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Segunda-Feira, 10 de Dezembro de 2018
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Ecovila ajuda na regeneração da mata atlântica e garante qualidade de vida na Vargem Grande

Comunidade autossuficiente criada por adeptos do santo daime é vizinha de moradores tradicionais em bairro ao Norte de Florianópolis

Edson Rosa
Florianópolis

A produção de 100 mil mudas da palmeira-juçara, das quais, 60% já foram espalhadas em área de 10 mil hectares, significa mais do que a regeneração da mata atlântica na Ilha. É a garantia de alimentação sadia e qualidade de vida para as futuras gerações da Ecovila Céu do Patriarca, criada em 1987 pela Associação Ambientalista Comunitária e Espiritualista São José, no corredor ecológico do morro dos Macacos, entre Vargem Grande e Rio Vermelho, Norte de Florianópolis.

 

Luiz Evangelista/ND
Ecovila natureza Maria Luiza
A presidente do conselho comunitário, Maria Luiza Varela

 

A visão ecológica é a base do estatuto que regulamenta o plano diretor elaborado em 1996 pela própria comunidade daimista, hoje formada por 25 famílias, 50 adultos e 30 crianças. O ordenamento da ocupação é percebido logo no primeiro passeio pelas trilhas estreitas que levam às instalações coletivas e moradias, construídas na encosta da montanha em meio a árvores nativas e jardins multicoloridos.

O plano diretor, atualizado constantemente, define o uso da APP (Área de Preservação Permanente) em 80 hectares entre os morros de Ratones, Vargem Grande e Rio Vermelho. Como a prioridade é a preservação da mata e da água cristalina que brota e escorre pelo corredor de pedras, a intenção é comprar 100 hectares vizinhos, na divisa com o Sertão do Rio Vermelho. E preservar a maior das três nascentes, que abastece a ecovila e vizinhança, e lá embaixo formam os rios Papaquara e da Palha.

“A água é para todos”, diz a professora de artes Maria Luiza Varela, 48 anos, escolhida recentemente presidenta do conselho comunitário. São sete conselheiros, entre jovens, adultos de meia idade e anciãos, que representam os 100 associados à ACEPSJ, moradores ou não da ecovila.

Autossuficiente, a ACEPSJ banca todas as necessidades da ecovila. Tudo é feito sem o poder público, desde a abertura de acessos e instalação de redes elétrica e de água, ao sistema de saneamento básico ecológico, à conservação dos espaços de convivência ou à coleta de lixo reciclável – o orgânico vira adubo. A manutenção rotineira é feita em mutirões semanais, aos sábados, e no momento a prioridade é investir na servidão das Gralhas, acesso secundário danificado pelas chuvas.

Animais silvestres nos jardins e casas sem cercas

Também modernizado periodicamente, o regimento interno disciplina a convivência dos moradores e a aquisição do título de cessão de direito de uso, que corresponde à escritura de posse. As casas não têm cercas e, portanto, é inviável criar animais domésticos, como cães e gatos. Outra regra seguida é manter as luzes externas apagadas para não espantar a fauna silvestre de hábitos noturnos.

As crianças, além das modernidades tecnológicas, têm a vantagem de brincar na rua em segurança, enquanto observam macacos-pregos, quatis, graxains, tatus e tamanduás-mirins. Da janela de casa elas podem ver também que aves como tucanos, aracuãs, gralhas azuis, gaviões-tesoura e gaturamos completam a dispersão natural da palmeira-juçara, de onde são extraídos o palmito e o fruto do açaí.

O convívio com a comunidade tradicional, segundo Maria Luiza, hoje é de total integração. “No início, éramos considerados estranhos, diziam que éramos ciganos e que vivíamos pelados. Hoje, nossos filhos frequentam a escola pública da Vargem e se relacionam normalmente com as demais crianças da vizinhança”, diz.

Hospedagem no meio da mata preservada

O aluguel de geodésicas, cabanas ecológicas no meio da mata, é uma das fontes de renda da Associação Comunitária Patriarcal São José. Trata-se da House Macacos, espécie de hostel, onde o visitante pode se hospedar durante os rituais espirituais e participar na OCA (Oficina de Cultura Ambiental) de vivências integradas à natureza, inclusive dos mutirões semanais.

Na caminhada pela trilha dos Olhos d’Água, o visitante conhece casa de saúde, horto de ervas medicinais, viveiro de mudas da mata atlântica, áreas de implantação de sistemas agroflorestais, laboratórios de tinturas e repelentes e fontes de água cristalina. O passeio segue até a casa do feitio, onde é produzido o ayahuasca, o vinho da alma, ou o chá do santo daime.

O processo começa ali mesmo na mata, onde são colhidos o cipó jagube (Banisteriopsis caapi), o princípio masculino, e folhas da chacrona (Psychotria viridis), a rainha, o lado feminino da mistura. Trazidas da Amazônia, as plantas do autoconhecimento se misturam a flores e cactos São Pedro e peyotes nos jardins da Ecovila Céu do Patriarca.

Depois de amassados em de pilões de madeira, os dois vegetais são fervidos em panelões sobre fornalha a lenha. Ao esfriar, o líquido é peneirado e armazenado numa espécie de adega, onde também são realizadas cerimônias fúnebres e guardadas as cinzas dos associados mortos e cremados.

Eclética, doutrina busca harmonia

Companheiro de Maria Luiza, Tupy Jara, 52, é exemplo do sincretismo religioso que envolve o santo daime. Descendente de índios guarani, nasceu em terreiro de umbanda e na infância teve o batismo recusado em uma das paróquias de Porto Alegre.  

“Passei algum tempo revoltado com os padres. Depois que tomei o daime, vi que igreja é algo bem mais amplo, que Deus está em tudo, na natureza, principalmente”, diz. Hoje, o design gráfico e publicitário estuda kardecismo e compartilha o chá com católicos, budistas, hinduístas ou espíritas.

“O daime é uma doutrina eclética”, resume Tupy, que diz ter testemunhado a cura de um amigo portador da aids e dependente químico após tratamento em Mapiá, na Amazônia. “A cura muitas vezes é o processo doloroso pelo qual passamos”, acrescenta Maria Luiza. O pai dela se livrou de 45 anos de alcoolismo em um ano de convivência na ecovila da Vargem Grande.

Os eventos religiosos na ecovila se repetem todos os domingos, com oração a partir das 18h. nos dias 15 e 30 de cada mês ocorrem trabalhos de concentração, enquanto no dia 27 é reservado à cura dos novos, que no primeiro encontro permanecem sentados entre cinco e seis horas.

A próxima etapa consiste na participação do hinário, ingestão do chá e as danças ritmadas por três bailados – dois prá lá, dois prá cá; valsa e mazurca. Antes, porém, os novatos passam por entrevista com questões básicas sobre a saúde física e mental, e assina ficha de cadastro, onde assume a responsabilidade por eventuais efeitos colaterais do daime.

A cura que veio da floresta

O santo daime foi criado na região amazônicanas primeiras décadas do século 20 pelo agricultor e seringueiro Raimundo Irineu Serra. Consiste em doutrina sem proselitismo com base no uso sacramental de uma bebida psicodélica, a ayahuasca. 

Autoconhecimento e internalização são meios de obter sabedoria e espiritualidade. Segundo seus adeptos, a doutrina do santo daime é uma missão espiritual cristã, que encaminha ao perdão e à regeneração do ser. Os rituais são marcados por música e muita dança e cantorias. Em transe, os seguidores dançam ao som de maracás, um instrumento indígena ancestral, com acompanhamento de ciolas, flautas, bongôs e atabaques.

Descendente de escravos, mestre Irineu teve a visão de um ser espiritual superior que lhe entregou a missão de difundir o daime, palavra surgida do oratório “santo, dai-me amor; dai-me sabedoria; dai-me harmonia...”

Serviço

ACEPSJ (Associação Comunitária Patriarcal São José) 

Atendimento: segunda a sexta, das14h às 18h; sábado, das 9h às 12h

Áreas de atuação

Desenvolvimento humano, educação ambiental, economia solidária, governança associativa, saúde

Oficinas

Permacultura, bioconstrução, vídeo, trilhas, sistema agroflorestal, arte educação, esportes

Valores

Igualdade, fraternidade, solidariedade, cooperação, multiculturalidade, responsabilidade socioambiental

Endereço: Servidões Nelson Leopoldo dos Santos e das Gralhas - estrada Cristóvão Machado de Campos, Vargem Grande

House macacos: R$ 35, pernoite e café da manhã

Fone: 48-3269-5514

www.acepsj.org.br

secretaria@acepsj.org.br

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