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Dia das Bruxas: será que as feiticeiras da Ilha de Santa Catarina estão desmoralizadas?

Em tempos de bruxos em best-sellers, basta sair pelas vilas e balneários de Floripa para ter certeza que elas não deixaram de frequentar o imaginário popular

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
28/10/2016 às 20H36

Quando abriu a janela de casa e viu passar uma bruxa de Halloween, o multiartista Valdir Agostinho deu um suspiro de desolação. Ele que ouviu dos pais histórias de maldades perpetradas por aquelas a quem Franklin Cascaes (1908-1983) chamava, na voz de seus personagens, de “canaia desavergonhadado demonho”, foi obrigado a engolir essa impostura trazida de outro hemisfério para o litoral catarinense. Nesses tempos pródigos em bruxos de best-seller, em mulheres de Salém voltando às telas em nova versão, de predomínio da indústria do entretenimento sobre as culturas regionais, as bruxas daqui precisam admitir: estão desmoralizadas!

ueli Adriana dos Santos, Adriana dos Santos Bittencourt, Normeci Adriana Bittencourt - Joyce Reinert/ND
Sueli, Adriana e Normeci não duvidam da existência das bruxas - Joyce Reinert/ND



Desmoralizadas, sim, mas não mortas ou entregues ao total ostracismo. Porque, além dos relatos de Cascaes, basta sair pelas vilas e balneários para perceber que as bruxas não deixaram de frequentar o imaginário popular. Se elas estão escondidas, porque é de sua natureza, não faltam os antídotos das benzedeiraspara desfazer as malinagens que ainda realizam, de acordo com a crença vigente, em forma de maledicências, fofocas, maus trabalhos de todo tipo.Elas não têm nariz adunco, vassoura e riso estridente, nem galopam no meio da noite, mas continuam na ativa, urbanas e com rede de amigos no WhatsApp.

Se as descrições variam de acordo com a imaginação de cada um, também há controvérsias sobre a veracidade dos contos e a gênese das convicções em torno da atividade bruxólica nas regiões onde os imigrantes açorianos se estabeleceram a partir de meados do século 18. O famoso enunciado em língua espanhola que diz “no creo en brujas, pero que las hai, las hai” é uma síntese irônica e cruel da dicotomia e da complexidade do tema. O museólogo Gelcy Coelho, o Peninha, é um discípulo de Cascaes, mas desconstrói parte dos mitos em voga. E diz, por exemplo, que as crianças não eram raquíticas porque tinham o sangue chupado pelas bruxas, mas porque faltava higiene nos hábitos e no dia a dia dos antigos manés.

Reza antiga contra bruxarias

“Treze raio tem o Sóli, treze raio tem a Lua,

sarta diabo pro inferno, qu’esta alma não é tua.

Tosca marosca, rabo de rosca,

vassoura na tua mão, reio na tua bunda e aguiião nos teus pé.

Por riba do silvado e por baixo do teiado!

São Pedro, São Paulo e São Fontista

por riba da casa, São João Batista.

Bruxa tatarabruxa, tu não me entres nesta casa

nem nesta comarca toda,

por todos os santos dos santos.

Amém!”

 

“As bruxas fazem parte da literatura oral, e tudo o que não tinha lógica, que parecia sobrenatural, era explicado assim, nos Açores e aqui”, decreta Peninha, que também atribui às mães preocupadas emcontrolar a peraltice dos pequenos a engenhosa criação de histórias de terror em torno das bruxarias. Nos tempos antigos, sem luz elétrica e com o medo do imponderável, cavalos relinchando na madrugada ou o mato se agitando por causa do ventoengendravam a convicçãode que as bruxas andavam por perto, aprontando das suas, em conluio com o diabo, seu líder e inspirador supremo.

Reuniões orgíacas, ataques, metamorfoses

O livro “O fantástico na Ilha de Santa Catarina” (EdUFSC) é uma impressionante viagem conduzida pela pena de Franklin Cascaes, misto de pesquisador e artista com grande capacidade de documentar as expressões da cultura nativa. Ele não emitia juízos de valor, mas agradecia, no final de cada conto, o legado que teve a oportunidade de captar em empreitadas que fazia pelas comunidades do interior. Eram o linguajar matuto, os hábitos enraizados e imutáveis, a reverência ao transcendental, o temor que veio dos Açores castigados por cataclismos e se adaptou à nova terra, igualmente inóspita, embora bela e fértil.

Incapazes de lere de se livrar das crendices ancestrais, esses ilhéus e seus vizinhos do continente soam, hoje, como seres de outro mundo – um mundo de causos, rezas, novenas, cantorias, heranças medievais e, claro, embruxamentos. Os 12 contos do livro, escritos entre 1946 e 1973, relatam histórias de bruxas que faziam reuniões orgíacas e barulhentas, atacavam animais nos pastos, se enfurnavam em tarrafas de pescadores, roubavam baleeiras para navegar pelos mares do mundo, desgraçavam a saúde de recém-nascidos (não raro seus próprios parentes) e davam conta ao diabo de suas estripulias.

Num dos textos, o pescador Custódio Damião saiu do Matadeiro, na companhia de quatro camaradas, para matar peixes na Lagoinha do Leste. Lá chegando, um deles se pôs a falar mal das bruxas, por desconfiar que elas eram responsáveis pela morte dos filhos que teve com uma certa Venança da Crispina. Em pouco tempo, pedras começaram a cair do costão e o mar se escrespou. Custódio repreendeu o amigo, mas não adiantou: a canoa foi arrastada e a lamparina e o leme se metamorfosearam em um concílio de bruxas que só se desfez com a “oração das treze verdades” rezada por um dos pescadores.

No final, os homens perceberam que as mulheres, já então desmascaradas, eram da comunidade onde viviam – porque as bruxas são sempre anônimas e perdem o poder quando descobertas. No final do livro, para facilitar a vida dos leitores, a editora providenciou um glossário com mais de 100 termos usados pelos nativos, em sua linguagem peculiar – como amiudar, bandaio, bispar, candonguero, catrefa, enxúndia, esguelhudo, farromero, gervão, mandraca, marosca, misura, palamenta, peteleca, pindongar, pudê, quiméria, quizila, riba, sabujo, santarrar, selenita, sumanta, tureba e zarolho.

Banhos e orações para salvar crianças

Seja no Pântano do Sul, seja no Sambaqui ou na Barra da Lagoa, o tema bruxaria suscita uma mescla de fascínio e temor. Deve ser, como alerta o museólogo Gelcy Coelho, porque falar de bruxas equivale a atraí-las, o que não é um bomnegócio. Na Barra, a benzedeira Sueli Adriana dos Santos perdeu a conta das pessoas que livrou de problemas de saúde, ataques e maus olhados. Crianças doentes eram lavadas com banhos de alecrim, arruda, guiné e sabugueira. Com poder mediúnico, ela também frequenta centros espíritas e se diz evangélica, mas acima de tudo trabalha pelo bem alheio.

Nem ela, nem a irmã Normeci, nem a mãe Adriana, que fez 88 anos nesta sexta-feira, duvidam da existência das bruxas, porque são muitas histórias no ar, porém preferem acreditar no outro extremo, que são as bênçãos, as orações, os preceitos do kardecismo. Isso não impede que Normeci, que viveu ali até os 17 anos, se lembre da outra benzedeira famosa, conhecida no lugar como Dona Cotinha, que salvou uma de suas irmãs partindo um pinto do galinheiro ao meio e colocando cada uma das partes no sapato da doente – que horas depois acordou disposta, bela e formosa.

Crianças embruxadas, casos de arca caída, peixes que insistem em não vir, redes embrulhadas – tudo o que era anormal, inexplicável, entravam na conta das bruxarias. E até mulheres que apareciam na casa deste ou daquele vizinho perguntando pela saúde do filho eram desmascaradas: se tem interesse em saber, é o autor da bruxaria.

Ainda na Barra, uma nativa chamada Orádia Nunes resiste, mas abre o jogo e conta de um gato que a seguiu da Praia Mole até em casa, numa noite de breu, mesmo sendo permanentemente enxotado. Os olhos brilhantes do bichano vindo pela trilha, perto da meia-noite, não saíram de sua cabeça. Isso, contudo, não abala seu ceticismo com os temas do sobrenatural, atribuindo tudo a “visagens” e à “má impressão do povo”. Pragmática,ela acredita mais no trabalho. “Sempre carreguei peso, escalei muito peixe, fiz renda e redes de pesca, e nunca fui incomodada por ninguém”, conclui.

Cidade está embruxada, diz Peninha

A convicção de Gelcy Coelho, o Peninha, é inabalável. Ele atribui à educação repressora, à ignorância generalizada e à inveja que a beleza de algumas moças suscitava em outras a construção de um arcabouço que sustenta o universo da bruxaria. Cavalos eram atacados por morcegos, e não por bruxas, e as crianças adoeciam porque usavam chupetas sujas e contaminadas. O que Cascaes coletou é do imaginário, das crendices, da tentativa de explicar o que não tinha sentido prático. A igreja católica, com sua condenação às magias e aos costumes profanos,ajudou a esmorecer as tradições, mas isso custou caro, porque os fiéis se bandearam para outras religiões.

Hoje, quem está embruxada é a cidade de Florianópolis, na opinião do museólogo, porque adotou o nome de “um criminoso”, que é como qualifica Floriano Peixoto. Ou seja, enquanto mantiver esse nome, nada dará certo na Ilha. E os homens bruxos? “Esses são mais perigosos e estão no poder, nos parlamentos, e não gostam da educação”, dispara Peninha.

Para outro ícone da cultura popular, Valdir Agostinho, as bruxas podem se travestir de benzedeiras, parteiras e cartomantes, e por isso estão no meio do povo – o que não impedeque, à noite, abusem de sua condição. Mas as histórias que ouvia em roda, com a família reunida, pertencem ao passado. “Hoje, não temos mais essa coisa bonita, espirituosa, e o que predomina são os prédios envidraçados, o luxo, os modismos”, afirma.

Passeio noturno pelos pontos bruxólicos

Para marcar o Dia das Bruxas, mas à moda ilhoa, a empresa Floripa by Bus vai realizar neste sábado, a partir das 18h30, um passeio pelos pontos bruxólicos citados por Franklin Cascaes, incluindo a praça 15 de Novembro e o bairro Itaguaçu, na parte continental da cidade. “A ideia surgiu para se contrapor ao Halloween”, diz a proprietária, Rosana Munhoz.

Para ela, os próprios moradores conhecem pouco determinadas áreas da Capital, e o passeio pode permitir descobertas interessantes. Mais informações sobre o passeio podem ser obtidas pelo telefone 9924-8636 ou na página do Floripa by Bus no Facebook.

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