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Doentes e criminalizados, peregrinos urbanos se multiplicam em Florianópolis

Em abrigos oficiais ou nas praças, sob marquises, viadutos e pontes, não se sabe ao certo quantos homens e mulheres vagam sem rumo na cidade que finge que não vê

Edson Rosa
Florianópolis, Joinville
02/09/2016 às 04H23
Eduardo Valente/ND


Longe da batida do samba e das fantasias do Carnaval, a Passarela Nego Quirido é sombria. Embaixo das arquibancadas vazias, os camarotes de ostentação e glamour agora estão sem cor e, improvisados, servem para demoradas e nem sempre bem sucedidas entrevistas. Lá, psicólogos, assistentes e educadores sociais do CentroPop (Centro de Referência Especializado em População em Situação de Rua) ouvem histórias que se repetem, com protagonistas que se revezam mas se confundem apenas na aparência de zumbis - os peregrinos, como se autodenominam.

Não se sabe ao certo quantos são, e estima-se entre 250 e 350 homens e mulheres – na rua, elas são minoria. Sujos e maltrapilhos misturam-se alcoólatras, dependentes químicos, esquizofrênicos, bipolares crônicos, depressivos, desgarrados da família e trabalhadores desempregados. Nem todos vieram de longe, há aqueles que cometem pequenos delitos e praticamente todos são portadores de graves doenças infectocontagiosas - hepatites [com predominância do tipo C], tuberculose, sífilis, HIV/aids e viroses em geral. 

Em média, 170 pessoas passam todos os dia pelo CentroPop, mas apenas os 120 primeiros são cadastrados para banho, café da manhã, almoço, lanche vespertino, mas não há atendimento médico. Na fila, todos são revistados com detector de metais por dois agentes armados da Guarda Municipal, uma das raras ações práticas do comitê de técnicos das secretarias municipais de Saúde, Educação e Assistência Social para implantação do Programa Crack, É Possível Vencer, do governo federal.

São 30 profissionais entre área administrativa e o pessoal especializado no atendimento de ponta. Psicólogos, educadores e assistentes sociais se dividem em duas equipes, uma permanece na passarela do samba e outra exclusiva do Programa de Abordagem Social, na rua. O trabalhos integrado busca resgatar quem chegou recentemente ou aqueles que se afastaram do assistencialismo oficial do CentroPop.

A expectativa para o segundo semestre, segundo a diretora de proteção especial da Secretaria Municipal de Assistência Social, Kátia Abraham, 63, é substituir oficinas profissionalizantes por atividades que resgatem autoestima – música, teatro, barbearia e aulas de basquete. Outra ideia é aproveitar as mesinhas com tabuleiros para organização de torneio especial de xadrez entre moradores de rua e agentes da Guarda Municipal. “É uma forma de reduzir truculência e agressividade entre eles”, diz.

Drogas e doenças fora de controle 

A diretora de proteção especial da Secretaria Municipal de Assistência Social, Kátia Abraham, 63, que conhece como poucos a realidade fora dos gabinetes da prefeitura, não tem dúvidas: o alarmante número de doentes entre os moradores de rua em Florianópolis é problema de saúde pública.  A situação está fora de controle, com altas taxas de transtornos mentais, alcoolismo, dependência química e surtos localizados de doenças infectocontagiosas, principalmente tuberculose, hepatites, HIV/aids.

Transmitida por via aérea, a tuberculose se alastra em locais de grande aglomeração humana e, segundo Kátia, começa a ter proporções de epidemia em Florianópolis. A situação é alarmante, tanto que a Procuradoria Geral da República em Santa Catarina convocou as secretarias municipais de Assistência Social e da Saúde para apressar a adoção de planos emergenciais de enfrentamento da doença fora da rede hospitalar.

“A omissão da saúde pública agrava o quadro, que já é crítico. Infelizmente, as coisas não se resolvem assim, de uma hora para outra”, lamenta Kátia. O tratamento neste caso não é internação, mas ambulatorial ou em domicílio, o que exclui quem está em situação de vulnerabilidade na rua. “Estamos falando de pessoas debilitadas que dormem ao relento, no frio e na chuva, e estão cada mais vulneráveis a doenças respiratórias e pulmonares. E não contam com o atendimento básico”, emenda.

O tratamento médico é negado também a pacientes acolhidos nos programas e abrigos mantidos pela assistência social. “Temos assistentes, educadores sociais e psicólogos. Mas faltam médicos, técnicos em enfermagem e enfermeiros para este trabalho específico”, argumenta Kátia. A hepatite C é outra doença que se espalha com rapidez nas ruas de Florianópolis.

Situação parecida atinge portadores de transtornos mentais, drogados ou não. Depois do movimento antimanicomial e fechamento de hospitais psiquiátricos públicos, o tratamento específico passou a ser domiciliar. “Só que a casa destas pessoas é a rua ou, no máximo, os abrigos temporários aonde são encaminhados”, emenda a assistente social. 

Em sete meses, 45 indigentes mortos

Na rua, a morte também passa despercebida. Normalmente,  pacientes em estado terminal ou convulsões são atendidos pelo Samu (Serviço de Atendimento Médico de Urgência) e levados a hospitais da rede pública. Nem sempre sobrevivem, e as baixas apenas são registradas no IML/IGP (Instituto Médico Legal do Instituto Geral de Perícias).

Nos primeiros sete meses deste ano, 45 indigentes foram enterrados no Cemitério Municipal São Francisco de Assis, no Itacorubi. Vítima de atropelamento, um deles era conhecido apenas pelos apelidos – Alemão ou Gaúcho – e foi atingido por carro ao tentar atravessar a movimentada avenida Gustavo Richard fora da passarela de pedestres, praticamente na frente do CentroPop. 

Viciados em álcool e outras drogas, pessoas sem vínculo familiar, na maioria com transtornos psiquiátricos e psicológicos, os moradores de rua têm perfil agressividade. Atribulada entre eles mesmos, a convivência é difícil também para profissionais da assistência social, que, segundo Kátia Abraham. “É preciso ter dom especial para lidar com esta clientela”, avisa.

Kátia cita o exemplo de Olga M., que deixou a família em Porto Alegre/RS e há seis anos perambula nas ruas de Florianópolis. Cantora de boa voz, ela já foi convidada mais de uma vez a participar de show com produção do Centro Musical Wagner Segura, mas nunca aceitou.

“São pessoas que não querem ajuda, preferem dormir de dia e sair para a vida louca à noite”, explica Kátia Abraham. Segundo a assistente social, não basta higienizar a cidade, esconder ou dar passagem de volta aos peregrinos da cidade. “É uma população flutuante, com alta rotatividade. Trata-se de fenômeno nacional e mundial, um problema da sociedade toda, não só do poder público”, completa.

Delírio e realidade se confundem 

A bandeira esfarrapada presa à mochila é a brasileira, mas o patrimônio vigiado pertence ao reino da Inglaterra. Jorge Benedito da Silva, o Capitão, não se lembra - ou prefere esconder - a idade atual, de onde veio e quanto tempo caminha sem rumo, mas, entre um delírio e outro, é um dos poucos que sabe ler e conhece a Constituição Federal. Talvez por isso exerça alguma liderança entre os homens que todas as noites pernoitam sob a marquise do prédio da superintendência da Previdência Social, na rua Arcipreste Paiva.

“Fui designado pela Justiça para tomar conta do quarteirão desde que os malandros da Moeda Verde tentaram invadir a cidade. É território da rainha Elizabeth”, repete com ar de seriedade. Aos poucos, o espaço sob a marquise é ocupado por outros peregrinos maltrapilhos com seus papelões e cobertores amarrotados.

Dependente químico e portador de hepatite C, Pedro, 45, prefere a marquise do edifício das Diretorias, na esquina das ruas Tenente Silveira e Deodoro, onde funcionam órgãos da administração do Estado. Enquanto forra o piso molhado da calçada, diz que desistiu do atendimento no CentroPop por causa da burocracia e da falta de infraestrutura. “A fila é grande e tem apenas um chuveiro funcionando, o banheiro é um ninho de bactérias e doenças. E a comida que ganhamos na rua é melhor do que a que servem lá”.

Na mesma esquina, Emídio José de Souza, 51, reconstrói o sonho. Quando o ritmo da cidade cede à aparente calmaria da noite, placas de papelão recolhidas no lixo ganham a forma de casa.

Emídio ainda se lembra de Ratones, de onde saiu aos 19 anos depois de incêndio que destruiu o engenho de farinha da família. “Meus pais tinham dinheiro e me mandaram para São Paulo. Depois, não os reencontrei mais e vim parar na rua”, diz.

A família dele hoje é que está na rua, poucos deles com rumo na vida. Como o jovem Eduardo, 26, de Chapecó, que faz ensino fundamental no EJA (Educação de Jovens e Adultos) e tem um sonho: fazer curso superior em gastronomia.

Solidariedade independe de religião

Um dos mais antigos abrigos de andarilhos do Centro de Florianópolis, a marquise do INSS é um dos pontos da passagem obrigatória dos voluntários que se revezam na distribuição de comida, roupas e palavras de conforto, quase sempre ligadas à evangelização. Por lá passam grupos como o formado pela professora e ajudante de cozinha Márcia Goulart, 44, e os primos Leomir, 55, Juliana Martins, 18, e Elton Willims, 35, que também circulam as praças 15 e Fernando Machado.

Todas as segundas-feiras, às 20h30, eles servem 30 litros de sopa de feijão, macarrão e arroz, 30 pães e oito litros de café. “Sempre falta”, diz Márcia, que usou o Whatsapp para juntar parentes e amigos do bairro Carianos na corrente de solidariedade.

A mesma solidariedade mobiliza também ás segundas-feiras  grupo de jovens e pastores da Igreja Adventista do Sétimo Dia. São entregues de 140 a 170 marmitas por noite, com cardápio variado, roupas, remédios e “carinho”, como resume a aposentada Valdecir Palma, 62, que na última visita recebeu em troca uma flor, feita com papel e arame em menos de um minuto pelo sergipano Adriano Conceição, 24, que procura emprego. “Estamos convidando a todos para um café da manhã coletivo, seguido de celebração, no próximo dia 13, na praça 15”, completa o pastor Cabilde Manole Palma, 62.

Impressões digitais para localizar desaparecidos 

Localizar e identificar pessoas perdidas nas ruas é mais ou menos como o dito popular: procurar agulha no palheiro. Mais difícil ainda é convencê-las a voltar para casa. A reação quase sempre arredia diante da abordagem, a falta de documentos, o apego a drogas e os transtornos psiquiátricas são complicadores no dia a dia das agentes da Delegacia de Proteção às Pessoas Desaparecidas, da Polícia Civil.

“Às vezes, também pagamos a passagem de volta. Nem sempre dá para esperar a burocracia”, explica a agente Márcia Hendges, 44. Desde o início deste ano, foram sete operações nas ruas centrais, albergues e no CentroPop. “É preciso ficar claro que sair de casa e perambular não é crime”, ressalta a policial.

A rotatividade é grande, diz Márcia. De 44 pessoas cadastradas na semana passada, 42 eram novatos nas ruas da cidade, e nenhum deles portava documentos. São gaúchos, paulistas, mineiros, paranaenses, mas também tem  gente  da Espanha, do Peru, do Uruguai, africanos e haitianos.

Apesar da resistência natural, os policiais tentam ganhar a confiança de quem é abordado. “Explicamos a importância do cadastramento e identificação de quem em situação de autoflagelo na rua. Mostramos que sofrem mãe, pai, irmãos e familiares próximos.”

A identificação é o primeiro passo para a localização e, dependendo da vontade de quem está na rua, providenciar o retorno ao ambiente familiar. Para ajudar, técnicos em papiloscopia do IML/IGP (Instituto Médico Legal do Instituto Geral de Perícias) coletam impressões digitais para inclusão no Cadastro Nacional da Segurança Pública. 

Perfil

Quem está na rua 

Viciado: dependente químico - alcoolista

Drogas mais comuns: álcool, crack, maconha, cocaína 

Doentes mentais-  distúrbios psiquiátricos e psicológicos

Casos mais comuns: Esquizofrenia, bipolaridade severa, depressão crônica, mal de Alzheimer=

Rompimento familiar - social

Situações mais comuns: Desilusão amorosa, desavenças entre pais e filhos, desemprego, uso de drogas. 


Rede de atendimento

Assistência social 

CentroPop: avenida Gustavo Richard, Passarela do Samba Nego Quirido, Centro.

Vagas: de 100 a 120 homens e mulheres.

Serviço: atendimento psicossocial, das 8h às 17h, para café da manhã, almoço, lanche da tarde e oficinas.

Casa de Acolhimento: rua General Bittencourt, 587, Centro.

Vagas: 30 homens.

Serviço: atendimento sem prazo definido para acompanhamento psicossocial, com encaminhamento para capacitação profissional inserção no mercado de trabalho e reintegração social.

Albergue Municipal: rua General Bittencourt, 587, Centro.

Vagas: 50 homens.

Serviço: das 19h às 7h, para banho, janta e pernoite.

Casa de Apoio Social ao Morador de Rua: rua Dona Vicentina Goulart, 186, Jardim Atlântico.

Vagas: 30 homens

Serviço: atendimento  ininterrupto, com higiene, alimentação e acolhimento de adultos em situação de fragilidade social e debilidade física e mental.

Casa de Passagem para Mulheres Vítimas de Violência Doméstica e em Situação de rua: avenida Albert  Sabin, Agronômica.

Vagas: 25 mulheres, com filhos pequenos.

Serviço: proteção psicossocial durante situação de risco.

Casa de Acolhimento a Mulheres Vítimas de Violência e em Situação de Rua: avenida Albert  Sabin, Agronômica.

Vagas: 25 mulheres.

Serviço: proteção psicossocial ininterrupta.

Centro de Convivência do Movimento dos Moradores de Rua: rua Nestor Passos, Morro do Mont Serrat, Centro.

Vagas: 14 homens e mulheres

Serviço: cursos de alfabetização, jardinagem e gastronomia e inserção no mercado de trabalho.

Casa de Apoio Engenho de Deus - Ação Social e Cultural Nossa Senhora da Lapa: rod SC 405, 1.685, Rio Tavares, 1685

Vagas: 15 honens

Serviço: atendimento psicossocial e acolhimento e adultos em situação de rua.

Fonte: Secretaria Municipal de Assistência Social

 

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