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Em clima de pré-candidatura à presidência, Ciro Gomes visita Florianópolis

O ex-governador do Ceará criticou as medidas econômicas adotadas no governo Dilma, a falta de proposição de reformas de Lula e Dilma e defendeu mudanças no atual projeto de reforma política

Felipe Alves
Florianópolis
23/08/2017 às 14H59

Em clima de pré-candidatura à presidência da República em 2018, o ex-governador cearense Ciro Gomes (PDT) tem percorrido o Brasil para palestras em universidades, coletivas de imprensa e contato direto com a base pedetista de cada região. Na terça (22) e quarta-feira (23) ele esteve em Santa Catarina (Florianópolis e Chapecó) e na quinta (24) vai para o Rio Grande do Sul para, de acordo com ele, fazer uma “corrente de opinião” pelo país. Em coletiva realizada na Alesc (Assembleia Legislativa de Santa Catarina), ele pontuou sua pauta de propostas para o país, criticou as medidas econômicas adotadas no governo Dilma, a falta de proposição de reformas de Lula e Dilma e defendeu mudanças no atual projeto de reforma política que está sendo discutido no Congresso.

Coletiva de imprensa foi realizada na Alesc, nesta quarta-feira - Daniel Queiroz/ND
Coletiva de imprensa foi realizada na Alesc, nesta quarta-feira - Daniel Queiroz/ND


Qual é a participação do PDT em Santa Catarina? Vocês têm três prefeituras. Qual é o cenário que você vê hoje do partido aqui no Estado?

Não é o lugar onde somos mais fortes, mas temos uma presença muito respeitável a partir do Manoel Dias, que foi Ministro do Trabalho e teve uma passagem muito importante na administração pública federal. Isso nos abre muitas portas, desde o governador (Colombo), que é um velho amigo e com quem temos bom diálogo, o Jorge Bornhausen me apoiou lá atrás, e o (Dario) Berger que me apoiou. Então eu tenho uma entrada muito forte em Santa Catarina. Eu venho ao Estado desde jovem político para experimentar, ver, compreender como vocês, na contramão do Brasil, mantiveram a propridade dividida, ainda assim ganham escala por associativismo, há bênção tecnologicamente, têm acesso ao mercado, tinham uma agroindústria importante, agora têm o polo de informática mais importante do Brasil, avançam para o terceiro setor e tem turismo absolutamente extraordinário. Enfim, é um Estado “arrumado” e um exemplo.

 

O senhor critica a proposta de reforma política que está sendo discutida hoje. Na sua visão, que proposta deveria estar em pauta?

Se nós temos compromisso com o povo, o povo tem duas queixas da sua representação política. Uma é dessa relação podre de dinheiro com a política. A solução aqui deveria ser baratear as campanhas e tentar fazer uma regulação mais transparente, com mais controle social sobre a presença do dinheiro na política. O que eles estão propondo encarece as campanhas e, em uma hora em que se está exigindo amargura mais do que sacrifício da sociedade brasileira, parece ser um bofete no nosso rosto você criar um fundo de bilhões de reais para financiar um sistema eleitoral que só replica ao Afeganistão, que destrói a possibilidade de renovação que é tudo que nós queremos hoje, que acaba com o voto identitário (a causa das mulheres, ambiental, dos LGBTs, dos afrodescendentes). Esses votos identitários perdem qualquer chance de respirar invertendo a lógica de uma democracia mambembe. Segunda razão é que o povo quer algo que garanta que o político seja a mesma pessoa que ele era antes da eleição depois. Ou seja, há um absoluto descolamento do eleito a partir de uma agenda que ele celebra com o eleitorado. No dia seguinte ele se elege e vai fazer tudo ao contrário. Isso deveria introduzir na nossa dinâmica o ‘recall’. Não estão fazendo nada disso. O sistema eleitoral tanto faz. Nenhum sistema é perfeito.

 

Numa possível candidatura à presidência, que propostas o senhor deve trazer para a sociedade?

Eu vou apresentar um projeto nacional de desenvolvimento que tem três tarefas de fundo: elevar o nível de formação de capital doméstico para não dependermos de ciclos internacionais de capital especulativo; estabelecer uma coordenação estratégica desenhada, escrita, com prazo, meta, avaliação e controle com empresariado e universidades; e uma estratégia de investimento em gente. O Brasil está proibido de crescer hoje por três razões e o projeto contempla soluções para isso. A primeira é o passivo estrangulado das empresas, que chegaram num nível de endividamento que elas colapsaram. O colapso das finanças públicas: você tem o pior desequilíbrio e a mais desestruturada gestão fiscal desde Fernando Henrique Cardoso. É preciso entrar numa dinâmica de reindustrialização do país.

 

Em 1998 e 2002 o senhor concorreu a presidente e ocupou espaço de alternativa a Lula e ao PSDB. Que espaço o Ciro Gomes ocupa hoje?

Lamentavelmente o Brasil não mudou a não ser pra ficar clara a necessidade de construir um terceiro caminho. Por que essa polarização que reparte o Brasil entre coxinhas e mortadelas não cabe o Brasil dentro disso. Quando o Lula era uma iminência que apenas negava tudo que estava aí, denunciava a corrupção, denunciava o caráter antissocial da política não cabia que eu fosse eleito. Mas agora? De novo? Se ele entra na disputa, nós não teremos um minuto para discutir o futuro do país. Será ódio, amor e paixão despolitizados sobre o Lula. Eu sou um velho ganhador de eleições e não é por que faço milagre, mas por que tenho muita afinidade com a psicologia popular. Então naquela eleição de 2002 essa semente estava plantada, mas você tinha como negação do Fernando Henrique e sua banda um não-experimentado PT na vida nacional. Era perfeitamente compreensível que a população se encantasse por aquela utopia social, moralista. Agora, cadê a utopia? A população vai procurar coisas concretas, experiência, segurança. Isso tudo é uma dinâmica. Não sei se conseguirei me demonstrar como o mais treinado, mas o ambiente está para mim. Cadê a Marina (Silva)? Cadê o Aécio (Neves)? O Alckmin está enrolado numa confusão danada dentro do partido que a guerra é feia lá dentro. Eu estou aqui, em Chapecó, Florianópolis, palestras, vou amanhã (quinta) para o Rio Grande do Sul, depois para Minas Gerais. Não entro em lista. Não fico acordado de noite com medo de sair em lista. Não tem delação premiada que me abale.

 

O que você tem feito desde 2011, quando você deixou de ser deputado federal pelo Ceará?

A última eleição que eu disputei foi em 2006. Eu fui o deputado federal mais votado no Brasil. Foi a pior experiência da minha vida pública. Fui colega do Michel Temer e do Eduardo Cunha e eu não dava um dia de serviço à sociedade brasileira. Ali se reuniu PSDB e PT e as escolhas eram às avessas. Quanto mais picareta e mais analfabeto e mais despreparado, mais prestígio se dava ali. Então eu não tive direito de relatar um projeto relevante, por que quem distribui essas cartas é o presidente da Câmara. Então eu fiquei ali todo dia, botava a gravata, e ficava 8 horas ouvindo conversa fiada. Explodiu a crise de 2008, a mais grave da história do capitalismo mundial, arrebentou as contas do Brasil e a Câmara Federal não deu um minuto de atenção a esse assunto. Por que a turma acha que corrupção é um problema - e é muito grave. Mas alienação é muito mais grave. Ali parece um microuniverso de alienígenas que não têm nada a ver com a sociedade brasileira.

 

Se eleito, o senhor deve governar com essa Câmara que está aí...

Esse tipo de Câmara vai mudar na eleição que vem. Eu tenho segurança disso. Mas eu acredito que haverá uma renovação grande do parlamento.

 

Fernando Henrique, Lula e Dilma lidaram com este tipo de Congresso...

Não, eles corromperam esse Congresso. Não é justo a gente dizer que o Brasil não se reformou por causa do Congresso. Não é verdade. Se fosse verdade, nós tínhamos que dizer: “lembram o Fernando Henrique propôs a seguinte reforma e o Congresso não votou”. Ele propôs duas: eliminou criminosamente o conceito de empresa nacional e a outra foi a reeleição que ele comprou. Não propôs nada no sistema tributário e na previdência, quando o problema era muito menor. Qual foi a proposta de reforma que o Lula fez e que o Congresso não deixou passar? Eu brinco com ele que a única reforma que ele fez foi a tomada de três pinos. A Dilma, que reforma propôs? O Congresso é reativo, mas ele pode ser “coagido” democraticamente se você propuser e entrar em uma dinâmica de pressões, contrapressões, negociações, entendimentos. E tudo isso é da minha arte.

 

O senhor falou da mobilização da greve contra a previdência. Houve mais mobilização nesse ponto do que até contra o impeachment?

No impeachment a Dilma tinha perdido o povo por que desastrou a economia e, ao invés de chamar o povo para entender as causas do desastre econômico que tem a ver a queda dos preços internacionais, chama um cara do outro lado (Joaquim Levy) cuja experiência anterior do serviço público tinha sido quebrar o Estado do Rio de Janeiro e bota ministro. O cara bota em 14.25% a taxa de juros, arrebenta com a economia. Imagina eu, Ciro Gomes, defender o governo Dilma com Levy ministro? Dilma pediu pra “morrer”. Uma pessoa no presidencialismo a brasileira, que cai no primeiro ano de mandato por que não consegue reunir um terço dos deputados com um presidente bandido, que até as pedras do caminho sabem que é bandido, só a inexperiência ou talvez até a falta de apetite.

 

Como o senhor avalia a Operação Lava-Jato?

Acho que ela pode ser uma virada de página história, pondo um fim na crônica de secular impunidade com que o banditismo de alto status se comportou ao longo da vida brasileira. Portanto isso é uma coisa transcendentalmente importante. Mas estão semeando nulidades. Aqui é um velho professor de Direito falando. Então se já tem 30% das sentenças reformas no Tribunal Regional, quando chega no Supremo ou STJ, e a imprensa eventualmente houver já descuidado do assunto por que outra “novela” vai surgir, eu temo que ela seja extensamente anulada. E aí vai ser uma decepção muito grande. Então cada arbitrariedade que eles falam, eu denuncio do ponto de vista de quem precisa desesperadamente que esse negócio funcione. Só isso pode equalizar minha disputa nacional.

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