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Segunda-Feira, 12 de Novembro de 2018
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De livros acadêmicos a obras raras, biblioteca ainda é espaço procurado para leitura e pesquisa

Na Biblioteca Pública de Santa Catarina, que completa 160 anos neste sábado, obra mais antiga é "Repertório das ordenações e leis do reino de Portugal", de 1643

Felipe Alves
Florianópolis
Daniel Queiroz/ND
Imaã Paixão pesquisa revistas da década de 1940 para um trabalho da universidade


Ao folhear as páginas amarelas da revista Sul, que circulou em Santa Catarina entre 1947 e 1957, o museólogo Renilton Matos Assis, 33 anos, resgata a história do modernismo no Estado e que teve entre os integrantes os escritores Salim Miguel e Eglê Malheiros. Há cerca de um mês, Renilton pesquisa, fotografa e separa para sua dissertação de mestrado os trechos mais importantes de toda a coleção da revista arquivada na Biblioteca Pública de Santa Catarina, que completa 160 anos de fundação neste sábado. Com acervo de 115 mil volumes, a biblioteca mantém seu encanto, mesmo com a internet e os livros digitais cada vez mais em alta. E permanece como fonte de pesquisa, estudos e leitura, onde é possível encontrar obras raras, resgatar fatos esquecidos e se transportar para outras épocas.

“Eu poderia até achar trechos da revista Sul na internet, mas seriam recortes de outro pesquisador. Acredito que a biblioteca seja o único lugar que tem a coleção completa desta revista”, diz Renilton, que faz mestrado em patrimônio cultural e construirá a dissertação sobre a criação do Museu de Arte de Santa Catarina. “No contato direto com o material, posso ver o modernismo com outro olhar e a alta qualidade das páginas dificilmente eu encontraria na internet”, completa.

Quando a internet começava a se popularizar e a administradora da biblioteca, Patrícia Karla Firmino, 40, era apenas estudante de biblioteconomia em 1999, ela lembra que discutia-se qual seria o papel dos livros e das bibliotecas em um futuro próximo. “Temíamos que a tecnologia faria com que o livro desaparecesse e isso não ocorreu, muito pelo contrário. Além dos livros de literatura, que são muito emprestados, os estudantes de pré-vestibular e de universidades, por exemplo, procuram muitos livros que são caros e não estão em domínio público, como obras administração e de direito", afirma.

Raridades estão no terceiro andar

O terceiro andar da Biblioteca Pública de Santa Catarina reserva um espaço dedicado exclusivamente às chamadas obras raras. De acesso restrito, o local só pode ser acessado por funcionários, tem umidificadores de ar para a conservação dos livros e estima-se em 10 mil exemplares inventariados, com livros que vão desde o século 17 até os dias atuais. Mas o acervo é muito maior, pois as estantes do terceiro andar ainda contam com muitos livros que não foram inventariados.

O acesso é restrito por conta da precariedade em que muitos livros se encontram devido à ação do tempo ou ao manuseio incorreto antes de chegarem à biblioteca. Com luvas e muito cuidado, é possível ler e pesquisar acontecimentos de décadas e até séculos atrás. E para fazer isso não tem idade.

A estudante de moda da Udesc (Universidade Estadual de Santa Catarina), Imaã Paixão, 18 anos, por exemplo, foi à biblioteca a pedido da professora para pesquisar a visão sobre as mulheres a partir de anúncios em revistas da década de 1940. “Na revista nacional Vida Doméstica há anúncios que pregam que a mulher deveria se preocupar em ser mãe, bonita e boa esposa. Eu não encontraria na internet e é bacana saber que essa revista foi importante para alguém naquele período, saber que essa memória ainda é preservada”, diz.

Obra mais antiga é de 1643

A obra mais antiga nos arquivos da biblioteca pública de Santa Catarina é de 1643. O “Repertório das ordenações e leis do reino de Portugal” trata das leis daquele país em meados do século 17. De literatura, há uma coletânea completa de obras do escritor e poeta fluminense Casimiro de Abreu, de 1877. Na área científica, “Opúscula”, de 1790, é um tratado de medicina escrito em latim e que dispõe das descobertas da medicina daquela época.

Com tradução do padre Antônio Pereira de Figueiredo, tem uma edição da Bíblia Sagrada de 1854. De Santa Catarina, há poesias de Henrique Santos Carvalho no livro Sonhos Poéticos, encadernado na então penitenciária de Pedra Grande. “Nem tudo está inventariado e quantificado aqui, pois é um processo demorado e feito página por página”, diz o bibliotecário Alzemir Machado, 50.

O conceito de obra rara é abrangente, mas entre alguns critérios está a característica do livro ser único em relação aos exemplares do mundo ou estar dentro de um limite histórico. Ela precisa apresentar ainda aspectos bibliográficos diferenciados, como também edições clandestinas, de tiragens reduzidas, edições de coleções especiais e de luxo, obras esgotadas e com anotações manuscritas de importância.

Títulos on-line e hemeroteca atraem leitores

O grande fluxo de pessoas na Biblioteca Pública de Santa Catarina, segundo a administradora Patrícia Karla Firmino, se deve principalmente a dois acontecimentos marcados na história da instituição. Esses fatos são de novembro do ano passado.

O primeiro foi o lançamento da catalogação de todo o acervo de títulos na plataforma on-line, possibilitando com que as pessoas pesquisem de casa o que está disponível na biblioteca. “As pessoas veem que toda semana tem títulos novos e que não há apenas livros antigos. Além dos clássicos, temos até best-sellers recentes, como “50 tons de cinza” e a coleção de Harry Potter, por exemplo”, diz.

A consulta ao arquivo pode ser feita por meio do Sabio (Sistema de Automação de Biblioteca). Além de facilitar o acesso aos usuários, é possível fazer renovações de livros e reservar outros pelo site www.fcc.sc.gov.br/bibliotecapublica.

O segundo acontecimento foi o lançamento da Hemeroteca Digital Catarinense, que divulga o acervo documental de publicações periódicas, em especial jornais editados e publicados em Santa Catarina a partir do século 19. Com o lançamento na última quinta-feira do terceiro catálogo de jornais catarinenses, com 1.483 títulos entre os anos 1831 e 2013, a biblioteca disponibiliza cerca de 300 periódicos digitalizados em alta qualidade e pretende continuar o trabalho.

Por ser um processo manual, feito página por página, a digitalização é demorada e compreende um esforço coletivo dos novos bibliotecários, assistentes e estagiários. Depois de escaneadas, as páginas são editadas e disponibilizadas em alta qualidade. “A biblioteca é um lugar especial que, mais do que o saber, é o lugar especial que guarda a memória coletiva da cidade”, diz a escritora Lélia Pereira da Silva, membro da Academia Catarinense de Letras.

Leitura física de livros, gibis e jornais

Muito frequentada por estudantes, principalmente do pré-vestibular e da universidade, a biblioteca também é fonte de materiais acadêmicos. Priscilla Gusmão, 17 anos, por exemplo, pensa em prestar vestibular para antropologia e resolveu pesquisar na biblioteca um pouco mais sobre a profissão. “Na internet você sempre acha materiais muito amplos, há possibilidades infinitas. Às vezes não é possível encontrar o que você quer e pode acabar se distraindo. Cheguei a pesquisar sobre antropologia na internet, mas não achei suficiente e resolvi vir aqui”, conta.

Para a administradora Patrícia Karla Firmino, o hábito de ler um livro fisicamente e pegá-los emprestados na biblioteca tem vida longa. Como exemplo, ela cita as crianças, que adoram ler gibis na biblioteca.

Raulino Matos, 91, sabe o que é a internet, mas nunca acessou a rede. Ele gosta mesmo é de pegar o jornal impresso todos os dias para ler. “Moro na avenida Rio Branco e vou a pé quase todos os dias até a biblioteca. É um lugar calmo e, já que disponho de tempo, venho aqui para ler”, diz.

 

A BIBLIOTECA

Criação: 31 de maio de 1854
Inauguração: 9 de janeiro de 1855
Acervo: 115 mil volumes
Obra mais antiga: “Repertório das ordenações e leis do reino de Portugal”, de 1643

Programação de 160 anos

Segunda-feira: Contação de história “Frankolino” e lançamento do livro “Mitologia dos 4 elementos”, de Cléo Busatto, com presença da escritora para sessão de autógrafos.

Quinta-feira: Assembleia geral de fundação da Academia Brasileira de Contadores de Histórias - Seccional/SC. Iniciativa da escritora e contadora de histórias Claudete Terezinha da Mata e apoio dos integrantes da Oficina Literária Boca de Leão, Fundação Catarinense de Cultura e Biblioteca Pública de Santa Catarina.

Informações

Horário de funcionamento: das 8h às 19h15, de segunda a sexta-feira. Aos sábados, o atendimento ao público é feito das 8h às 11h45.

Endereço: rua Tenente Silveira, 343 – Centro, Florianópolis

Telefones: 3665-6420 (secretaria); 3665-6422 (recepção)

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