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Efeito caminhoneiros causa desabastecimento de combustíveis, alimentos e ameaça transporte

No Ceasa faltam frutas enquanto nos postos consumidores fazem fila para conseguir abastecer; movimento ganha força em todo o país e não aceita trégua

Fábio Bispo
Florianópolis
23/05/2018 às 22H37

O efeito da paralisação dos caminhoneiros, que chegou ao seu terceiro dia com mais de 200 trechos de rodovias federais afetados em todo o país, anuncia o caos. O primeiro foi sentido nas bombas de combustíveis, com diversos postos em Santa Catarina anunciando falta de gasolina e diesel. No Ceasa-SC (Centrais de Abastecimento do Estado de Santa Catarina), responsável pela distribuição de 30% do hortifrúti consumido no Estado, já falta frutas e a previsão é de que nos próximos dias mais itens desapareçam das prateleiras.

Falta frutas em SC  - Flávio Tin/ND
Greve dos caminhoneiros afeta no abastecimento de alimentos em SC  - Flávio Tin/ND



A Associação Catarinense de Supermercados informou que há problemas de abastecimento em todas as regiões. E o setor de carne bovina, suína e de aves anunciou a paralisação de 129 unidades produtivas no país.

No fim da tarde desta quarta-feira (23), o movimento dos caminhoneiros negou o pedido de trégua de três dias manifestado pelo presidente Michel Temer (PMDB). Por meio de grupos de whatsapp, os manifestantes se comunicam direto com a Abcam (Associação Brasileira dos Caminhoneiros) que manteve a posição do movimento. “A orientação é para manter o movimento. Aqui em Biguaçu mantemos o acesso à base da Petrobras bloqueado e na fábrica da Coca-Cola os caminhões não estão conseguindo chegar para reabastecimento”, disse Felipe Raitz, que participa do bloqueio na Grande Florianópolis.

O movimento que iniciou na segunda-feira (21) contra as seguidas altas no preço do diesel ganhou adesão de outras categorias nos últimos dois, como dos motoboys e dos transportadores de turismo. Nesta quinta, há novas manifestações marcadas em Florianópolis e em Biguaçu, onde 150 ônibus de turismo prometem sair em carreata pela BR-101 em forma de protesto.

O próximo setor na mira dos efeitos da paralisação é o transporte público. Em Florianópolis, a frota de mais de 500 ônibus ainda não foi afetada, mas com a falta de combustíveis nas bombas a expectativa é de que o setor também sofra com a paralisação. Nesta terça-feira o Setuf (Sindicato das Empresas do Transporte Público de Florianópolis) disse que está monitorando a situação, mas ainda sem indícios de falta de combustível. Quem saiu pela cidade para abastecer se deparou com postos fechados e com locais cobrando preços abusivos. Em um posto de Florianópolis, durante intervalo de quase duas horas, a gasolina aditivada foi reajustada em dez centavos.  

SC pode ficar sem combustível já nesta quinta - Flávio Tin/ND
SC pode ficar sem combustível nesta quinta-feira  - Flávio Tin/ND



SC pode ficar sem combustível já nesta quinta

As quatro bases de abastecimento da Petrobras em Santa Catarina, em Lages, Biguaçu, Itajaí e Guaramirim, estão com seus acessos bloqueados. Nesta terça, o desabastecimento já era sentido em diversas regiões do Estado e as previsões é de que nesta quinta todas as regiões sobram com a falta de combustíveis.

Segundo informações do Sindipetro (Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo de Santa Catarina), no Planalto Norte, os município de Campo Alegre, Mafra, Canoinhas e São Bento do Sul já enfrentam desabastecimento. No sul do Estado, Criciúma, Cocal do Sul e região . No município de Gravatal, há falta de combustíveis e filas de consumidores nos postos. No Oeste, a cidade de Chapecó está totalmente desasbastecida.

Em Florianópolis, nesta terça, dois postos no Norte e dois no Sul da Ilha já estavam sem combustíveis. A previsão é de que até esta quinta-feira o Estado inteiro esteja desabastecido. O vice-presidente de relações institucionais e comunicações do sindicato, Joel Fernandes, afirmou que também haverá falta de álcool por causa do aumento da demanda. "A única solução é o governo baixar os preços dos produtos de gasolina e de diesel, que são os mais caros do mundo", disse.

Posto do Itacorubi, em Florianópolis, sem gasolina no início da noite de quarta-feira:

Segundo Joel, o setor não tem plano B para conseguir garantir a oferta aos consumidores e diz que se o movimento começar a prejudicar as pessoas será preciso garantir o direito de ir e vir. “Eu apoio o movimento, acho justo, todos os sindicatos do país têm pedido a redução do PIS/Cofins dos combustíveis, mas isso não pode prejudicar uma população inteira”, disse Fernandes.

Procon fiscaliza postos de combustíveis

A falta de combustível nos postos não justifica o aumento do valor da gasolina e o aumento deve ser baseado no percentual divulgado pelo governo. Nesta terça, após denúncias de preços abusivos, fiscais do Procon de Florianópolis e São José fiscalizaram os estabelecimentos. Qualquer aumento acima dos valores autorizados pelo governo pode ser enquadrado como prática abusiva, o que fere o Código de Defesa do Consumidor.

 “Estamos fazendo este acompanhamento e, qualquer aumento além daquele repassado pela Petrobras, pode configurar prática abusiva. Há postos em outras cidades aumentando preço com a alegação de falta de combustível, o que é ilegal e pode trazer consequências severas para os estabelecimentos”, pontua o diretor do Procon de São José, Fabrício Vieira.

A orientação é para a população ficar atenta e, ao observar um aumento abusivo, acionar o Procon. No Sul do estado, o Procon do município foi até um posto após uma denúncia de preço abusivo sem justificativa e o estabelecimento teve que retroagir o valor aumentado.

Oferta de frutas que vêm de São Paulo e do norte do país devem ficar prejudicadas  - Flávio Tin/ND
Oferta de frutas que vêm de São Paulo e do norte do país devem ficar prejudicadas nesta quinta - Flávio Tin/ND



Ceasa já registra desabastecimento de frutas

Salésio Pfleger, 50 anos, até conseguiu levar a produção de pimentão, repolho, berinjela e vergamota cultivada em Águas Mornas para o Ceasa. “O problema é que os compradores não conseguiram chegar aqui, estão todos presos nos bloqueios”, conta o produtor que não sabe se conseguirá trazer a produção a partir de amanhã. “Dizem que vão bloquear a BR-282 e não sei se vamos conseguir vir nos próximos dias”, contou.

Nesta terça a central já registrava o desabastecimento de frutas. O primeiro item a faltar foi o limão, e a oferta de frutas que vêm de São Paulo e do norte do país devem ficar prejudicadas já nesta quinta. “Nós registramos uma queda de 50% dos compradores. Estão faltando frutas e se a paralisação continuar outros itens vão faltar já esta semana”, informou Albanez Souza de Sá, diretor do Ceasa-SC.

Os boxes do Ceasa que dependem dos produtos vindos de fora do Estado já começam a contabilizar prejuízos. Sem compradores, o estoque de alguns produtos pode até durar mais alguns dias, mas o risco de prejuízos é iminente. “Nós temos estoque até o fim da semana, como os compradores não estão vindo não estamos conseguindo vender, mas para semana que vem se a situação não melhorar vamos ficar sem produtos”, contou Robson Vandresen, 36, que comercializa melancias.

Sérgio Baschirotto também apontou a falta de alguns itens em seu box. “Nossos produtos vêm da Bahia, coco, abacaxi, e como muitos caminhoneiros não estão conseguindo nem chegar para abastecer a expectativa é de falta nos próximos dias”, contou.

Supermercados de todas as regiões sentem impacto

Responsáveis por 85% das demandas por produtos e alimentos, os supermercados de Santa Catarina também começaram a sofrer com o desabastecimento. Parte dos caminhões das maiores redes está presa nos bloqueios. Uma grande rede da Grande Florianópolis, que diariamente abastece três caminhões no Ceasa, esta terça teve que improvisar o carregamento com um furgão.

No sul do Estado, caminhões de outra rede acabaram ficando atolados depois que os motoristas adotaram rota alternativa para furar os bloqueios. A orientação dos caminhoneiros é para parar todos os caminhões de carga, independente se estão cheios ou vazios. Apenas os que transportam cargas vivas ou medicamentos estão conseguindo seguir viagem.

Por meio de nota, a Acats (Associação Catarinense de Supermercados), disse que “espera que haja um acordo, num curto espaço de tempo, entre as autoridades e os representantes dos caminhoneiros, a fim de que as lojas de supermercados catarinenses possam novamente ser abastecidas dentro da normalidade”. Segundo a associação, os supermercados já sofrem com falta de frutas, legumes, verduras, produtos perecíveis e carne in natura.

Federação dos hospitais cobram providências

Se não bastasse o desabastecimento de toda a cadeia produtiva, desde os combustíveis aos alimentos e produtos de higiene, o impacto da greve dos caminhoneiros também começou a ser sentido nos hospitais do Estado.

A Associação e Federações dos Hospitais de Santa Catarina, que representam os hospitais privados e filantrópicos no estado, emitiram um alerta as autoridades para que sejam tomadas as devidas providencias para impedir o desabastecimento de insumos e medicamentos nos hospitais do Estado.

O protesto dos caminhoneiros já reflete em unidades de Saúde do Vale do Itajaí, Planalto Norte, Meio Oeste, Planalto Serrano, Sul, Oeste e Meio-Oeste. Até o final da tarde desta quarta-feira, diversos hospitais cancelaram procedimentos cirúrgicos. Além disso, as unidades que mantém geradores com combustível a base de petróleo também temem ficar sem os equipamentos em situações de emergência.

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