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Entrevista: Juiz Sérgio Moro chama empresários ao combate à corrupção

Titular da Operação Lava Jato foi um dos palestrantes na entrega do prêmio da Revista Amanhã

Redação
Florianópolis
23/11/2017 às 09H04

As empresas vencedoras do ranking “Grandes & Líderes - 500 Maiores do Sul 2017” foram reconhecidas nesta quarta (22), em Curitiba. O evento foi promovido pela revista “Amanhã” e pela consultoria PwC Brasil. Ao todo, mais de 4.000 empresas do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul foram avaliadas. Além da entrega dos prêmios, empresários e políticos acompanharam palestras com o juiz federal Sergio Moro e com o presidente do BNDES, Paulo Rabello de Castro.

Governador Beto Richa (à esq.) parabeniza Leonardo Petrelli, diretor executivo do Grupo RIC no Paraná, durante cerimônia de premiação - Rogério Machado/SECS/ND
Governador Beto Richa (à esq.) parabeniza Leonardo Petrelli, diretor executivo do Grupo RIC no Paraná, durante cerimônia de premiação - Rogério Machado/SECS/ND


Entre as 500 maiores empresas do Sul do Brasil está o Grupo RIC, que em 2017 completou 30 anos. “Hoje, o Grupo RIC é uma referência de regionalismo. Temos um projeto que ajuda o desenvolvimento econômico local e valoriza as diversas regiões que compõem a nossa planta de comunicação entre Paraná e Santa Catarina. É um estímulo enorme estar entre as 500 maiores, mas também um desafio, de continuar entre essas 500 empresas e crescendo cada vez mais”, afirmou o presidente executivo do Grupo RIC no Paraná, Leonardo Petrelli.

O ranking traz uma completa radiografia empresarial do Sul, de acordo com o publisher de “Amanhã”, Jorge Polydoro. “Essa cerimônia é uma oportunidade ímpar para refletir sobre o futuro do Brasil e o papel dos líderes nas mudanças que o país precisa promover”, disse. O método utilizado para desenvolver o ranking é exclusivo e avalia os dados das empresas de modo a demonstrar não apenas o destaque no quesito desempenho financeiro, mas apresenta informações relevantes sobre capital próprio, níveis de endividamento e faturamento, de acordo com o sócio da PwC Brasil, Carlos Peres.

Além do juiz Sergio Moro, o presidente do BNDES, Paulo Rabello de Castro falou durante o evento. Ele antecipou que a instituição criará sete superintendências regionais. “A missão do banco em 2018 será sair da avenida Chile [no Rio de Janeiro]. Por essa razão, queremos criar regionais empoderadas e para que empresários possam receber visita de técnicos”, afirmou. No Sul, ainda não existe uma definição se a superintendência ficará em Curitiba, Florianópolis ou Porto Alegre. “Acho que vamos ter de fazer um sorteio para não descontentar nenhuma das capitais”, descontraiu.

Entrevista com Sergio Moro

O juiz federal Sergio Moro participou do evento de premiação das 500 Maiores do Sul e, para uma plateia de empresários e políticos, falou sobre como as empresas precisam ser protagonistas em um momento de combate contra a corrupção sistêmica no Brasil. “Recessão sempre é muito ruim para as pessoas e empresas. Mas é muito bom conseguir sair dela”, disse. Moro comentou ainda sobre a Operação Lava Jato e seus desdobramentos recentes.

Moro falou durante entrega de prêmio - Gustavo Granata/Agência Preview/ND
Moro falou durante entrega de prêmio - Gustavo Granata/Agência Preview/ND



Qual é a avaliação que o senhor faz dos resultados da Operação Lava Jato?

Os números são superlativos, e o balanço da própria Petrobras reconheceu perdas da ordem de R$ 6 bilhões em custos direto com a corrupção. Temos quatro ex-diretores da Petrobras cumprindo penas, dois deles em condições mais favoráveis, por terem ajudado com informações. Apenas um gerente devolveu US$ 98 milhões, em contas no exterior. Ontem [segunda-feira] o TRF-4 [Tribunal Regional Federal da 4a Região] confirmou a condenação do ex- presidente da Câmara [Eduardo Cunha]. 

Como a corrupção compromete a livre concorrência e própria saúde do ambiente no qual as empresas operam?

A questão é não apenas constatar esses problemas, mas saber como superar esse ambiente de corrupção disseminada. Costumamos identificar a corrupção como um problema exclusivo do setor público, mas ela envolve quem paga e quem recebe. Há situações nas quais empresários são vítimas extorquidas, mas nos casos julgados até o momento não foi reconhecida nenhuma extorsão. Em geral se fala que ‘pagavam porque era a regra do jogo’, pois era algo normal, e não extraordinário. As empresas têm um grande papel. Em primeiro lugar: não pagar propina. Peço desculpas por falar algo tão óbvio. Se houver extorsão, este é um momento oportuno para que as empresas procurem as autoridades para denunciar os fatos. 

Como desenvolver, nos âmbitos das empresas, políticas coorporativas de integridades, principalmente pelos sistemas de compliance?

É preciso que sejam reais, e não apenas como as leis ‘para inglês ver’. Deve haver um comprometimento dos dirigentes da empresa. Não adianta pedir integridade dos funcionários, se ele está envolvido em esquemas corruptos. Há um ditado: ‘o peixe começa a apodrecer a partir da cabeça’. 

De que forma o loteamento político dos cargos públicos, na divisão de diretorias em zonas de influência partidárias, fomenta a corrupção?

Essa prática permanece nas diversas esferas da administração pública federal, mesmo após as investigações. Isso precisa ser diminuído. Claro que o governante deve ter liberdade para indicar alguns cargos, mas não nesse nível, no qual repartições de menor importância são objetos de mercancia entre agentes e partidos políticos. Não é só estabilidade da economia, nem retomada do crescimento. Existem outros objetivos a serem perseguidos por nossas lideranças políticas. Um deles é o enfrentamento da corrupção sistêmica. Espero que isso seja um tema relevante nos debates políticos do próximo ano. 

A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou restrições ao foro privilegiado. Da mesma forma, o tema deve ser discutido nesta semana no Supremo Tribunal Federal. O senhor entende que essa prerrogativa deve ser eliminada?

Se constatado que aquele instituto não funciona, se na prática acaba sendo um escudo contra a efetiva responsabilização de governantes desonestos, isso tem que ser alterado. É uma coisa muito simples. Tem que ser, ou totalmente eliminado, ou diminuído. Os juízes mesmo têm foro privilegiado. Por mim, acho que não existe nenhuma razão de ser para nós termos foro privilegiado, os magistrados. Eu, de minha parte, por exemplo, fico muito bem sem o meu, e acredito que falo, neste sentido, pela totalidade dos meus colegas. Espero que, talvez, os políticos pudessem fazer a mesma coisa.

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