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Depois do recomeço: os efeitos da onda migratória em Santa Catarina

Estado foi o que mais empregou e o que mais demitiu mão de obra estrangeira em 2016; governo do Estado promete inaugurar casa de apoio em fevereiro

Fábio Bispo
Florianópolis
22/01/2018 às 07H44

A fronteira –física e social—ficou para trás. A cor da pele e a crença religiosa podem não ser as mesmas, assim como não é a cultura, a língua e os hábitos. É na diferença que o migrante se torna um igual. Seja no estilo próprio de preparar o café ou no esforço para conseguir fazer o salário durar um mês inteiro a muitos mil quilômetros do familiar mais próximo. Desde 2010, quando teve início a mais recente onda migratória, o número de estrangeiros que escolheu o Brasil para tentar uma nova vida chegou a 437.134, segundo relatório anual de inserção dos imigrantes no mercado de trabalho brasileiro OBMIgra (Observatório das Migrações Internacionais), publicado em dezembro de 2017.

Amigos de infância, os haitianos Rock Mathieu Daniel  (à esq.) e Adonay Pachoute trabalham duro visando estudar, sonho que realizam no próximo mês - Marco Santiago/ND
Amigos de infância, os haitianos Rock Mathieu Daniel (à esq.) e Adonay Pachoute trabalham duro visando estudar, sonho que realizam no próximo mês - Marco Santiago/ND



Aqui, encontraram refúgio, trabalho, amigos. É verdade também que o fluxo de entrada tem diminuído e em 2016% foi 23% menor que no auge do movimento, em 2014, quando 122 mil pessoas chegaram ao país. Os dados do relatório foram reunidos através do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) e da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais). Se somados a este volume os refugiados, que são registrados pelo Ministério da Justiça, os com visto temporário, os fronteiriços e os não informados, estima-se que mais de um milhão de estrangeiros vivam no país atualmente.

E mesmo já tenhamos atravessado diversas ondas migratórias –como a dos suíços-alemães no século 19, ou a dos italianos e espanhóis no século 20, entre tantas outras nacionalidades que já aportaram aqui— ainda há tabus que insistem em se manifestar em forma de preconceitos, negligências ou indiferença. “Quando chegamos em Roraima, em 2016, foi bastante difícil. Sentíamos que muitas pessoas não viam os venezuelanos bem, tinham preconceito mesmo”, confidenciou Júlio Marcano, que vive em Florianópolis.

A falta de políticas públicas para diminuir situações como a barreira do idioma e a obtenção de documentos, por exemplo, só agrava a lista de questões a serem tratadas quando o assunto é migração.

Santa Catarina, por exemplo, está entre os estados que mais contrata mão de obra estrangeira, mas desde 2016 enfrenta dificuldades burocráticas para colocar em funcionamento o CRAI (Centro de Referência e Atendimento a Imigrantes e refugiados), trabalho que acaba sendo em boa parte feito pela Pastoral do Migrante, ligada a Igreja Católica, e por grupos independentes, como o Gairf (Grupo de Apoio a Imigrantes e Refugiados em Florianópolis).

Haitianos são maioria

O impulso inicial da atual onda migratória teve início nos reflexos do terremoto que devastou o Haiti em 2010. Pelo menos 260 mil pessoas morreram e cerca de 1,6 milhão ficou desabrigada. O país foi devastado. No mesmo ano, os primeiros refugiados humanitários chegaram ao Equador e na sequência traçaram a rota que teve como entrada as cidades de Assis Brasil e Brasiléia, no Acre. Desde então, mais de 80 mil haitianos refizeram o trajeto.

“Nunca imaginei que cinco anos passariam tão rápido. Desde que cheguei ao Brasil muita coisa mudou na minha vida, mas eu espero que muita coisa ainda aconteça”, conta Adonay Pachoute, 24, que no próximo 25 de janeiro completa cinco anos de Brasil. Pachoute vive com os amigos de infância Rock Mathieu Daniel, de 23 anos, e Pedro Baptiste, 23, que vieram um ano depois dele chegar no Acre e ser trazido para trabalhar na construção civil em Palhoça. Os três nasceram e cresceram em Ouanaminthe, cidade na fronteira com a República Dominicana.

No Brasil estabeleceram uma espécie de pacto, moram sempre juntos e tentam se ajudar em tudo. Quando um fica desempregado, os outros dividem as contas. Primeiro moraram em Santo Amaro da Imperatriz, na Grande Florianópolis, época em que trabalhavam em Palhoça. Hoje, vivem em Capoeiras, e dois deles, Rock e Pachoute, trabalham em um hotel na praia de Canasvieiras. Pedro trabalha em um supermercado no Kobrasol, São José.

“No verão, para conseguir um dinheiro a mais nós saímos de casa às 6h da manhã e chegamos só perto da meia noite. Porque nós temos um objetivo aqui que é estudar”, conta Rock, que ainda sonha ingressar no curso de direito.

No próximo mês, depois de quatro anos para conseguirem arrecadar toda a documentação necessária, autorização de residência no país, pagarem cópias juramentadas dos diplomas emitidos pela escola no Haiti e terem orçamento disponível, vão iniciar os estudos em uma faculdade privada de administração.

Desenvolveram métodos próprios para estudarem em casa e chegaram a tentar o vestibular da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), mas a falta de experiência com o modelo da prova atrapalhou. “Poderia existir um curso da prova para os estrangeiros”. Parece simples, mas não sabiam que a reposta de cada questão seria a somatória das respostas no caso das respostas de múltipla escolha.

Casal Júlio Marcano e Dariannys Jimenez chegou há dois meses na Capital e vê oportunidades de trabalho - Fábio Bispo/ND
Casal Júlio Marcano e Dariannys Jimenez chegou há dois meses na Capital e vê oportunidades de trabalho - Fábio Bispo/ND



Venezuelanos são a bola da vez

Enquanto a maioria dos povos sofreu mais com demissões do que com contratações, certas nacionalidades têm apresentado movimento oposto, como angolanos, que passaram de 779 trabalhadores, em 2015, para 1.370, em 2016; senegaleses, de 488 para 845; e ainda os venezuelanos, que saltaram de 862 empregados em 2015 para 1.270 no ano seguinte. Estas três nacionalidades estavam alocadas principalmente nas áreas de produção de bens e serviços industriais e como vendedores do comércio em lojas e mercados. Há ainda os paraguaios, peruanos e chineses que apresentaram uma variação positiva de 3%, 1,7%, 1,5%, respectivamente.

É o caso do casal Júlio Marcano, 28, e Dariannys Jimenez, 27. Eles chegaram há dois anos em Roraima (AP), mas há dois meses fixaram residência em Florianópolis onde dizem que as oportunidades são melhores. Em poucos dias na cidade ambos já estavam empregados. Ele em um hotel, nas imediações da UFSC e ela em uma padaria.

“Eu trabalhei desde os 18 anos como chefe de cozinha e aqui em Florianópolis acho que tenho mais chances de encontrar alguma coisa na minha área”, conta Júlio. A vinda para o Brasil foi motivada por diversos fatores e entre eles o casal destaca a crise econômica. “Os nossos salários já não eram suficientes nem para a alimentação. O que as pessoas veem ocorrendo em Caracas há um ou dois anos já estava grave no interior muito mais tempo”, emenda Júlio.

Em breve o casal, que vive em uma pensão, pretende testar os dotes culinários no que chamam de bistrô clandestino. “A ideia é fazer jantares particulares para juntar amigos que queiram provar um pouco da nossa cozinha”, conta. Filho de pescador, ele ainda aguarda a oportunidade para arriscar um prato local. “Minha especialidade é a cozinha contemporânea, mais livre, isso nos permite certa liberdade em qualquer lugar que estivermos”.

SC tem o maior número de contratações e demissões

Em relação aos demais estados, desde 2010, Santa Catarina é o Estado que mais contratou estrangeiros no país. Em 2015 foram 12,5 mil admitidos e no ano seguinte cerca de 8.000 conseguiram emprego. São Paulo, por exemplo, contratou 8.900 em 2015 e 7.000 em 2016.

No entanto, em 2016 o saldo entre contratações e demissões em Santa Catarina apresentou déficit de mais de 10 mil estrangeiros. O movimento foi o mesmo do restante do país, que também foram impactados pela crise de desemprego do país. Apesar das contratações de estrangeiros chegarem a casa dos 39 mil em 2016, o número de demissões passou dos 50 mil.

O ano de 2017, que teve apenas os dados do primeiro semestre divulgados, apresentou ligeiro crescimento no período, quando foram registradas 22.234 admissões contra 17.530 demissões, com um saldo de 4.704 estrangeiros empregados.

Santa Catarina foi que mais demitiu no Brasil, dispensando 10.365 migrantes em 2016, ficando comum saldo negativo 2.181. No Paraná, que contratou menos que SC, o déficit foi ainda maior e entre mais de dez mil contratações e 2016 o saldo negativo com as demissões chega a 2.300 estrangeiros.

Os principais postos de trabalho no Estado estavam ligados à indústria frigorífica, construção civil, e agora, nos serviços.

Em todo o país, em 2016, os haitianos foram os que mais ficaram desempregados, ficando com um déficit de mais de 7 .000 entre admissões (18.742) e demissões (26.466).

Sírio Maher Dib trabalha em um restaurante em São José. Para ele, o Brasil é um bom país para se viver - Marco Santiago/ND
Sírio Maher Dib trabalha em um restaurante em São José. Para ele, o Brasil é um bom país para se viver - Marco Santiago/ND



Árabes tropeçam na língua

Alvos de um conflito iniciado em 2011, o deslocamento dos sírios em diversas partes do planeta também refletiram no Brasil, onde pelo menos 3.722 pediram refúgio. Outros tantos aportaram no país sem a necessidade de pedido de refúgio, como fez Maher Dib, 38, que vive em São José.

O principal destino dos árabes é São Paulo e Foz do Iguaçu, onde estão as maiores comunidades. Mas não é difícil encontrar um sírio em Santa Catarina, onde a população passa de 200 pessoas, entre sírios, egípcios, palestinos e outros. Na região central de Florianópolis eles abriram negócios, como restaurantes e lojas de artefatos, mas a dificuldade para se adaptarem ao português se apresenta como principal barreira.

Maher Dib se diz um caso à parte. Pai de uma brasileira fruto de um casamento que teve na Síria, decidiu vir para o Brasil há dois anos e meio. Apesar de não ser mais casado com a mãe da sua filha, se vira bem com o português. “Eu estudo por conta própria, na verdade essa é uma das únicas formas que nós de língua árabe temos para aprender o português. Não há cursos para. Agora tem um grupo que está organizando isso, mas no começo foi bem difícil”, conta.

Natural de Damasco, onde ainda mantém uma empresa, formado em direito e estudioso das religiões, em São José trabalha em um restaurante, no Jardim Atlântico, onde as quintas tem o prazer de servir pratos típicos de comida árabe.

Em seu apartamento, decorado com narguilés, bandeiras e bibelôs trazidos do Oriente Médio, busca manter o padrão de vida que tinha em Damasco. Ainda guarda estoque de fumo e café que trouxe da última viagem que fez à terra natal, em dezembro de 2017. E diz que aos poucos a Síria volta a vida normal.

“A guerra já não é um problema tão grande, ela está concentrada em dois estados. Mas eu particularmente acho o Brasil um país bom para se viver, gosto da liberdade que se tem aqui, me sinto bem”, contou.

Reflexo de uma crise mundial

Se há crises mundiais, elas não acontecem em um mundo paralelo, conta a trabalhadora humanitária e pesquisadora social Bruna Kadletz: “Atualmente existe uma crise e ela é global, fruto também de nossas ações aqui no Brasil. Não podemos achar que vivemos imunes do que acontece no mundo até pelo nosso contexto social e econômico, não podemos achar que não temos nada a ver com isso”, afirma.

Em Florianópolis, Bruna coordena projeto de integração social com enfoque linguístico entre os povos de origem árabe, e conhece bem como a realidade dos deslocados de suas casas pelos motivos mais diversos. Atualmente está envolvida nas ações do chamado centro de Paz, em Londres, local que foi atingido por um atentado nos anos 1980 e que virou refúgio para construção da paz, atuando em diversas áreas. Também já passou pelo campo de refugiados na Grécia e na Irlanda, onde ela conta que a política migratória é pior que a do Brasil. “Na Irlanda eles não têm o direito a trabalho e moradia e ficam em um centro de espera”.

Atualmente Bruna busca voluntários para o programa de integração social voltado para a comunidade árabe da Grande Florianópolis. O projeto oferece aula de português e atividades de socialização. “Para os falantes de árabe a questão da língua é mais difícil ainda porque muitos deles nunca tiveram contato com o nosso alfabeto”, explica.

Para Bruna, não só no Brasil, mas no mundo, ainda predominam o arquétipos que encaram os migrantes ou como ou vitimizados ou como ameaça à segurança. “Eu prefiro os ver como potencial amigo. Esses movimentos sempre existiram, o Brasil viveu muitas ondas migratórias, e é isso nos oferece um enriquecimento cultural muito grande”, defende.

Imaginar o migrante como um bloco e não na sua potencial diversidade, segundo Bruna, é o grande erro de governos que têm imposto limites para aceitação de migrantes e refugiados ao redor do mundo. “Quando temos contato com a questão da migração, nós nos relacionamos, na verdade, com a imagem que temos dela. Mas a partir do momento que nos anestesiamos para o outro, o migrante, é a nossa sociedade que está morrendo”, emenda.

Estado promete casa do imigrante para 1º de fevereiro

Depois de idas e vindas e de ter que devolver ao governo federal R$ 769 mil para a abertura do CRAI (Centro de Referência e Atendimento a Imigrantes e refugiados de Santa Catarina), o governo do Estado promete abrir as portas do espaço no próximo dia 1º de fevereiro. No último dia 16 de janeiro o Ministério da Justiça rompeu o convênio, 1,5 milhão, assinado como Estado em 2016 para a abertura do espaço, mas uma série de desentendimentos acabou travando o processo e a verba teve que ser devolvida.

Agora, a Secretaria de Assistência Social, Trabalho e Habitação, promete abrir o local com recursos próprios, ao custo de R$ 300 mil por ano, enquanto tentará renovar a parceria com o governo federal.

O secretário Valmir Comin informou que a abertura do CRAI está confirmada para o próximo dia 1º de fevereiro e funcionará sob a coordenação da Postoral do Migrante, organização que já vem realizando os principais trabalhos de base com a comunidade estrangeira na região da Grande Florianópolis.

Segundo Fernando Anísio Batista, secretário da ASA (Ação Social Arquidiocesana) a pastoral irá assumir o espaço, mas ainda não há garantias de que os repasses serão mantidos.

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