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Sexta-Feira, 18 de Agosto de 2017
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Excesso de automóveis individuais é um dos principais problemas de mobilidade em Florianópolis

Florianópolis tem 66 carros por 100 habitantes e praticamente metade do deslocamento na região é feito de carro

Letícia Mathias
Florianópolis
Fotos Rosane Lima/ND
Diane desistiu de andar de ônibus e entrou numa autoescola

A fotógrafa Diane Pedroso, 28, está fazendo autoescola. Ela desistiu de andar de ônibus e pretende dividir o carro com o marido para se deslocar ao trabalho, levar a filha de cinco anos à escola e realizar as outras atividades que necessitar. A bicicleta é uma alternativa que ela também costuma utilizar, mesmo assim, não tem coragem de ir muito longe pela falta de estrutura e segurança nas ruas para quem escolher se mover por meio deste modal. Ela diz que não faria carteira de habilitação se o transporte coletivo funcionasse bem. Diane é um exemplo entre milhares de moradores da Grande Florianópolis que estão cansados do trânsito e da falta de mobilidade pela Capital e região.

“Tem carros demais circulando pela cidade”. Esta é uma frase ouvida praticamente todos os dias para quem vive na região, assim como “estou parado na fila”, “está tudo trancado” ou “o ônibus não chegou, está atrasado”. O tema é recorrente em todo lugar. Para discutir a situação, será realizado quinta-feira, a partir das 18h na Assembleia, o último dos Seminários da Mobilidade promovidos pelo Grupo RIC, com especialistas como o ex-prefeito de Bogotá Enrique Peñalosa, o arquiteto Ricardo Corrêa e o coordenador do Plamus (Plano de Mobilidade Urbana Sustentável da Grande Florianópolis).

Segundo os dados preliminares do Plamus, são 0,66 carros por habitante só na Capital e 0,62 em toda região metropolitana. Quando comparada a outras regiões metropolitanas, a Grande Florianópolis tem a maior participação do automóvel na mobilidade das pessoas. Quase metade dos deslocamentos é feito de automóvel (48%), superando em quase o dobro os índices de cidade como Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e Porto Alegre.

A concentração de deslocamentos em e para Florianópolis fica no Centro (61%) e isso reflete na saturação dos principais corredores viários da região. As pontes estão com nível de saturação de 99% e na Beira-mar Norte chega a 84%. As vias que trazem os veículos para a Capital também estão com a capacidade no limite. Os níveis de saturação da BR 101 e BR 282 passam de 85%, cada.

E de acordo com dados do Detran-SC, esse número é crescente a cada mês. Em janeiro deste ano eram 213.204 veículos registrados em Florianópolis, em outubro o número passou para 215.682. O número de motocicletas também aumentou em 760 de janeiro a outubro. A média de pessoas por carro é 1,59. Entre automóveis e motos, só na ponte, passam cerca de 177 mil veículos por dia.

Pontes recebem 177 mil veículos por dia, de acordo com dados do Detran-SC
ArteRogério Moreira Júnior/ND
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Transporte de má qualidade incentiva o uso do carro

Diane mora no Campeche e para chegar à Costeira - também no Sul da Ilha, onde faz aulas - precisa pegar dois ônibus e leva em média uma hora para chegar ao seu destino. De carro levaria de 20 a 30 minutos. Mas esse tempo também não é certo. Um dos problemas da falta de mobilidade na cidade é a imprecisão sobre quanto tempo se leva de um ponto a outro. “Às vezes a gente planeja e sai bem mais cedo porque acha que vai pegar fila e não tem. Outro dia saio no horário e chego atrasada. É muito difícil, por causa disso sempre tem que pensar com pelo menos uma hora de antecedência pra tudo”, observa.  O marido dela trabalha no norte da ilha e sem carro teria que sair com pelo menos duas horas de antecedência de ônibus por causa das conexões.

Para quem mora, trabalha ou estuda nas cidades vizinhas e precisa atravessar a ponte todos os dias de ônibus, a situação fica mais complicada. Roseli de Fatma Abreu, 54, mora no bairro Jardim Aquarius, em Palhoça, e trabalha na avenida Mauro Ramos, Centro de Florianópolis. Para chegar ao trabalho às 9h, sem atrasos, e seguir o trajeto sentada, ela sai de casa às 6h. Com a mudança do sistema de transporte em 2012, o ônibus a que a levava direto ao Centro agora para em um terminal em Palhoça. Lá ela precisa aguardar outro ônibus que a levará ao Centro da Capital.

O trajeto leva cerca de uma hora por causa do congestionamento na Via Expressa. Se ela optasse por ir em pé, o tempo seria pouco reduzido, em meia hora, em média. “Às vezes espero passar três ônibus para conseguir lugar, me nego a pagar R$ 4,50 na passagem para ir em pé em um trânsito de uma hora. Dá vontade de chorar de ódio, é muito estressante. Gasto R$ 15 por dia só de ônibus”, reclama.

Os irmãos Ismael Rios, 21, e Eduardo Rios, 18, fazem o caminho inverso. Vão da Ilha para o Continente no contrafluxo dos horários de pico. Ainda assim, sentem a desconexão dos sistemas e horários. Eles moram no Ribeirão da Ilha e estudam em Palhoça. Eles chegaram a levar três horas no trajeto. “A maior dificuldade que vejo é a falta de interesse de mudança no transporte coletivo. Quero comprar uma moto para me deslocar melhor. Carro não adianta, vou ficar parado igual. A cidade cresceu, a infraestrutura não acompanhou isso; tem algumas obras, mas ainda não é suficiente”, diz Ismael.

Ariel Silva adotou a bicicleta há mais de dez anos: "Não aguento ficar na fila"

 

Plamus aponta motivos da preferência por veículos próprios

Entre os principais problemas de mobilidade apontados pelo Plamus estão a falta de conectividade entre as vias e o uso ineficiente do sistema viário, a falta de ciclovias e calçadas adequadas e a concentração de empregos, centros acadêmicos e serviços no Centro da Ilha. A operação do transporte coletivo é considerada difícil e desequilibrada. A baixa frequência e irregularidade do transporte coletivo, assim como o demorado tempo médio de viagem (30 min em automóvel contra 45 min em ônibus) são alguns dos problemas. Outra situação que dificulta a mobilidade é a falta de ações interligadas entre os municípios da região metropolitana.

De acordo com o estudo, as calçadas não incentivam deslocamento e a ausência de incentivos para meios não motorizados e para utilização do transporte coletivo, faz com que grande parte dos deslocamentos ocorra em veículos próprios. Ariel Silva, 26, adotou a bicicleta como meio de transporte há mais de dez anos e concorda com o estudo. Mesmo com os problemas ele insiste em usar a bicicleta or considerar “mais rápido e de fácil acesso”. Quando trabalhava em Biguaçu, ia de bicicleta do Centro até o trabalho e levava cerca de 40 minutos. “Não é fácil andar nesse trânsito, mas não aguento ficar parado na fila”, justifica.

O administrador Jerry Cavali, 34, usa o carro diariamente e acredita que o motivo de tantos carros, além da má qualidade do transporte coletivo é o incentivo e facilidade que há para comprar veículos atualmente. Além do gasto com combustível, ele paga R$ 320 por mês para deixar o veículo - quem vem do Norte da Ilha ao Centro - em uma garagem. “Se o transporte fosse de qualidade, usaria ônibus em vez de carro. Mas os ônibus estão lotados e nem sempre passam no horário. Já vim trabalhar assim, mas é praticamente inviável”, afirma.

 

Ações precisam ser integradas entre os municípios da região metropolitana

O termo mobilidade, como palavra, é definido como a capacidade de se movimentar. Mas o conceito é mais amplo. Segundo o professor do Departamento de Automação da UFSC e especialista em sistemas inteligentes de transportes, Werner Kraus, mobilidade é tudo que acontece no dia da cidade por necessidade de busca de trabalho, lazer e serviço. Porém, também é tudo que está relacionado à infraestrutura, que dá suporte aos deslocamentos: calçada, informação ao usuário, ciclovia, meios de transporte - que podem ser terrestres ou aquáticos e a junção desses serviços na distribuição dos espaços. “Se pessoas morarem perto do trabalho, da escola, precisam se deslocar menos. Portanto, mobilidade tem a ver com a distribuição espacial urbana. É resultado da necessidade das pessoas de acesso aos serviços”, afirma.

O professor explica que o que acontece na Grande Florianópolis em relação ao Brasil é o maior uso transporte individual, automóvel e moto do que em outras cidades: “É a maior do Brasil em relação aos coletivos. E isso, em qualquer lugar, é receita para o entupimento geral das vias. A solução e o desafio seria inverter esses números. Colocar dois terços para ônibus de qualidade e um terço para automóvel”.

Entre as possíveis alternativas apontadas por ele, estão ações que limitem a circulação de automóveis na cidade e promovam fortemente o uso do transporte coletivo de forma integrada com as cidades no entorno da Capital. Kraus acredita que parte do problema é a falta de estrutura institucional, mas que agora, com a lei da região metropolitana estabelecida, o diálogo entre as cidades será facilitado e poderão surgir políticas públicas mais integradas. “São acertos sociais; é preciso orientar esse processo, para que não se esgote no plano diretor. Nem tudo se resolve a pé ou de bike, continuamos precisando de transportes motorizados. Mas é preciso pensar quando e onde, avaliar empreendimentos que vão gerar deslocamento”, disse.

Estudo do Plamus apontou que população reclama do estado das calçadas

Especialista diz que seria possível transformar a cidade em 20 anos

O engenheiro Paulo Henrique Custódio, 66, especialista em sistemas de transporte e mobilidade afirma o problema em Florianópolis é crítico porque dois terços das pessoas usam automóvel. Ele está morando na cidade há três meses, abdicou do uso do carro e se desloca geralmente a pé ou de ônibus. Mas diz que hoje entende porque há tantos carros na cidade: “É quase impossível andar de ônibus por aqui. O táxi não chega ou pega outro passageiro quando combinou com você. Você vai para o ponto, mas não sabe que hora vai passar o ônibus. Não tem ideia de quando e como vai chegar ao seu destino. Mas é impossível resolver o congestionamento com essa quantidade de carro”.

Ele acredita que se conseguisse chegar a um nível em que 50% das pessoas usassem os coletivos, a fila nas pontes, por exemplo, diminuiria em um terço. Para ele a opção é investir em ônibus, BRT e corredores exclusivos. Mas isso não basta: é preciso investir em ações variadas em diferentes níveis. “É muito mais complexo, é uma série de fatores e cultura que precisam mudar. É preferível optar por ações de transformação e aos poucos do que grandes obras. Tenho uma teoria de quanto maior é obra, maior é a corrupção”.

Custódio aponta os problemas, algumas possíveis soluções e o tempo que levaria para que a cidade fosse transformada. Segundo ele, seria possível adotar políticas assim como os recursos disponíveis e com esses conceitos em dois anos as pessoas começariam a notar mudança, a transformação começaria entre 5 e 10  anos e a cidade seria outra em 20 ou 25 anos.

Problemas principais: excesso de veículos, problemas de gestão e urbanismo.

Ações possíveis:

1. Gestão da mobilidade. “Não tem gestão de trânsito ou de transporte coletivo. Meu primeiro investimento seria na capacitação de pessoas. É o primeiro passo. Não adianta investir em tecnologia se não se está preparado para usar, manter e operar”.

Urbanismo e espaços públicos . “O urbanismo é péssimo, só na África é pior. Tem locais onde passam quilômetros sem uma rua transversal.  As ruas são estreitas.  Aqui há o desejo de usar bicicleta como não vejo em outros lugares, deveriam aproveitar mais isso. Em uma pesquisa que sobre os maiores problemas da cidade, um dado surpreendeu: 60% das pessoas reclamaram da situação das calçadas. Se dizem que é ruim, é porque caminham. Precisa haver calçadas melhores para que as pessoas sintam-se estimuladas a caminhar mais”.

2. Sistemas de ônibus. “Investiria em sistemas de ônibus. Eles têm 80% da eficiência dos sistemas de trilhos e custa um terço do preço. É preciso pensar se queremos o top ou aquele que funciona e custa menos”.

Transporte coletivo: “Aqui nada é controlado, não há condições de saber se é correto ou não porque não tem controle. Precisa ampliar capacidade do sistema para que mais pessoas consigam usar o transporte”.

3. Gestão e educação: "As pessoas aqui não são ignorantes, têm alto nível de escolaridade se comparado a outras regiões.  A informação da sociedade é fundamental para a transformação. O povo aqui é interessante, eles param quando colocamos o pé na faixa, mas ao mesmo tempo estacionam onde não pode. Com educação isso pode mudar, há uma pré-disposição para mudança aqui. Quando as pessoas veem que funciona, elas acreditam, mudam e vira comportamento."

4. Projetos - “Junto a isso tudo seria necessário um trabalho paralelo de zoneamento e outros projetos urbanos. Muitos problemas não se resolvem; apenas se transferem de lugar. As soluções e decisões são ruins porque são feitas por quem vê o mundo pelo espelhinho retrovisor. Quando você vive a cidade pelo lado mais difícil, você encontra condições para buscar outras soluções”.  

 

Serviço

O quê: Seminários de Mobilidade Urbana
Quando: hoje, das 18h às 22h30
Onde: Auditório Antonieta de Barros – Assembleia Legislativa
Quanto: Gratuito, mas limitado. Pré-inscrições: ricmais.com.br/sc/mobilidade

 

Números

Veículos que passam na ponte diariamente segundo DNIT: 170 mil veículos/dia.

Veículos totais cadastrados pelo Detran em Florianópolis – 215.682

 

Dados do Plamus:

Arte Rogério Moreira Jr./ND

 

 

- Transporte motorizado individual responde por 48% dos deslocamentos. Porcentagem detalhada:

Automóvel 39%

Motocicleta 9%

Ônibus 24%

A pé 21%

Bicicleta 4%

Táxi, fretado, escolar e outros 3%

- A solução em longo prazo passa por quebrar a lógica dos eixos tradicionais e desenvolver polos no interior do continente

 

 

 

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