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Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2018
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Desgastadas e apagadas, faixas de trânsito da Capital colocam pedestres em risco

Das 2.000 faixas que precisam de manutenção em Florianópolis, apenas 286 foram pintadas no final do ano passado

Leonardo Thomé
Florianópolis
Daniel Queiroz/ND
Faixa apagada em frente ao Terminal do Rio Tavares, na SC-405

 

Faixas de segurança, como o próprio nome diz, são sinalizações fundamentais para garantir que o pedestre atravesse a rua em segurança. Deveriam servir como “ilhas” de proteção ao lado mais frágil do trânsito. A realidade em Florianópolis, entretanto, é oposta.

Em diferentes regiões da Capital, cruzar pelas listras (quando existem) da faixa não significa estar seguro. Pedestres ficam vulneráveis. Vulnerabilidade calcada no desrespeito de motoristas, na falta de manutenção das faixas e da quase “inexistência” de muitas delas.

Ciente da dificuldade de se fazer cumprir as normas do Código de Trânsito Brasileiro, que dispõe, no artigo 71, que “o órgão ou a entidade com circunscrição sobre a via deve manter, obrigatoriamente, faixas e passagens de pedestres em boas condições de visibilidade, higiene, segurança e sinalização”, o Notícias do Dia circulou pela Capital para conferir a situação das sinalizações horizontais.

A situação é crítica, especialmente em alguns pontos do Centro, Córrego Grande, Rio Vermelho e em Ingleses. Nessas regiões, a população clama pela demarcação correta das faixas. Além da insegurança, muitos têm que conviver com o trauma de presenciar acidentes, muitas vezes em frente a escolas, como Maria Roseli de Castro, 52 anos. “Fui atravessar a rua pela faixa de pedestres, com meu filho, para ele ir à escola. Íamos tranquilos, quando o primeiro carro parou. O problema é que o de trás não viu e bateu. Aconteceu um engavetamento com quatro carros, foi horrível”, relatou Maria, em frente à Escola Municipal Luiz Cândido da Luz, na SC-403, em Ingleses. “Meu menino de sete anos ficou assustado”, completou.

Diretor de Trânsito do Ipuf (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis), órgão responsável por manter e conservar as faixas de pedestres na Capital, Adriano Melo reconhece a dificuldade em atender todos os pedidos de reforço na pintura das faixas. Os motivos, explicou, são o pequeno efetivo para cuidar da manutenção – cinco pessoas -, as condições climáticas e o trânsito intenso durante o dia, o que obriga o trabalho ser feito à noite.

Ilma não esperou pela prefeitura

Há pouco mais de 20 dias, cansada de esperar pelo poder público na manutenção de uma faixa de pedestres em frente à sua casa, Ilma Maria Marcos, 76 anos, moradora da rua Capitão Romualdo de Barros, na Carvoeira, decidiu pintar a faixa. Em companhia de uma amiga, Ilma fez por conta e risco o que é dever da Prefeitura da Capital: cuidar das faixas.

O Notícias do Dia contou com exclusividade a história de Ilma no dia 18 de março, uma terça-feira, três dias depois que ela, que já foi atropelada em cima da faixa de pedestres, ter feito o serviço do poder público. “Ligamos para a prefeitura e eles disseram que só poderiam vir aqui pintar depois da Copa do Mundo (em julho), então decidimos fazer nós mesmas”, contou Ilma. Após a publicação da reportagem, funcionários da prefeitura terminaram o trabalho começado por Ilma.

Ipuf prioriza locais mais movimentados

Adriano Melo, diretor de trânsito do Ipuf, explicou que a prioridade do órgão são escolas e locais com fluxo intenso de pessoas. Após isso, garante, o trabalho se volta à precariedade das faixas, do Centro em direção aos bairros.

Segundo Melo, de 2.000 faixas que precisavam de manutenção, 286 foram pintadas ainda no final do ano passado. “Estamos levantando o total de faixas na cidade, mas em situação precária foram essas 2.000 que calculamos”, afirmou.

Cada faixa de pedestres pintada pelo Ipuf, conforme Melo, deve durar de três a quatro anos. Não existe distância pré-determinada entre elas. O diretor informou que na noite de ontem diversas ruas do Centro ganhariam reforço nas faixas de pedestres. Após isso, a prioridade do Ipuf se voltará para Ingleses, Rio Vermelho e Córrego Grande. “São regiões que receberão nossa total atenção nos próximos meses”, afirmou.

Rodovias estaduais

Nas rodovias estaduais, de responsabilidade do Deinfra (Departamento de Infraestrutura), obras e projetos de reurbanização fazem com que ninguém assuma ser responsável por manter as faixas de segurança. Superintendente regional do Deinfra, Cleo Quaresma afirmou que na SC-403, no perímetro da rodovia que está sendo duplicado, a construtora Espaço Aberto é que deve manter e conservar as faixas. “Todo trabalho de limpeza, manutenção e conservação da 403 é com a Espaço Aberto”, afirmou.

Diretor técnico da Espaço Aberto, Reinaldo Damaceno disse desconhecer o problema nas faixas de pedestres da SC-403, mas relativizou dizendo que ali será construída uma passarela. Quando questionado se as crianças terão que esperar a passarela ficar pronta para chegarem à escola em segurança, Damaceno prometeu verificar a situação.

Sobre a SC-405, Quaresma disse que o projeto de revitalização, que inclui a construção de ciclovias, ficou a cargo da Secretaria de Estado de Infraestrutura. “Assim, as faixas de segurança também são responsabilidade da Infraestrutura”, disse. A reportagem tentou confirmar a versão de Quaresma, mas ninguém da secretaria se dispôs a falar sobre o assunto.

Córrego Grande

Principal rua do bairro, a João Pio Duarte Silva passa em frente à UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), escola, posto de saúde e supermercado, tem em dois quilômetros de extensão 19 faixas de pedestres. Mesmo assim, atravessá-la não é fácil, pois a maioria das faixas está com a pintura desgastada e algumas têm apenas uma listra demarcada. “As faixas são péssimas. Moro no Jardim Itália, sou pedestre e motorista, mas falta maior cuidado com as faixas, é preciso que estejam sempre bem pintadas”, cobrou a aposentada Marly Mira, 78.

Centro

No cruzamento da rua Doutor Armínio Tavares com a avenida Rio Branco, numa região movimentada do Centro, ao lado do Hemosc (Centro de Hematologia e Hemoterapia de Santa Catarina), duas faixas de pedestres só são reconhecidas pelos restos de tinta branca. Quem trabalha e frequenta o Hemosc reclama: “Aqui já teve vários acidentes, principalmente porque a faixa apagada fica numa ladeira. O pior é que já ligamos pra prefeitura e ninguém fez nada”, disse o vigilante Fábio Prestes, 33, que da guarita do Hemosc já presenciou de tudo. “Já vi atropelamento, mas batidas traseiras são mais frequentes”.

SC-405, Sul da Ilha

Faixas de segurança mal demarcadas e outras desativadas que ainda estão pintadas são a tônica da SC-405, no Sul da Ilha. Nos comércios às margens da rodovia, as pessoas comentam sobre o fato de que as faixas desativadas estão com melhor pintura do que as “oficiais”. “Nessas desativadas, as pessoas atravessam porque está pintada. E é perigoso, já que nem todos os carros param”, afirmou a comerciante Maria Aparecida, 55. Em frente ao terminal do Rio Tavares, a faixa de pedestre que leva aos ônibus está com a pintura desgastada. “Há meses a pintura está fraca”, revelou Daniela Martins.

Rio Vermelho

Uma das principais vias do Rio Vermelho, a Servidão dos Vieiras, tem quatro faixas de pedestres em que apenas metade do cruzamento está pintada. A outra metade é asfalto sem tinta. Por lá, relatam moradores e comerciantes, as passagens entre um lado e outro da rua estão apagadas há mais de um ano. Atendente num restaurante, Francine Bastos, 19, calcula que toda semana a faixa de segurança em frente ao seu emprego é palco de freadas bruscas que assustam pedestres e clientes. “A gente liga para a prefeitura, para o Ipuf, para todo mundo e ninguém faz nada”, contou.

SC-403, Norte da Ilha

Num trecho de menos de um quilômetro tem três faixas em péssimo estado de conservação. A pior delas é a que deveria estar melhor, pois fica em frente à Escola Municipal Luiz Cândido da Luz. Centenas de crianças atravessam a faixa para estudar. Ao lado, fica o canteiro de obras da empresa Espaço Aberto, responsável por duplicar a rodovia e também por cuidar das faixas de segurança no perímetro da obra. Um funcionário da construtora teve uma filha atropelada perto da escola. “Por sorte a moto vinha devagar. Foram só alguns esfolados”, disse o operário Robson Alves, 31.

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