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EUA debateram golpe contra Maduro com militares venezuelanos, diz New York Times

Movimento é uma grande aposta de Washington dado o histórico americano de intervenções na América Latina durante a Guerra Fria

Folha de São Paulo
São Paulo (SP)
08/09/2018 às 13H39

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O governo Donald Trump discutiu com militares rebeldes venezuelanos durante o último ano planos de um golpe contra o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, segundo reportagem do jornal The New York Times publicada neste sábado (8) baseada em relatos de funcionários do governo dos EUA e um ex-chefe militar venezuelano que participaram dos encontros.

Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro - José Cruz/Agência Brasil/Divulgação/ND
Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro - José Cruz/Agência Brasil/Divulgação/ND


O movimento é uma grande aposta de Washington dado o histórico americano de intervenções na América Latina durante a Guerra Fria, incluindo apoio a golpes em países como Brasil, Chile, Cuba e Nicarágua.

A Casa Branca, que não respondeu a questões específicas sobre as reuniões, disse em nota que foi importante participar de "diálogo com todos os venezuelanos que demonstram um desejo por democracia" com o objetivo de "trazer mudança positiva para um país que já sofreu tanto sob Maduro". Mas um dos comandantes militares venezuelanos envolvidos nas conversas secretas é alvo das sanções de Washington a funcionários corruptos do regime venezuelano.

Funcionários americanos eventualmente decidiram não ajudar os conspiradores venezuelanos, e os planos de golpe ficaram emperrados. Mas a disposição da administração Trump em se encontrar diversas vezes com militares que planejam derrubar um presidente pode sair pela culatra.

A maioria dos presidentes latino-americanos concorda que Maduro é um líder cada vez mais autoritário que arruinou a economia do país - o FMI projeta uma inflação de 1.000.000% para a Venezuela neste ano. O êxodo de venezuelanos para outros países da região chega a 2,3 milhões de pessoas, segundo a ONU - desde 2015, 1,6 milhão de pessoas deixaram o país.

Mas Maduro passou os últimos anos justificando a escalada autoritária do governo justamente alegando que Washington planeja derrubá-lo em um golpe de Estado.

Em agosto, um ataque com drones durante um discurso de Maduro em Caracas fez crescer o sentimento de vulnerabilidade do ditador. Um grupo opositor autointitulado Soldados de Camiseta reivindicou a autoria do atentado, que não feriu Maduro.

O regime chavista afirmou que setores da extrema direita na Colômbia e nos EUA estavam por trás do ataque - Bogotá e Washington negaram envolvimento.

A revelação das conversas agora fornece munição para o ditador venezuelano reprimir a posição praticamente unida dos vizinhos contra ele.

"Isso vai cair como uma bomba" na região, afirmou ao New York Times Mari Carmen Aponte, principal diplomata do Departamento de Estado americano para América Latina no governo Barack Obama (2009-17).

Os militares rebeldes venezuelanos buscaram acesso ao governo americano ainda durante o mandato de Obama, mas foram rejeitados.

Então, em agosto do ano passado, Trump afirmou que não descartava uma "opção militar" na Venezuela, declaração que foi rechaçada mesmo pelos aliados dos EUA na região, mas que encorajou os militares rebeldes a procurarem novamente Washington. "Era o comandante-em-chefe [Trump] falando isso agora", afirmou à reportagem do New York Times o ex-chefe militar venezuelano, que falou ao jornal americano sob condição de anonimato temendo represálias do regime chavista. "Eu não vou duvidar quando esse era o mensageiro."

A série de encontros secretos começou no segundo semestre de 2017 e prosseguiu durante este ano. Nas reuniões, os militares rebeldes afirmaram aos americanos que eles representavam algumas centenas de membros das Forças Armadas descontentes com o autoritarismo de Maduro.

Segundo o ex-chefe militar que falou com o jornal, há pelo menos três grupos distintos dentro das Forças Armadas venezuelanas que conspiram contra Maduro. Um deles estabeleceu contato com o governo americano por meio de uma embaixada dos EUA em uma capital europeia. Quando isso foi reportado a Washington, relata o NYT, funcionários da Casa Branca ficaram intrigados mas apreensivos. Eles temiam que o pedido de reunião pudesse ser um estratagema para gravar secretamente uma autoridade americana para conspirar contra o governo venezuelano.

Os americanos mudaram de ideia ao longo do ano passado, com o agravamento da crise humanitária na Venezuela.

Os militares venezuelanos pediram aos EUA que fornecessem rádios criptografados, citando a necessidade de se comunicar em segurança, enquanto desenvolviam um plano para instalar um governo de transição até que as eleições pudessem ser realizadas. Os representantes do governo Trump não forneceram o material, e os planos foram desvendados após uma recente ofensiva de Maduro que terminou na prisão de dezenas de conspiradores.

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