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Terça-Feira, 20 de Novembro de 2018
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Ex-presidente FHC fala sobre as manifestações no Brasil e sucessão presidencial

Fernando Henrique Cardoso comenta os recentes acontecimentos do país

Redação ND
Florianópolis

O legado de Fernando Henrique Cardoso voltou à pauta política. Em tempos de anseio por mudanças, o contraponto principal ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff é resgatado. Os holofotes em FHC partem de um redirecionamento do partido, proposto pelo presidente do PSDB, Aécio Neves, pré-candidato à presidência da República em 2014. Aos 82 anos, Fernando Henrique usou a experiência dos dois mandatos à frente do Brasil, entre 1995 e 2002, o conhecimento acadêmico e a vivência para comentar os principais acontecimentos recentes do país à jornalista Joice Hasselmann, da RIC TV do Paraná, em entrevista exclusiva ao Grupo RIC.

 

Renato Araújo/Agência Brasil
FHC
FHC entende que o clamor das ruas pede mudanças

 

Qual a avaliação dos protestos na rua?

Com a Internet, as mobilizações via mídias sociais não passaram por partidos, por lideranças, assim como ocorreu no mundo árabe, na Espanha, na Itália. Falta foco, mas a irritação está no ar. É um curto-circuito que pegou fogo. Dava impressão que o Brasil estava às mil maravilhas. A propaganda oficial é um contraponto com a vida cotidiana, que é cheia de dificuldades. Essa questão das mobilizações não é um estado permanente, tem hora que eles diminuem. Mas está claramente demonstrada uma insatisfação com o comportamento dos políticos. Entretanto, eu tenho um receio.

Qual?

Se a partir de toda essa manifestação, da mobilização política, não acontecer alguma coisa, tenho medo que apareça algum aventureiro. Se for o quadro desenhado, com a candidatura da presidente Dilma (Rousseff, PT), Aécio (Neves, PSDB), é provável, não tá garantido, Eduardo Campos (PSB), Marina (Silva, Rede Sustentabilidade), esses quatro tem compromisso com a democracia, tem história, tem referência. As instituições não estarão mal servidas. O perigo é o aventureiro.

Qual é a mensagem das ruas?

Chegou a hora de mudar e quando digo é mudar o comando, que está com o PT e seus aliados. A população não está na rua por isso, não vou dizer essa inverdade, mas está sentindo que a coisa não está bem. Se a população entender essa necessidade e se tiver uma candidatura que assuma essa mudança com clareza, é o caminho a seguir. Vai ganhar quem tiver clareza e franqueza ao dialogar com a população.

Qual o futuro da reforma política?

No Brasil se tem uma ideia equivocada de que uma grande reforma vai salvar tudo. As coisas precisam ser feitas aos poucos. O voto distrital, por exemplo, deveríamos começar pelos vereadores. Não adianta pensar que vai salvar o Brasil todo. O país vai sendo construído. Os deputados dificilmente votam alguma coisa que põe em risco o seu mandato, a sua reeleição. Aprendi isso apanhando, tentando fazendo reforma com muita velocidade, não vai. Se mudar para vereador o povo vai entender, na eleição seguinte muda para os deputados.

O Congresso cumpre seu papel?

O Congresso Nacional perdeu a capacidade de fazer o que precisa fazer, que é discutir os grandes problemas nacionais. Acabou perdendo o poder político. Agenda nacional saiu do Congresso e foi para o Planalto. A discussão real da vida brasileira está na imprensa e nas mídias sociais. O Congresso precisa voltar a discutir os temas da população.

Dilma se perdeu na condução do país?

Eu não gosto de ser tão radical assim, mas ela está meio embaraçada. O presidente Lula, aproveitando os bons ventos da economia, preferiu não mudar. A crise mundial foi bem operada. Mas, depois o governo acreditou que poderia fazer mudanças para fortalecer a economia, fugir do que tinha sido feito, como se o governo pudesse aumentar o PIB. Mas não é o governo quem faz isso, é a dinâmica do mundo, do capital, um conjunto. Não adianta pisar no acelerador. O governo pisou demais no acelerador, aumentou a dívida pública, mecanismo de financiamento quase sem limites. Estamos no rumo errado.

Qual o real cenário econômico do país?

Política econômica é navegação, não existe uma receita. É preciso saber a dosagem para subir ou baixar a taxa de juros, mudar o cambio, aumentar o crédito, é tudo isso junto, na dose certa. É preciso saber navegar. Aumentamos muito as facilidades de crédito, inclusive público. Se nós quisermos ter uma economia equilibrada temos que, ao mesmo tempo, restringir um pouco a política fiscal, deixar que o Banco Central opere a taxa de juros e torcer para que o cambio não atrapalhe, pois o cambio não depende só de nós. É preciso ter capacidade de equilíbrio.

O senhor voltou ao cenário nacional, qual o objetivo?

Ou você deixa uma marca ou você não existe. O PSDB é o que fez. Se fez e diz que não fez, não existe. Eleição não se ganha com o passado, se ganha com o futuro. Não acho que se deva fazer campanha partindo do que eu fiz. Tem que reconhecer o que foi feito, inclusive os erros, mas se ganha eleição apontando caminhos para o futuro e com a população reconhecendo isso.

Quais suas aspirações políticas?

As gerações mudam, passam. Está na hora de passar o comando, sem ter medo. Eu posso dizer isso, pois foi o que eu fiz. Deixei a presidência e não vou ser candidato a mais nada, porque não está mais na hora, para que vou ser senador, deputado, governador, não está na hora, já passou? Meu papel é falar, discutir, motivar, mas é preciso entender que outros têm que entrar em cena.

Uma das suas ideias é a descriminalização da maconha. Qual o objetivo?

É preciso concentrar os esforços na prevenção, explicar o mal que as drogas fazem. Quem usa drogas não tem que ser visto como criminoso, mas como paciente. Usuários de crack precisam de tratamento, não de cadeia. Quem entra na cadeia não sai mais. Acredito que o correto seja descriminalizar, não liberar o uso de drogas, o foco é não tratar como crime. É preciso reprimir ainda o contrabando.

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