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Quarta-Feira, 19 de Setembro de 2018
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Criação de faixas exclusivas para motociclistas gera polêmica na Grande Florianópolis

Entre opiniões contraditórias, número de motos no trânsito cresce junto aos índices de acidentes e mortes, enquanto órgãos competentes continuam ignorando esse personagem do trânsito

Beatriz Carrasco
Florianópolis

Essa reportagem faz parte de um caderno especial produzido pelo Jornal Notícias do Dia em comemoração aos seus 10 anos. Durante dez meses serão publicados cadernos com temas específicos. O escolhido para o mês de abril é Mobilidade Urbana. Para ler o caderno na íntegra, basta acessar a versão digital do ND, disponível apenas para assinantes.

Com sua motocicleta, o auxiliar de escritório Gilmar Rodrigues, de 42 anos, saiu do trabalho em Florianópolis, em 11 de dezembro de 2015,e seguia pela BR-101 em direção a sua casa em Forquilhas, em São José. Ele, então, decidiu acessar o corredor para fugir das longas filas do horário das 18h, na região de Barreiros. Mas ao passar em frente a um caminhão que estava parado no congestionamento, o motorista não percebeu a presença de Gilmar e o atropelou, arrastando-o para debaixo do veículo conforme o trânsito fluía. “Eu comecei a dar socos no caminhão, mas ele não percebeu que eu estava embaixo”, relembrou com aflição.

Marco Santiago/ND

 

A presença dos motociclistas no trânsito das grandes cidades do Brasil cresce junto às opiniões contraditórias sobre o assunto: por um lado, há os que defendem que o uso da motocicleta não deve ser estimulado pela vulnerabilidade e alto índice de acidentes fatais. Por outro lado, cada vez mais pessoas comuns optam pelo meio de transporte, tanto para fugir dos congestionamentos, quanto pelo baixo custo para comprar e manter uma moto, que surge como uma opção atrativa quando comparada ao valor das passagens de ônibus e ineficácia do sistema de transporte público na Região Metropolitana de Florianópolis.

:: Leia o primeiro caderno, com o tema Grande Florianópolis

“Nós temos um transporte público caro e ineficiente, em uma cidade com uma geografia totalmente fora do comum como é a de Florianópolis. Aqui, você só tem uma via para chegar a algumas regiões, e não há interligação entre a maioria dos bairros. Vendo todos esses problemas, qual é a melhor opção? Comprar uma moto, que sai mais barato. Então, é necessário colocar uma lupa sobre essa questão”, destacou Pedro Luis Sabaciauskis, presidente da Amofloripa (Associação de Motociclistas da Grande Florianópolis), ao reclamar que os órgãos competentes ignoram a realidade dos motociclistas na região.

Eduardo Valente/ND
Gilmar mostra fotos do dia do acidente

 

A questão é levantada por Pedro ao citar o Plamus(Plano de Mobilidade Urbana Sustentável da Grande Florianópolis), que traz um estudo, análise e proposta de soluções para a mobilidade urbana na região. No material, que tem como intuito nortear futuros projetos relacionados ao tema, não há medidas específicas voltadas aos motociclistas. Segundo Guilherme Medeiros, coordenador técnico do Plamus, o motivo é a vulnerabilidade do meio de transporte.

“Tentamos não estimular muito a motocicleta por conta do número altíssimo de acidentes, e por poluir mais que o automóvel. É claro que precisamos mostrar que ela existe, mas também tratar a política da educação do motociclista, para que ele tenha um comportamento de se proteger e proteger aos outros”, disse, ao citar que chegou a ser discutida a possibilidade de projeto para implantação de faixas exclusivas para motos. “Mas consideramos que a faixa exclusiva para motos vai estimular um meio de transporte que é muito arriscado”, detalhou.

 

A polêmica das faixas exclusivas

A criação de faixas exclusivas para motos é outro tema contraditório, defendida em sua maioria por motociclistas e entidades da área, como a Amofloripa. Para o secretário de Segurança e Gestão de Trânsito de Florianópolis, Valci Brasil, a questão é delicada e exigiria um estudo minucioso para que fosse normatizado o modo como esses espaços funcionariam.

“Há países onde esses corredores exclusivos são regulamentados, e neles a velocidade é reduzida para evitar acidentes. Já em outros, não há restrição dessa natureza. Portanto, entendo que o Brasil necessita de um amplo estudo sobre o assunto, já que o comportamento do motociclista daqui é diferente dosde outros lugares”, disse o secretário.

Para o presidente da Amofloripa, por sua vez, a implantação de pistas exclusivas “é inevitável”. “Vai chegar um momento em que a quantidade de motos vai ser tão grande, que oficialmente ou não vai ter uma via só de motos”, diz ele, ao observar que a questão é complicada principalmente porque modificaria o planejamento viário da cidade. “Ninguém quer colocar o dedo nessa ferida, porque o espaço é pequeno para muita gente”.

Quando o assunto é corredor, aliás, embora não haja um espaço exclusivo, é comum que motociclistas transitem entre os carros, principalmente nas vias arteriais com grande fluxo de automóveis. Essa prática também é motivo de embate entre motoristas de carros e motociclistas, já que muitos acidentes ocorrem nesse contexto. Por outro lado, não há proibição desse ato no Código de Trânsito Brasileiro, e a circulação das motos enfileiradas com os outros automóveis “prejudicaria ainda mais a mobilidade urbana”, afirmou Pedro.

 

Medidas emergenciais

Enquanto a questão dos motociclistas no espaço urbano segue nebulosa junto aos órgãos competentes, todas as fontes consultadas pela reportagem são unânimes ao apontar uma medida principal que evitaria tantas tragédias no trânsito: a conscientização. “Falta bom senso e humanidade no trânsito”, criticou Pedro. “A educação para o trânsito é fundamental se for colocada dentro de uma abordagem mais ampla, que envolva melhor infraestrutura e maior fiscalização”, completou Leandro Garcia, membro da organização Rede Vida no Trânsito.

Essa intensificação da fiscalização e aplicação de multas aos motociclistas infratores também são providências que trariam mudanças rápidas, assim como estudos específicos voltados para esse personagem do trânsito, com dados que trariam luz para ações efetivas. Paralelo a isso, as campanhas de conscientização se mostram cada vez mais urgentes. “É preciso investir na conscientização, pois estamos baseados no preconceito. Se deixarmos de enxergar a moto como um vilão, mas como um agente facilitador, conseguimos melhorar em várias coisas, como o número de acidentes, mobilidade e geração de renda”, finalizou o presidente da Amofloripa.

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