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Contorno viário de Florianópolis muda o cenário da zona rural e separa famílias

Obra vem sendo executada em três trechos: Norte B (Biguaçu), Intermediário 3 e 4 (ambos em São José), equivalente a pouco mais de 16 quilômetros. A previsão para o fim dos 50,08 quilômetros é em 2019

Michael Gonçalves
Florianópolis
05/11/2016 às 08H28

Pensado para reduzir o tráfego de longa distância no perímetro urbano da BR-101 na Grande Florianópolis e aproximar as pessoas, o contorno viário de Florianópolis também é o calvário de algumas famílias. O aposentado Quirino Albino da Silva Filho, que viveu os 71 anos da sua vida ao lado dos parentes no bairro Colônia Santana, em São José, só pensa na indenização pela desapropriação para buscar outro canto para morar. O contorno viário terá 50,08 quilômetros de extensão pelas zonas rurais das cidades de Governador Celso Ramos, Biguaçu, São José e Palhoça, e mudará o cenário e a rotina de centenas de famílias até 2019.

Atualmente, a obra vem sendo executada em três trechos: Norte B (Biguaçu) e Intermediário 3 e 4 (ambos em São José), o equivalente a pouco mais de 16 quilômetros. Nos próximos meses, a Autopista Litoral Sul pretende começar os trabalhos em mais dois trechos, em Biguaçu, de mais 16 quilômetros. O número de operários oscila entre 550 e 600, que operam 200 máquinas.

Obras de terraplanagem em Biguaçu avançaram 18,97% do total - Flávio Tin/ND
Obras de terraplanagem em Biguaçu avançaram 18,97% do total - Flávio Tin/ND



Para executar a obra por inteiro, a Autopista precisa desapropriar 1.043 áreas. As terras dos irmãos Quirino e Longino da Silva, 74, estão entre os 396 imóveis que ainda não foram desapropriados. Antes do contorno viário, eles viviam em uma comunidade de seis casas e 16 pessoas. “A desapropriação está sendo complicada. A minha casa não seria indenizada, mas agora será. Minha irmã piorou do câncer que estava tratando e acabou morrendo. Já o meu sobrinho achou melhor pegar a família e ir para outro bairro. E eu também farei o mesmo”, lamentou Quirino, cuja propriedade está no meio da obra e impede o avanço da rodovia.

A expectativa é de que o contorno retire mais de 20 mil veículos pesados da BR-101 da região metropolitana de Florianópolis. Em São José, a obra começou em maio de 2014, e em Biguaçu, em abril de 2015.

Aposentado perde gado e constrói casa duas vezes

Aos 74 anos, o aposentado Longino Quirino da Silva perdeu oito bois e um cavalo com a construção do contorno viário. Ele foi obrigado a vender os animais quando soube que seria desapropriado. Mesmo sem receber toda a indenização, Longino saiu da antiga casa e construiu outras duas residências pela confusão dos intermediadores da desapropriação. “Perdemos o nosso sossego e para piorar não pagaram da maneira combinada. Sem ter um lugar para morar, comecei a construir outra casa e mandaram demolir quando eu estava colando a laje, porque disseram que seria muito perto da estrada. Quando desmanchei, eles voltaram a liberar com a justificativa que estava a mais de seis metros da rodovia, que é a área de recuo. Assim, não sobrou alternativa e reconstruí a minha casinha”, contou com lágrimas nos olhos.

Longino ainda chora quando vai até os escombros da antiga residência no bairro Colônia Santana. Ele é mais uma das centenas de famílias que esperam a indenização pela desapropriação na Justiça.

Longino ainda chora com retorna à antiga residência - Flávio Tin/ND
Longino ainda chora com retorna à antiga residência - Flávio Tin/ND



Acordo em 434 desapropriações

O superintendente de investimentos da Autopista Litoral Sul, Marcelo Módolo, informou que das 1.043 áreas de desapropriação, 647 já foram liberadas. Ele destacou que em 434 casos foram feitos acordos. “Todas as desapropriações seguem critérios rígidos e complexos e não temos interesse nenhum em tirar vantagem de uma situação, porque a terra volta para a União e os valores serão repassados à tarifa. Entendemos que o caso da família dos senhores Quirino e Longino é uma exceção, com repercussão na Justiça Estadual”, explicou.

Módolo ressaltou que a maioria das desapropriações restantes está no último trecho, em Palhoça, onde o projeto está aguardando aprovação na ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres). “O processo de desapropriação tem algumas variáveis. O valor pode alterar pela data do acordo da indenização e alguma valorização segundo um avaliador. Um processo concluído em 2014, provavelmente terá um valor diferente do acertado neste ano. Mesmo não dependendo exclusivamente da nossa vontade, após a criação da Vara Federal de Conciliação, em agosto de 2015, as desapropriações avançaram exponencialmente”, esclareceu.

Caminhoneiro espera pelo fim dos congestionamentos

 O conceito do contorno viário é reduzir o fluxo de veículos de longa distância da BR-101 com uma via expressa de 100 km/h. A obra começou em maio de 2014, em São José, no lote que deve ser concluído entre dezembro deste ano e janeiro de 2017. Um ano depois, os trabalhos começaram em Biguaçu. O trecho de Palhoça é o mais atrasado.

O caminhoneiro Luiz Antônio Vieira, 46 anos, sabe da importância da nova rodovia para quem precisa cortar a região com frequência. “Normalmente, eu passo o dia carregando areia e pedra de Tijucas para São José e o contorno viário será uma ‘mão na roda’. Num trecho que levo mais de uma hora pelo congestionamento, a esperança é de que a viagem dure apenas alguns minutos”, disse.

Casas demolidas, mas sem trabalho no Morro do Cipó

O pedreiro Márcio de Farias, 42 anos, recebeu a maior parte da indenização há dois anos na comunidade do Morro do Cipó, em Palhoça. Agora, ele comprou uma casa nova no Morro do Gato, uma localidade vizinha. Farias morava há sete anos na antiga casa. “A nossa localidade virou uma espécie de cidade fantasma, porque várias casas estão destruídas e abandonadas pela desapropriação”, contou.

O superintendente de investimentos da Autopista, Marcelo Módolo, explicou que o atraso em Palhoça aconteceu em função da discussão sobre o contorno abranger a BR-282. “A frente parlamentar abriu a discussão sobre a obra seguir o traçado da BR-282 até a BR-101 para solucionar um congestionamento no trevo do bairro Bela Vista, em Palhoça, mas a obra seguirá o traçado original”, afirmou.

O único trecho em que o projeto não está concluído é entre as cidades de Governador Celso Ramos e Biguaçu, de 1,7 quilômetro, ao lado do aterro sanitário. O projeto será refeito para a futura ampliação do aterro. A discussão está na Justiça.

Morro do Cipó virou uma localidade fantasma - Flávio Tin/ND
Morro do Cipó virou uma localidade fantasma - Flávio Tin/ND

A OBRA

O contorno por cidades

Governador Celso Ramos: 240 metros

Biguaçu: 25,27 Km (7,46 km em obra)

São José: 10,26 Km (8,89 km em obra)

Palhoça: 14,24 Km (pequeno trecho em obra)

A obra em números

22 passagens superior (elevados, viadutos), sendo duas prontas e duas em execução

7 pontes, sendo duas prontas

4 túneis

6 trevos com elevados

200 máquinas

Operários oscilam de 550 a 600

Avanço dos trechos

Norte B                                               18.97% (de 7,46 km)

Intermediário 3                                    65,50% (de 4,14 km)

Intermediário 4                                    56,54% (de 4,75 km)

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