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Especialistas apontam mudança radical para ampliar leitura na primeira infância

Seminário Internacional realizado em São Paulo trouxe especialistas dos países ibero-americanos para tratar do assunto e buscar novas alternativas

Fábio Bispo
Florianópolis
18/03/2018 às 21H49

O panorama da educação brasileira não é nada animador. Segundo pesquisa do banco Mundial, divulgada no início de março, levaremos pelo menos 260 anos para alcançar o nível de leitura dos países do primeiro mundo. O relatório revela algo já bem conhecido pela população na prática. O país conta um sem número de analfabetos funcionais e estima-se que apenas 8% da população de fato seja “proficiente” em leitura, o mais alto no indicador Inaf (Índice de Alfabetismo Funcional).

Em Florianópolis, projeto Piquenique Literário, realizado pela Casa da Criança, no Morro da Penitenciária, busca difundir a literatura na infância como um meio em si - Marco Santiago/ND
Em Florianópolis, projeto Piquenique Literário, realizado pela Casa da Criança, no Morro da Penitenciária, busca difundir a literatura na infância como um meio em si - Marco Santiago/ND


A meta do Plano Nacional de Educação de universalizar o ensino infantil na pré-escola até 2016 ficou para trás. E das 8.824 mil creches prometidas no programa Proinfância, lançado em 2007 pelo governo federal, menos da metade foram entregues às comunidades. Os efeitos disso, segundo especialistas, são os mais reais possíveis, vão do aumento da violência, da proliferação da pobreza, ao desemprego.

“Algo que é fundamental de se pensar é a força que as instituições têm no papel, sobretudo dos mais pequenos, mas tem que se tomar cuidado para isso não passar de um assistencialismo, por que aí ignoramos o aspecto central desta discussão”, declarou a especialista em leitura e educação na primeira infância, a argentina Maria Emília Lopez, que ao lado dos principais nomes dos países Ibero-Americanos palestrou no Seminário Internacional de Arte, Palavra e Leitura na 1ª Infância, realizado entre os dias 13 e 15 de março em São Paulo.

Iniciativa do Instituto Emília e da Comunidade Educativa CEDAC, realizada em parceria com o SESC São Paulo e Fundação Itaú Social, ao longo de três dias o seminário, primeiro a reunir especialistas da América Latina e Europa para tratar do assunto, abordou diferentes aspectos que envolvem a leitura, a cultura e a arte na primeira infância (os cinco primeiros anos de vida).

Reinventar a leitura 

Para os especialistas, está mais do que claro que, para elevar os níveis educacionais no país, é preciso uma mudança radical sobre o envolvimento dos mais pequenos. Parte desta mudança passa pelas políticas públicas, pelos investimentos de recursos no setor e pela formação dos profissionais.

“Necessitamos do suporte de toda a sociedade. É preciso uma revalorização da educação como todo, não apenas como algo funcional. Por isso a importância de fóruns que abordem a leitura, a arte e a cultura na primeira infância, para que as pessoas saibam que não são coisas acessórias, mas sim o ponto principal. Isso é o primeiro que temos que assegurar”, explicou a espanhola Beatriz Sanjuán, especialista em promoção da leitura e literatura infantil e professora da Universidade de Oviedo.

Beatriz Sanjuán diz que a arte de contar histórias, de resgatar a oralidade dos ancestrais e reinventar a forma como as crianças têm acesso à literatura é um passo importante para a forma como elas se relacionarão com a escrita no futuro.

Atividades desenvolvidas por Gislane Souza, bibliotecária, e Giovanna Marchiori, pedagoga, envolve as crianças de forma lúdica - Marco Santiago/ND
Atividades desenvolvidas por Gislane Souza, bibliotecária, e Giovanna Marchiori, pedagoga, envolve as crianças de forma lúdica - Marco Santiago/ND



Literatura ainda tem caráter utilitarista

Em um país onde a maior parte das crianças só tem acesso à educação através do ensino público, o papel da escola na formação de jovens leitores é mais do que fundamental, aponta Patrícia Diaz, diretora do Cedac (Comunidade Educativa), que atua na formação de professores em todo o país.

“A escola tem um grande papel, pois ela é que pode oferecer algo que talvez muitas só vejam lá. Se determinadas experiências não ocorrerem ali, nós não podemos depender de que algumas famílias possam oferecer certas experiências e outras não”, diz Patrícia.

Ter acesso à escola, segundo Patrícia, não assegura acesso pleno à literatura. Para ela, a leitura no país tem tido um caráter utilitarista. “Tratamos a leitura ainda como forma de acessar outros conteúdos, e não como algo que permite crescimento humano, de ampliação de universo, de valorização do outro, da diversidade e da empatia”, conta.

Em Florianópolis, o projeto Piquenique Literário, realizado pela Casa da Criança, no Morro da Penitenciária, busca difundir a literatura na infância como um meio em si. As atividades desenvolvidas por Gislane Souza, bibliotecária, e Giovanna Marchiori, pedagoga, envolve as crianças de forma lúdica com a literatura em sessões de filmes que narram histórias de livros ou em sessões de leitura coletiva, onde os alunos leem uns para os outros em ambiente fora da biblioteca.

“Essa é a única biblioteca na comunidade, mas a leitura não se restringe apenas ao espaço da biblioteca, mas sim na vida da gente. É isso que temos buscado nesse projeto, tirar os livros da biblioteca para fazer parte da vida deles”, conta Gislane.

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