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Estudo da Udesc mostra que população centenária de Florianópolis não quer mais viver

Pesquisa acende alerta para carência de políticas na velhice e preocupação para não ser "um peso para a família"

Aline Torres (Especial para o Notícias do Dia)
Florianópolis
24/08/2018 às 22H37

Adelina do Nascimento veio ao mundo no inverno de 1916, quando a expectativa de vida das mulheres catarinenses era chegar aos 34 anos. Com o instinto nato para contrariar padrões, a manezinha nascida na Costa da Lagoa superou a expectativa de vida não apenas do seu século, mas também do 21 – é ativa e lúcida aos 102 anos. E, talvez, por esbanjar saúde e saberes, que cause estranheza quando diz que não quer mais viver. Mas não se espante, Adelina não é caso isolado, ela representa a vontade comum entre os centenários de Florianópolis.

Adelina está lúcida aos 102 anos, mas não deseja mais viver, vontade comum aos 75% dos entrevistados do estudo - Aline Torres/ND
Adelina está lúcida aos 102 anos, mas não deseja mais viver, vontade comum aos 75% dos entrevistados do estudo - Aline Torres/ND


Indiferentes ao desejo de viver mais estão 75% dos centenários moradores da Grande Florianópolis, entrevistados para um estudo inédito em Santa Catarina, realizado pelo Laboratório de Gerontologia da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina) e batizado SC100.

O estudo mapeou 48 centenários na região, 12 responderam ao questionamento por terem a capacidade cognitiva preservada.

Os centenários entrevistados não se parecem entre si. Têm hábitos, estilos de vida e condições diferentes. Além da longevidade, dividem outra característica, na expressão mais usada, “não querem ser um peso para a família”. E é por uma questão política que não querem mais viver.

“A sociedade não está preparada para eles. A responsabilidade é integral dos familiares. O que facilita casos de negligência, abandono e violência física, psicológica e moral”, conta a coordenadora do projeto SC100, Giovana Mazo.

A pesquisa mostra que as pessoas não têm preparo para cuidar de um centenário, por falta de tempo e dinheiro, principalmente. Clínicas particulares e cuidadoras são caras. Além do fato dos familiares viverem no mesmo ritmo da sociedade, são trabalhadores sobrecarregados e exaustos – ou são idosos.
“Os idosos não querem ser vistos como um estorvo, a maior parte tem autoestima baixa provocada pela dependência
familiar”, diz Mazo.

SC está despreparada para os idosos

Apesar da abrangência do estudo SC100 ter atingido até o momento a Grande Florianópolis, não é difícil imaginar que sua realidade abarque Santa Catarina, o estado brasileiro com maior esperança de vida ao nascer para ambos os sexos.

Segundo a última revisão do IBGE na Projeção de População, divulgada em julho, a expectativa atual é de 79,7 anos e deverá manter a liderança no país até 2060, com 84,5 anos. Dados que podem ser lidos como um sinal vermelho, já que o estado mostra despreparo para lidar com a velhice.

Há três anos, o TCE (Tribunal de Contas do Estado) e o MP/SC (Ministério Público) solicitaram que fosse regulamentado o Fundo do Idoso, que fosse apurado o perfil do idoso e capacitados os conselhos municipais – ações ainda não executadas.

Paulo Medeiros, 35 anos, coordenador Estadual do Idoso, cargo vinculado à Secretaria de Assistência Social, conta sobre três encaminhamentos positivos.

O Fundo do Idoso está no processo final de regulamentação, desatando burocracias e, quando implantado as pessoas poderão doar 6% do imposto de renda e as empresas 1%. O estado foi o primeiro a aderir ao programa Brasil Amigo da Pessoa Idosa, lançado em abril pelo governo Federal, que visa estruturar ações nos municípios catarinenses. E no dia 8 de agosto todos os secretários estaduais estiveram reunidos para criar um plano mais amplo e participativo para a pessoa idosa.

Também tramita na Assembleia Legislativa de Santa Catarina o projeto de lei para criação do Fundo para Assistência Social, a ideia é aumentar o orçamento equivalente a 0,33% da receita do governo estadual para 1%.

"A falta de investimento no envelhecimento é de longa data e muito é cobrado da Assistência Social, mas os recursos são muito pequenos".

Enquanto os projetos não saem do papel, a situação dos idosos em Santa Catarina é dramática. O governo não repassa há dois anos verba para os municípios e o MP/SC denuncia que quase mil aguardam vagas em instituições de longa permanência para idosos, as ILPIs.

Em apenas 62 dos 295 municípios há ILPIs, um pouco mais da metade tem convênios municipais, as outras são particulares ou sobrevivem com doações e cobram taxas sociais. A mensalidade de uma ILPI pode chegar a R$14 mil. Pública, existe apenas uma instituição, em Caçador, no Oeste.

Além da escassez, muitas dessas clínicas não têm sequer cadastro no Conselho Municipal do Idoso e são constantemente alvos de denúncias do MP.

Outra revindicação ainda não atendida são as criações dos Centros Dia, para que os idosos sejam levados de manhã, convivam em grupo, façam atividades e recebam suporte e à noite sejam levados para casa. A única inauguração prevista é em Cocal do Sul.

Adelina não sofre de depressão

A depressão é o caminho mais fácil para explicar porque os centenários cansaram da vida. Mas o estudo SC100 e seus personagens mostram que o entendimento exige mais motivação. Adelina é um bom exemplo.

A centenária é saudável. Toma apenas remédio para pressão alta, embora preferisse tomar chás, e caminha mais do que muitos jovens, em média, um quilômetro e meio por dia. Também conta que não se sente triste ou deprimida.

Se há segredo para conter o relógio biológico, ela não sabe. Come de tudo. Brinca que não existe agrotóxico que a mate.

Ela pertence a um grupo heterogêneo, no qual não foi encontrada característica comportamental que justifique a longevidade. O que se sabe, até o momento, é que 70% são mulheres, de baixa escolaridade, até por questões sexistas e, que os idosos mais ativos fisicamente têm maior capacidade cognitiva. Outro ponto em comum é o medo de desagradar os familiares.

Centenários ouvidos na pesquisa chegam ao ponto de responder que viver bem para eles é "não serem maus".

Quando questionado se quer viver mais, o senhor R, N, J diz "se precisar dos outros não quero, se precisar dos outros quero que Deus me leve de uma vez". Já a senhora H. M.V atesta "não quero mais viver, quando Deus me chamar vou feliz”.

Adelina também diz à reportagem que está pronta. “Se eles [familiares] estão bem, eu estou bem. Eu gosto de todo mundo, sabe? Mas estou pronta pra morrer, digo sempre pra Deus, pode me levar, tá na hora, mas acho que devo ter muitos pecados", ri.

Os centenários catarinenses têm pouca expressão nas estatísticas, inclusive por conta da dificuldade de registros da época. Mas a tendência é que o grupo cresça. Nos últimos oito anos, quadruplicou a faixa etária daqueles com mais de 90 anos em Santa Catarina. Foi o maior avanço do país neste período.

“Os dados mostram que a população cresce e mesmo assim não é feito nenhum projeto eficiente. Sinto que eles são deixados de lado porque em breve irão morrer. O estado se ausenta, como se fosse desperdiçar recursos com essas vidas. É uma situação muito triste, em mais alguns anos seremos eles”, diz.

Independência aumenta qualidade de vida

Nascida em Florianópolis, Marilde Rodrigues, 91 anos, tem uma memória impressionante. Por 43 anos, ela foi professora e quando se aposentou não deixou de ter uma vida movimentada.

Marilde, ativa aos 91 anos, endossa outra faceta: a independência está ligada à qualidade de vida - Aline Torres/ND
Marilde, ativa aos 91 anos, endossa outra faceta: a independência está ligada à qualidade de vida - Aline Torres/ND


Aos sábados de manhã, ela frequenta a Igreja Católica e também participa de reuniões em outras religiões. Identifica-se muito com o zen e gosta da Monja Coen. Todas as noites agradece e medita. Pratica yoga há 50 anos, faz dança circular sagrada e segue uma dieta da nutrição funcional. Uma vez por ano visita o médico ortomolecular. Lê todos os dias, livros e jornais. Mês passado concluiu “Corpo sem Idade; Mentes sem Fronteiras”, de Deepak Chopra.

Marilde é uma mulher independente, viajou muito, mora sozinha em um apartamento cheio de flores, dirige desde os anos 60 e, neste ano, renovou a carteira de motorista. Ela também não cansa de aprender, conta que já fez mais de mil cursos. Ela é o contrapeso da balança e endossa as observações dos pesquisadores do Laboratório de Gerontologia da Udesc, que também se debruçam sob sua faixa etária - a independência dos idosos está diretamente ligada à qualidade de vida, tanto no aspecto físico relacionado à cognição e às funções motoras quanto ao emocional.

“Percebemos que os idosos que vivem melhor não têm a necessidade de cuidados de familiares ou cuidadores, pois há menos risco de sofrerem violência física, moral ou psicológica”, diz Mazo.

Marilde acredita que sua longevidade está relacionada com a alta qualidade de vida, com sua filosofia de viver e com sua rede de afetos, também conta com uma boa saúde financeira. Ela superou a expectativa de vida em Santa Catarina e não é a única. Há 30 anos, Marilde participa de encontros com as primas. Todas têm mais de 90 anos, assim como suas quatro amigas da faculdade.

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