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Consulado, o bloco formado por funcionários cariocas da Eletrosul em 1977, é a escola da Caieira

Comunidades do Saco dos Limões e bairros vizinhos, na vertente leste do maciço do Morro da Cruz, adotam agremiação nascida no Pantanal

Redação ND
Florianópolis

Na reta final, todos arregaçam as mangas. As luzes no barracão ficam acesas dia e noite e iluminam crianças que cochilam em colchões estendidos em meio a fantasias coloridas, nos cantinhos arejados da quadra. Na correria, pais, tios, sobrinhos, avós, vizinhos e até alguns desconhecidos se multiplicam na tarefa de colar, recolar, cortar, costurar ou retocar plumas, paetês, lantejoulas e materiais recicláveis. O mutirão que se repete é para dar a última feição a fantasias e adereços, como na linha de montagem de uma fábrica de sonhos.

Entre os operários do samba, o desempregado Alyson Rodrigo Ferreira, 36, o mestre Biscoito, é uma das crias da bateria “Ordinária” e orgulho da Consulado, a escola que nasceu na Eletrosul e foi adotada pela comunidade da Caieira do Saco dos Limões. “Nestes dias que antecedem ao desfile, meu fuso horário fica completamente fora do eixo. Não sei quando é dia nem percebo a noite cair”, diz o sambista, hoje responsável pela afinação dos 155 músicos com quem dividirá a missão de manter a empolgação de 1.800 passistas na avenida.

Marco Santiago/ND
Desde menino. Alyson, que se encantou com a bateria ainda na infância, agora tem a responsabilidade de fazer a agremiação sambar

A relação entre a Consulado e o mestre de hoje é antiga. Ele tinha apenas seis anos, em 1986, quando o bloco de bandeira vermelha e branco virou escola e fez parceria com a Amoca (Associação dos Moradores da Caieira) para utilizar a velha quadra de cimento da rua Custódio Fermínio Vieira, mais tarde transformada em barracão.

Em 1990, aos 10 anos, encantado pela batida do samba, o menino entrou na bateria mirim, na época ensaiada pelo mestre PC [Paulo César]. “Foi ele quem me iniciou, e hoje toco em todas”, diz. Em 2002, último ano de PC à frente da “Ordinária”, Alyson foi convidado, e no ano seguinte aceitou ser um dos diretores de bateria.

A intenção na época era montar uma comissão de bateria com o perfil da comunidade. “Fui várias vezes ao Rio de Janeiro, pesquisei, trabalhei com mestre Daniel Aranha de 2003 a 2010 e, hoje, colhemos os frutos plantados no passado”, diz. Segundo Alyson, 70% da bateria são de jovens de 15 a 20 anos oriundos da bateria mirim.

Bloco de foliões importa experiência do Rio de Janeiro

Tudo começou com um grupo de cariocas bons de copo e, é claro, com samba no pé. Funcionários da Eletrosul e forasteiros na Ilha, os amigos Salomão Lobo Filho, Nivaldo, Waltemir, Martinha, João Carlos Bressane Cacau e vários outros transformaram o condomínio onde moravam, no Pantanal, no “consulado do Rio”, espécie de confraria para as confraternizações e batucadas.

Os primeiros instrumentos eram guardados na casa de Nivaldo e Waltemir, onde o pessoal ensaiava e deu origem ao nome Consulado do Samba. No Carnaval de 1977, surgiu o bloco nas cores vermelho e branco para homenagear o Salgueiro, a escola de samba do Rio de Janeiro. 

Organizado e formado, basicamente, por pessoas de poder aquisitivo acima da média salarial praticada na cidade, em uma década de existência ganhou 10 títulos seguidos do concurso de blocos de blocos, ainda na avenida Paulo Fontes – fundos do Mercado Público. Até que em maio de 1986 foi fundado o Grêmio Recreativo Escola de Samba Consulado.

 A transferência da escola para a quadra da Amoca, na Caieira do Saco dos Limões, foi negociada com lideranças comunitárias locais, em especial com o carnavalesco Osvaldo Silveira, fundador do tradicional bloco Batuqueiros do Limão [um dos mais antigos do sul do Brasil, fundado em 1969].

Pai de Marquinhos do Cavaco, o velho Silveira de pronto vislumbrou os benefícios da integração entre escola e comunidade. Parceria reforçada a cada Carnaval, como comprovado durante os mutirões que mantêm a porta do barracão sempre aberta.

Bateria prata da casa garante afinação

Formado na base da escola, mestre Alyson é exigente com a afinação. A marcação do surdo e a levada [ritmo da batida] da caixa, segundo ele, é o que definem a característica da bateria. “Cada escola tem a sua”, explica.

Na “Ordinária”, ele ensaia exaustivamente duas levadas de caixa: a reta, ou de baixo, com a bandoleira no pescoço e o instrumento à altura da cintura; e a de cima, com a bandoleira recolhida e a caixa tocada junto a um dos ombros. “São dois contratempos, mas a segunda tem outra dinâmica; é mais quebrada”.

A paradinha, segundo mestre Alyson Biscoito, hoje em dia deixou de ser opcional e já faz parte do repertório obrigatório de qualquer bateria. “Não conta pontos, mas é o que levanta a galera na arquibancada, assim como uma coreografia especial”, ensina.

No dia a dia da bateria, Alyson conta com sete escudeiros tão dedicados quanto o mestre. São os diretores de instrumentos Marcos Júnior, de caixa e repinique; Guilherme Damásio, de tamborim; Cleber Lopes, de surdo; Reginaldo Lopes,  de surdo segunda; Willian Fornerolli, de surdo terceira; Guilherme Silveira, de suporte; e a coordenadora de chocalhos Brenda Melo.

“Somos todos prata da casa, pessoas que amam o samba e aprenderam a amar a escola”, diz Alyson, que tem como prioridade a reativação da bateria mirim. Hoje, a escola representa Saco dos Limões, Costeira, Pantanal, Serrinha, Carvoeira e Trindade, historicamente os bairros de Trás do Morro.

O primeiro título veio em 1991, série vitoriosa que terminou no tricampeonato em 1993.

 

Consulado

Caieira Saco dos Limões

5 de maio de 1986

Vermelho e branco

Componentes: 1.800

Alas: 19

Enredo: E vem de lá, do centro do Mundo, a Força de um Povo

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