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Em depoimento, Lula afirma que Palocci é 'frio, calculista e simulador'

"Se ele [Palocci] fosse um objeto, seria um simulador", afirmou Lula em depoimento nesta quarta-feira

Folha de São Paulo
Curitiba
13/09/2017 às 19H14

ANA LUIZA ALBUQUERQUE, CATIA SEABRA, ESTELITA HASS CARAZZAI, MARIO CESAR CARVALHO E FELIPE BÄCHTOLD (FOLHAPRESS) - Em pouco menos de duas horas de depoimento ao juiz Sergio Moro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou o ex-ministro Antonio Palocci de "calculista, frio e simulador", e negou que tenha feito qualquer tipo de acerto ilícito com a empreiteira Odebrecht.

"Se ele [Palocci] fosse um objeto, seria um simulador", afirmou.

Antes de prestar depoimento a Moro, Lula é recebido por militantes em Curitiba

Lula prestou seu segundo depoimento a Moro nesta quarta (13), uma semana depois que seu ex-ministro da Fazenda afirmou que o petista avalizou um "pacto de sangue" com a Odebrecht, com o pagamento de R$ 300 milhões em vantagens indevidas em troca de manter o protagonismo da empreiteira no governo. O terreno ao instituto estaria incluído nesse valor.

Nesta ação, ele é acusado de se beneficiar de vantagens indevidas pagas pela empreiteira Odebrecht —incluindo a compra de um terreno que seria destinado ao Instituto Lula, e cuja negociação teria sido intermediada por Palocci.

O ex-presidente disse que Palocci nem sequer era responsável por assuntos do Instituto Lula (o que caberia ao seu presidente Paulo Okamotto), e afirmou que só se encontrava com o ex-ministro, depois de sua saída do governo, "de oito em oito meses".

Reunião

Durante a audiência, o Ministério Público Federal ainda apresentou uma pauta de reunião de Emílio Odebrecht, patriarca da empreiteira, com Lula, que foi entregue à investigação. A reunião teria ocorrido no dia 30 de dezembro de 2010, nos estertores do governo Lula, no Palácio do Planalto. No documento, o primeiro item da pauta é a "'Passagem' do histórico de parceria" –o que seria uma referência à troca de governo, de Lula para Dilma, e ao acerto ilícito feito com o intermédio de Palocci.

Na mesma agenda, ainda são listados, debaixo do título "Com ele", os itens: "Estádio Corinthians, Obras Sítio, 1ª Palestra Angola e Instituto". O petista disse que o documento é falso e "uma mentira". Lula ainda fez críticas à atuação da Polícia Federal e do Ministério Público e disse ver com "desconfiança" determinadas operações.

Pallocci

O advogado de Palocci, Adriano Bretas, afirmou que "dissimulado é ele [Lula], que nega tudo o que lhe contraria e teve a pachorra de dizer que se encontrava raramente com o Palocci". "Enquanto o Palocci mantinha o silêncio, ele era inteligente e virtuoso; depois que resolveu falar a verdade, passou a ser tido como calculista e dissimulado", afirmou o defensor, em nota. "Essa é a lógica dele: os que o acusam mentem, os documentos são falsos, e só ele diz a verdade."

Figura central

O ex-presidente Lula disse que o Ministério Público criou uma "grande mentira" ao apontá-lo num gráfico feito em PowerPoint que o político era a figura central de uma organização criminosa.

"Eu já disse mais de uma vez para o senhor: eles contaram uma grande mentira com o Power Point. E eu quero ver como eles vão sair dessa".

Lula foi interrogado sobre o terreno em São Paulo que, segundo procuradores e delatores, foi comprado para a construção do Instituto Lula, mas posteriormente o ex-presidente preferir fazer o prédio em outra área.

Moro disse a Lula que entendia o fato de ele estar rancoroso, mas ponderou que a audiência era a oportunidade que ele tinha para esclarecer as dúvidas dos procuradores. "Eu não estou rancoroso", rebateu o ex-presidente.

"Eu fico preocupado quando as pessoas inventam uma história e tentam a cada momento transformar a inverdade em verdade."

Procuradores e delatores dizem que o terreno que não foi usado foi comprado com recursos da Odebrecht. O dono de uma empresa que a Odebrecht usava para repassar propina confirmou à Justiça que fez a compra a pedido da empreiteira.

Lula alfinetou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que teria arrecadado recursos para fazer o seu instituto enquanto ocupava a Presidência. Ao ser questionado se havia conversado com Emílio Odebrecht sobre o projeto do instituto, ele falou que só teve a ideia do instituto após deixar a Presidência: "Porque se eu fizesse como outros presidentes, teria feito dinheiro enquanto estava na Presidência". Lula afirmou que não queria pensar sobre o seu futuro enquanto estivesse na Presidência.

Irritação

Lula demonstrou irritação com a insistência de Moro em questioná-lo sobre o pagamento de aluguel pelo uso do apartamento vizinho ao que mora, em São Bernardo do Campo (SP).

A denúncia do Ministério Público afirma que parte do favorecimento providenciado pela Odebrecht ao ex-presidente foi a compra desse imóvel, o qual, dizem os procuradores, o petista ocupou sem que pagasse aluguel.

O ex-presidente, em meio às perguntas do juiz, passou a fazer ataques ao Ministério Público Federal e lembrou do imbróglio envolvendo a revisão da delação da JBS e o procurador-geral Rodrigo Janot.

"Deus escreve certo por linhas tortas e as coisas estão virando verdadeiras. Estamos vendo o que está acontecendo com o Janot, o que está acontecendo com o [ex-procurador] Marcello Miller. E a força-tarefa da Lava Jato aqui em Brasília está tratando de forma a destruir o Ministério Público contando inverdades. Eles inventaram que o tríplex era meu."

A exemplo do que aconteceu no primeiro depoimento como réu a Moro, em maio, Lula voltou a atribuir decisões de seu patrimônio à ex-primeira-dama Marisa Letícia, que também era acusada no processo e que morreu em fevereiro.

Disse que, como viajava muito, foi Marisa quem tratou de negociar o pagamento de aluguel do apartamento vizinho, em 2011.

"Fiquei perto de 30 anos sem assinar um cheque na minha vida porque, primeiro, a dona Marisa era muito séria no trato com dinheiro. Era muito econômica, nunca tive medo de deixar um cartão de crédito com ela porque eu tinha consciência de que a dona Marisa não gastaria nada que não fosse essencial. E a dona Marisa ficou com a responsabilidade de fazer o contrato e acertar."

Lula disse que pode ainda providenciar comprovantes de pagamento dos aluguéis. Moro demonstrou estranhamento com a afirmação e disse que o ex-presidente poderia ter encaminhado esses documentos desde o fim do ano passado, quando o processo foi aberto.

O petista, então, respondeu que só ficou sabendo sobre essa suspeita após o depoimento do proprietário do imóvel, Glaucos da Costamarques, que foi ouvido na semana passada e também é réu no processo.

Atos

Lula deixou a sede da Justiça Federal em Curitiba pouco antes das 16h30, de carro, sem falar com a imprensa. Na saída, cinco moradores que vestiam camisas verde e amarelas e erguiam bandeiras do Brasil gritaram "ladrão" e "bandido". "Lula ladrão, seu lugar é na prisão", cantavam.

Logo depois de sua saída, a Polícia Militar desmontou as grades que formavam o perímetro de segurança em torno da sede da Justiça. Os carros e pedestres voltaram a circular normalmente. O petista segue agora para um hotel, onde tomará um banho, e depois participa de ato na praça Generoso Marques, no centro da cidade, com militantes petistas.

Manifestantes a favor da Lava Jato e que pediam a condenação de Lula se concentraram no museu Oscar Niemeyer, a cerca de dois quilômetros da sede da Justiça. Não houve registro de confrontos entre militantes. Moro também ouviu o ex-assessor de Antonio Palocci, Branislav Kontic, na audiência desta quarta (13).

Lula é recebido pela militância na chegada do depoimento para Sérgio Moro - Ricardo Stuckert
Lula é recebido pela militância na chegada do depoimento para Sérgio Moro - Ricardo Stuckert



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