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Sexta-Feira, 16 de Novembro de 2018
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Escola Silveira de Souza comemora 100 anos de boa educação em Florianópolis

Ex-alunos compartilham lembranças antigas do colégio

Felipe Alves
Florianópolis

Os altos muros rosados do prédio de número 334 da rua do Brito, no bairro Tronqueira, na cidade de Desterro, continuam de pé 100 anos depois da inauguração, em 28 de setembro de 1913. Ali fica o Grupo Escolar Silveira de Souza, o quinto do tipo em Santa Catarina e a segunda escola pública fundada no Estado. O prédio, tombado pelo município está no mesmo lugar, porém, para localizá-lo hoje, é preciso procurar por outro endereço: Rua Alves de Brito, bairro Centro, Florianópolis. Laurita Franzoni Pereira, de 91 anos, ainda lembra quando estudou lá, em 1930. Na época, o colégio era segregador: meninas de um lado, meninos do outro. “Até mesmo os portões da escola foram construídos desta forma, um era só para os garotos e o outro para as garotas”, lembra.


Daniel Queiroz/ND
A escola era do tipo segregadora, nos primeiros anos, separava meninos de meninas


Com uma memória de dar inveja, Laurita fala com carinho sobre os quatro anos que estudou lá. Sem titubear, ela recorda os nomes das quatro professoras que a acompanharam nesse tempo: Ema, Otília, Rosa e Emerita. Ela faz questão de enfatizar que é nesta ordem, da 1ª à 4ª série. Boa aluna, Laurita estudou no grupo dos 8 aos 11 anos. A recordação mais marcante é a sabatina mensal, feita pelas professoras. A atividade era uma espécie de competição entre meninos e meninas e sempre que empatava a “competição”, ela se empolgava e respondia às perguntas corretamente em frente de toda classe. Mas não era tarefa fácil. “Naquela época não havia a liberdade que há hoje. Os alunos eram quietos, mais tímidos”.

Na época, o ensino do Grupo Escolar Silveira de Souza só ia até a 4ª série. Por causa disso, precisou mudar de colégio em 1933. Assim que terminou os estudos básicos, fez magistério e tornou-se professora aos 19 anos. Deu aulas em Blumenau, Itajaí e Laguna. Voltou para Florianópolis, trabalhou em alguns colégios da região e, em 1958, as histórias de Laurita e do Silveira de Souza voltaram a se cruzar. Até 1967 ela deu aulas no mesmo colégio em que aprendeu as primeiras sílabas e onde decidiu se aposentar.


Boa educação em um lugar democrático

 Carlos Cesar de Souza, de 69 anos, não foi aluno da professora Laurita, mas lembra de ouvir o nome dela entre os corredores do Silveira de Souza no fim da década de 1950. Quando estudou lá, o modelo de ensino tinha mudado. Era permitida a mistura de meninos e meninas nas turmas. O último sábado de cada mês era reservado para apresentações artísticas na escola. Por sua desinibição e bom português, ele foi escolhido pela professora para declamar poemas aos outros alunos, que se reuniam nos corredores do prédio em formato de U, característico das escolas desta época. “Eu decorava tudo em uma semana e declamava sozinho na frente de todos, sem medo algum. Quando finalizava, todos aplaudiam e pediam ‘bis’”, recorda.


Daniel Queiroz/ND
Carlos ainda reencontrou os pés de jaca, onde brincava com os colegas de aula


Reconhecido pelo ensino de qualidade, o grupo escolar era bem conceituado e abrigava alunos de todas as classes sociais. Os filhos dos ricos da cidade se misturavam aos filhos dos moradores dos morros da redondeza sem problema algum. Logo que chegou ali, Carlos enfrentou dificuldades com o ensino. Filho de um estivador e de uma dona de casa, até então ele estudava em uma escola onde o ensino era fraco. Apesar de português ser o seu ponto forte, matemática preocupava. Mas as professoras chamavam a atenção de Carlos por outro motivo. “Eu ficava parado, olhando para elas, admirando a forma como davam aula, desejando ser professor um dia. Eu ficava pensando tanto nisso que não copiava tudo o que era passado”. Depois de tanto observar o trabalho das professoras, o sonho de Carlos virou realidade. Formado em Pedagogia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), ele se tornou professor universitário de didática e aposentou-se na profissão.

Desde que saiu do Silveira de Souza, em 1956, Carlos não havia voltado ao colégio. Há duas semanas, quando passava pelo local, parou e apreciou o prédio, emocionado. Não sabia que este era um ano emblemático para a escola, que comemora 100 anos com uma programação especial durante esta semana e, neste sábado (28), reunirá vários ex-alunos, professores e pessoas que fizeram parte da história do colégio. Carlos estará na festa, relembrando histórias e detalhes de sua infância, como os dois pés de jaca, que faziam a alegria da criançada em 1950 e ainda continuam lá, dando frutos até hoje.


A história do Grupo Escolar Silveira de Souza

Fundada pelo governador Vidal Ramos, o prédio foi construído com o objetivo de oferecer educação gratuita e de qualidade para crianças e adolescentes. Até 2009, a escola pertencia ao Estado, porém, foi doada a secretaria municipal de educação de Florianópolis. Composto por duas alas simétricas, o prédio foi construído em formato de “U”, de forma que houvesse partes iguais para meninos e meninas.


A arquiteta Betina Adams, observa que no início do século 20 as construções primavam pela “ordem, trabalho e asseio”, conceito que dá suporte a uma lógica de como construir escolas em Santa Catarina e um dos primeiros indícios de modernidade na Capital. Essas três palavras refletem também a arquitetura do prédio.

Construída em um nível mais alto do que a rua, a edificação tem uma arquitetura eclética, segundo a arquiteta Suzane Alberts. Naquela época, as construções não procuravam estar tão relacionadas ao colonialismo e buscavam a modernidade, com elementos como a simetria, a fachada, as alas interiores, as janelas e portas com vergas em arco reto.

 

Valorização do conhecimento

Após um século de história, a Escola Básica Silveira de Souza – como é foi renomeada para os tempos da nova educação – continua sendo um espaço para o aprendizado em Florianópolis. Depois de funcionar até 2009 com ensino regular, hoje a Silveira de Souza abriga um dos sete núcleos da EJA (Educação de Jovens, Adultos e Idosos) de Florianópolis. A modalidade de ensino é voltada para a alfabetização e para a formação do ensino fundamental de pessoas que abandonaram a escola.

Atualmente, 185 alunos entre 15 e 64 anos fazem parte da EJA da Silveira de Souza, divididos entre os períodos matutino, vespertino e noturno. De acordo com Carina Santiago, uma das coordenadoras do projeto, o diferencial desta modalidade de ensino em Florianópolis é fazer com que os alunos busquem pesquisar assuntos de interesse pessoal. “Nosso trabalho é feito em cima de projetos de pesquisa. Cada aluno busca informações sobre um assunto que conhecem e, a partir daí, os professores trabalham com eles o aprofundamento de várias questões relacionadas àquele tema”, explica ela.

Segundo Carina, este tipo de ensino valoriza o conhecimento prévio dos alunos e faz com que eles desenvolvam diversas habilidades.No local, quatro salas são usadas para o ensino. Há ainda biblioteca, refeitório, quadra esportiva, sala de informática e um espaço para horta, cultivada pelos alunos.

Além do EJA, duas salas da escola foram cedidas para o ensaio de duas orquestras de Florianópolis. Em breve, o espaço também deverá sediar um dos núcleos da Escola Livre de Música, em parceria com a Fundação Franklin Cascaes. O objetivo é oferecer aulas dos gêneros erudito e popular aos alunos, sob coordenação da secretaria municipal de cultura da Capital.


A busca pelo conhecimento

Aos 12 anos, Patrícia Goulart deixou a escola enquanto cursava a 3ª série do ensino fundamental. Quando criança, morou em um orfanato até que foi adotada aos 15 anos por uma família em Florianópolis. Mas ela decidiu deixar o país e morar na Espanha por um tempo. Lá, teve contato com um mundo completamente diferente ao qual estava acostumada. Ao falar sobre seu país para os espanhóis, Patrícia percebeu que não sabia o português corretamente. “A experiência lá foi fantástica e serviu muito para o meu aprendizado, mas percebi que o mais importante era saber a língua de onde eu nasci”.

De volta ao Brasil, decidiu que era hora de mudar e retomar os estudos que havia deixado para trás. No início deste ano, ela se inscreveu no EJA da Escola Silveira de Souza e acha desafiadora a forma como os conteúdos são trabalhados em sala de aula. Na primeira pesquisa de ensino, ela buscou informações sobre direitos humanos e agora o novo trabalho é sobre adoção.


Daniel Queiroz/ND
Patrícia e as colegas de aula preparam uma homenagem a Silveira de Souza


Durante as últimas semanas, Patrícia e os colegas se dedicaram a fazer uma homenagem a Silveira de Souza, catarinense que deu nome à escola. Inspirados no filme Lixo Extraordinário, que mostra a produção de obras de arte feitas com materiais coletados em grandes lixões, os alunos decidiram fazer uma releitura de uma foto de Silveira de Souza. Com restos de cabelos do salão onde Patrícia trabalha e materiais que iriam para o lixo, eles criaram sua própria obra. O resultado final será exibido neste fim de semana, em um evento que vai marcar os 100 anos da escola.


Quem foi Silveira de Souza?

Nascido em 1824 na antiga Desterro, João Silveira de Souza foi um advogado, jornalista, poeta e político catarinense. Escreveu o livro de poemas Minhas Canções (1849) e é patrono da cadeira 18 da Academia Catarinense de Letras. Faleceu em 11 de dezembro de 1906.


Programação de sábado, 28

Horário: 14h30 às 17h

Atividades: Exposição de fotos e vídeos, fruto das pesquisas e oficinas feitas com alunos do EJA no durante o ano; Apresentação do Grupo Folclórico Raízes Açorianas, com cantigas e danças folclóricas tradicionais; Reencontro de ex-alunos, professores e funcionários da escola

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