronel da Força Pública em São Paulo. Meu avô foi praça e ajudou a assentar tijolos neste Batalhão, e depois chegou a comandante. Meu tio foi comandante aqui. Então, eu venho de uma paixão antiga com a Polícia Militar, cresci dentro de quartel.

 

NDEntão, a profissão de polícia está no sangue?

Gomes -  Realmente, está no sangue de nossa família. Eu tenho ainda um avô que foi delegado em São Paulo. É uma família assim, que vive ao redor desta tradição, desta paixão pela questão da segurança pública, da ordem pública.

ND - Seu filho está sempre na sua sala, ele também quer ser polícia?
Gomes
- A gente ainda não conversou sobre isso, até para evitar influências. Mas, se tivesse esse desejo, seria uma coisa que não me desagradaria. Embora  eu considere que ele deva ter todas as opções, como eu tive. 

 

ND -Quando entrou na Polícia Militar?

Gomes -  Entrei  na academia em 1985, recém saído do segundo grau. Não tive nenhuma outra profissão, nunca trabalhei em nenhum outro lugar. Me formei em 1987, segundo colocado de uma turma de 80 alunos,  e podia ter escolhido para qualquer lugar. Mas preferi Joinville, porque na época tinha os maiores índices de criminalidade. Sempre fui apaixonado pela área operacional.

 

ND- E os seus cursos dentro da polícia?

Gomes –
Fiquei  nove anos em  Joinville, onde  comandei o Pelotão de Choque, que depois mudou de nome.  A denominação Grupo de Resposta Tática foi criação minha.  Também criei um serviço em Joinville chamado Paramédico, que existe até hoje.  Em 1997,  fui para o Corpo de Bombeiros, onde permaneci seis anos, e me tornei especialista em resgate de acidentes automobilísticos.  Depois, me especializei em incêndios e fui para o lado do desastre.

 

 ND- Fez mestrado é na área de Segurança Pública?

Gomes – Não,  engenharia civil, com concentração em transporte em logística. Meu projeto é na área de sistema de comando em incidentes. Trata-se de ferramenta norte-americana para gerenciamento de grandes ocorrências. Participei da fundação do Centro Universitário de Estudo e Pesquisa Sobre Desastre, o maior do Brasil nesta área.

 

ND- Por onde mais você passou na PM?

Gomes -  Sai do Corpo de  Bombeiros e fui trabalhar na área de ensino. Coordenei a diretoria de ensino, o novo currículo de formação do soldado já adaptado para bases curriculares nacionais, enfocando mais a relação de direitos humanos e  melhorando a questão das técnicas policiais. Depois, fui  para a  Defesa Civil e ocupei  o cargo de  gerente estadual de resposta a desastres. Peguei alguns desastres importantes como o  furacão Catarina. Fiz o Curso de Aperfeiçoamento de oficiais, trabalhei no Estado Maior.

 

ND- Já ocupou algum cargo fora do Estado?

Gomes -   Em 2009, fui o coordenador de planejamento do escritório especial do Ministério da Justiça para nossa candidatura às Olimpíadas, e fui o líder do tema segurança.  Tive oportunidade de coordenar um grupo de trabalho que montou a estratégia do Brasil para apresentar o esquema de segurança aos inspetores olímpicos, no Rio de Janeiro.  Fiquei três meses estudando a fundo a segurança pública no Rio. Faço parte de um grupo nacional de resposta a desastres, uma força tarefa do Ministério da Integração Nacional. Recentemente, estive no Rio, passei 12 dias ajudando no gerenciamento daquele desastre na serra do Rio de janeiro. 

 

ND - Você foi convidado para assumir o 4º BPM por algum amigo, ou por merecimento?  

Gomes –   Sempre fui discípulo do Coronel Nazareno (comandante geral da PM). Tenho uma admiração gigantesca por ele.  Como tenente, ele foi um oficial de educação física e defesa pessoal. Como oficial intermediário, aperfeicou a filosofia de polícia comunitária e qualidade total. Ele fez história, fez projetos estaduais. Agora,  oficial superior,  fez doutorado na área de gestão e implementa uma filosofia totalmente inovadora, articulada.

 

ND – O efetivo do 4º BPM  é suficiente para a Capital?

Gomes – Se tivéssemos  mais efetivo, poderíamos ampliar o alcance, os bons resultados dos projetos que a gente está desenhando e começando aos poucos a implementar. Por isso mesmo, a gente está otimista com as notícias de reforço.  Em julho,  devemos receber o primeiro reforço graças a um esforço de inclusão que esse governo já fez.

 

ND- De quanto?

Gomes – Ainda não está definido. Se formam 500, e ainda vão ser distribuídos pelas regiões. A gente imagina que essa base de projetos que estamos  montando, quando receber esse reforço de efetivo,  vai permitir que a cidade tenha um salto de qualidade. Não só na minha área, como nas áreas dos outros comandantes, que também tem bons projetos.

 

ND – Vocês ocuparam o morro do Quilombo, mas tiram o policiamento do Sul da Ilha. Isto não  é ruim para aquela região?

Gomes -  Não foi tirado o policiamento do Sul da Ilha. Foi feito rodízio de  uma viatura que compõe lá um esforço. Esta  viatura  é alocada para esforços extras. Estamos desfazendo este conceito de  tirar viaturas do Sul e colocar no Centro,   tirar do Centro e colocar no Sul, porque a dinâmica criminal da cidade não respeita os limites das companhias. Então há horários em que o Sul está  recebendo policiamento do Centro, porque a demanda criminal vai para lá.  Há horários em que policiais do Sul vem para a região  da Agronômica, porque a dinâmica criminal vem para cá.

 

ND – Você  implantou policiamento de bicicleta e de  moto na Beira-mar Norte. A estratégia dá bons resultados?

Gomes - Estou estruturando os eixos  no comando do Batalhão em três frases:   pacificar as comunidades conflagradas, que é ordenar a cidade; ter uma presença maior na questão de acessibilidade, mobilidade urbana, controle do trânsito, comportamentos anti-sociais; e proteger o que eu chamo de santuário, os lugares que têm valor simbólico para a cidade, onde não devem ou não deveriam ocorrer crimes, principalmente os mais violentos.

 

ND - Como combater essa criminalidade?

Gomes -  Estamos realizando uma parceria excelente com a Prefeitura  em vários aspectos.   Na  saúde,  eles estão nos fornecendo o modelo que  usam para o agente de saúde da família. Vamos começar a distribuir o policiamento com uma lógica parecida, voltada para a criminalidade.  A cidade está sendo dividida em células de 700 habitantes.  Cada célula vai ter um PM  que fará fluir as informações. Isto deve começar este ano com um projeto piloto, atingindo uma comunidade de exclusão social e com alto índice de violência, um bairro de classe de média e uma área comercial. Vamos comparar estes três ambientes e ampliar o serviço.

 

ND - Como será a atuação do policial?

Gomes -  Ele patrulha uma área grande, deve manter contato com os moradores, preencher questionário. Perguntar se a comunidade está  sendo vítima de alguma coisa. Verificar a imagem da corporação naquilo, passar informações, exatamente como a agente de saúde faz, só que voltado para o combate à criminalidade.

 

ND - E a panfletagem?

Gomes -  É uma estratégia que a gente está usando para aproximação com a comunidade. Nós distribuimos cartões divulgando o disque denúncia, o resultado está excelente. A quantidade de denúncia que está chegando é intensa e já apresentou resultados. 

ND- No disque denúncia aparece o nome de quem está ateando fogo nas casas do morro do Quilombo?

Gomes -  A gente já tem um mapa disso, já temos os nossos alvos. Temos bastante informações de quem colocou fogo, quem está ameaçando, os verdadeiros motivos, quem está com armas.

ND - Qual a dificuldade para prender este grupo?

Gomes -  É um grupo totalmente desarticulado, um bando de adolescentes. Aquela lógica que a gente sempre trabalha para ver como eles operam, de onde vem o dinheiro, não está funcionando. Então, como eles são imprevisíveis,  por falta desta lógica  a gente está tendo maior dificuldade para pegar.

 

ND -  O que está havendo no Quilombo, que briga é está?

Gomes - É uma história antiga, que tem relação com o assalto ao supermercado Rosa. Houve um desacerto na hora de dividir o dinheiro roubado, a quadrilha rachou. Um dos assaltantes saiu do Quilombo e foi para o morro do Caju. Quando ele retornou para cobrar uma posição, ocorreu uma morte, a vítima foi o Beiço, que participou do assalto. O cara começou a botar fogo na casa de uma pessoa que participou com ele no assalto.

ND - E a disputa por espaço no tráfico?

Gomes - Já falei isto em outros fóruns: tem relação também com a disputa da questão de drogas, com desavença entre gangues, e hoje tem uma questão pessoal.

ND – Quem são os líderes?

Gomes -  A gente tem alguns  nomes.  O Alan que foi expulso do Caju, é um deles.  É ele quem estaria tocando este horror lá Quilombo. O Japa, que foi expulso, é outro.

 

ND -E os  chefes do tráfico na Capital?

Gomes -   A gente identifica é que o tráfico está concentrado em dois grandes fornecedores.  Neném da Costeira e Denílson do Mocotó.  Apesar de presos, eles  exercem influências aqui fora, ainda articulam o crime fora das unidades prisionais.

 

ND - Qual é a boca mais rentável?

Gomes -  A gente percebe que algumas áreas estão ligadas a uma lógica econômica,  que chamo de  geomarketing,  de posicionamento de mercado.  No Centro, o morro do Horácio, próximo à Beira-mar é uma delas. As vias são rápidas, com pequenas  vicinais, permitindo que o cidadão consiga sair dali sem  despertar suspeitas.  A Panáia, no Sul da Ilha, movimenta muito dinheiro quando tem jogo na Ressacada, além de ficar no caminho do Aeroporto Internacional Hercílio Luz. A gente fecha uma boquinha, eles abrem outra ao lado. A gente prende um suspeito, aparece outro.

 

ND - Como a polícia deve resolver a questão do tráfico de drogas?

Gomes – Primeiro, tentar frear a demanda, tratar viciados, intensificar  programas preventivos nas escolas, intensificação das campanhas educativas, como o Proerd.

 

ND  -  O plano de ação é programado pelo comando geral,  ou cada batalhão adota uma estratégia?

Gomes -  O coronel Nazareno é um grande especialista em gestão, estabeleceu diretrizes estratégicas e indicadores estratégicos. A maneira como eu alcanço os indicadores depende da minha competência em gerenciar os meus recursos.

 

ND - E a campanha do desarmamento, o que acha?

Gomes – Particularmente, eu sou contra o civil ter arma. A gente tem experiências internacionais de sociedades mais armadas não são as mais seguras. Os EUA  são uma das maiores taxas de arma per capita e uma sociedade extremamente violenta. Canadá tem um grande número de armas per capita e não é violenta. O problema não está na quantidade de armas. O problema está em outras razões.

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