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Terça-Feira, 25 de Setembro de 2018
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Conheça o hunsrückisch, o idioma trazido pelos alemães para a Grande Florianópolis

Desde 2010, o hunsrückisch tornou-se língua oficial do município de Antônio Carlos, da mesma forma como acontece com o português

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis

As luzes da cidade, os confortos da vida urbana e as redes sociais interferem, mas não impedem que a língua dos pioneiros ainda seja falada em algumas comunidades de Antônio Carlos, município da Grande Florianópolis que se emancipou de Biguaçu em 1963. Foi na localidade do Louro, vizinha de São Pedro de Alcântara, que colonos alemães se instalaram ainda na primeira metade do século 19, em busca de terras mais férteis e menos acidentadas do que na origem, perto das nascentes do rio Maruim. Com eles, veio o hunsrückisch, falado na Alemanha e transferido para a primeira colônia germânica em Santa Catarina a partir de 1829.

Bruno Ropelato/ND
Leonídio Zimmermann é um defensor aguerrido do hunsrückisch e da cultura dos ancestrais 


Desde 2010, o hunsrückisch é, como o português, língua oficial no município, e deverá ser ensinada nas escolas depois que a prefeitura de Antônio Carlos definir um sistema de escrita, contratar professores e criar material pedagógico próprio em edição bilíngue. No interior, os casais mais idosos ainda se comunicam no idioma dos desbravadores, mas as novas gerações perderam esse vínculo por causa da escola, da necessidade de arranjar emprego na cidade e até da discriminação que o sotaque carregado provocava, sem falar na proibição de se expressar em língua alemã durante e nos anos posteriores à segunda guerra mundial.

Um defensor aguerrido do hunsrückisch e da cultura dos ancestrais é Leonídio Zimmermann, 86, que é presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Biguaçu. Autor de dois livros bilíngues, ele também escreve artigos no jornal “Biguaçu em Foco” e tem uma legião de leitores fiéis. É nele que estão depositadas as esperanças de um resgate mais palpável do idioma dos pioneiros, porque as obras que publica são documentos que perpetuam o legado – ainda que o modo de falar tenha estagnado, enquanto o alemão oficial evoluiu, como ocorre com todas as línguas vivas.

Para o secretário de Educação e Cultura de Antônio Carlos, Altamiro Antônio Kretzer, a falta de elementos arquitetônicos e culinários típicos torna a língua dos velhos moradores o único elo com a origem de uma etnia que hoje é predominante no município. “É ela que nos diferencia, e não podemos perder essa herança”, ressalta.

 

Quando não se sabia dar “bom dia” em português

Nascida no Louro e criada em Rachadel, a poucos quilômetros do centro de Antônio Carlos, a agricultora Nilza Pauli Petri, 69 anos, mora com o marido Paulo João, 75, na comunidade de São Marcos, pertencente ao município de Biguaçu. Ali, a maioria dos descendentes de alemães convive bem com os “brasileiros”, mas quando conversa entre si o casal usa o hunsrückisch, que também ensinou aos três filhos. Destes, o mais velho permanece na roça e fala o dialeto sem dificuldades. A filha é enfermeira e costumava traduzir para os médicos do Hospital de Caridade e do Celso Ramos o que diziam, misturando os idiomas, os moradores do local que se consultavam em Florianópolis. E o filho mais novo, de 41 anos, já pegou o tempo em que o português predominava ali e em toda região.

Bruno Ropelato/ND
Casal Nilza Petri e Paulo Joãoconversa entre si com o uso do hunsrückisch


“Minha avó não sabia nem o ‘bom dia’ em português, e na escola nós também não conseguíamos nos comunicar sem ser na língua dos pais”, conta Nilza Petri. Como se reza baixinho, a proibição de orar em alemão não funcionou na época da repressão ao idioma de Adolf Hitler. Fora isso, as palavras sem nexo para os demais, o sotaque carregado e a discriminação estimulada de cima para baixo levavam muita gente a se esconder atrás da porta, porque era comum apontar o dedo acusatório para os descendentes de europeus.

Até arrumar namorada “brasileira” era uma dificuldade, relata Paulo João Petri, que planta de tudo nos cinco hectares que cultiva em São Marcos e só precisa sair para comprar sal, açúcar e farinha de trigo. A região vem perdendo moradores e se transformando numa sucessão de fazendas de gado, administradas por gente da cidade.

Leonídio Zimmermann, estudioso da língua mãe, se arrepende de não ter começado antes o resgate da cultura dos ancestrais, mas faz o que pode para convencer pelo menos um filho de cada família a permanecer nas propriedades. Ele diz que a agricultura está melhorando, dando mais retorno econômico, o que pode facilitar essa tarefa. “Quero preservar o legado dos antepassados, que passaram por sacrifícios, moraram no mato e ajudaram a região a crescer”, afirma.

 

Um obstinado defensor da cultura dos antepassados

Por causa de seu trabalho de valorização do hunrückisch, Leonídio Zimmermann fez muitos amigos e circula com desenvoltura em todas as “linhas” do interior de Antônio Carlos e Biguaçu. Ele pertence à quarta geração de uma família de alemães que se fixou em São Pedro de Alcântara a partir de 1829. Lá, as terras não eram ideais para a agricultura e a geada matava tudo o que era plantado. Por isso, os imigrantes se espalharam pela redondeza. Alguns deles chegaram ao Louro, no Alto Biguaçu, nome do distrito antes da emancipação.

A família Zimmermann se instalou ali perto, em Rio Farias, de boas terras para o plantio. A mãe de Leonídio, Maria Zimmermann, não falava o português, mas lia e escrevia em alemão – e ensinou a prole a se comunicar na língua original. A tentativa de continuar repassando esse hábito deu certo até que os mais novos dos 11 filhos de Leonídio começaram a migrar para a cidade. Os três que ficaram no campo mantêm vínculos diários com o idioma de origem, porém os demais se tornaram empregados em Biguaçu e Florianópolis. “A juventude quer sair da roça”, diz ele, com ar de desolação.

Aos dois livros bilíngues já publicados (“MeyneSproch, MeyneSeele – Minha Língua, Minha Alma”, de 2001, e  “EinPrieffir Die Zukunkt – Uma Carta para o Futuro”, de 2014), Leonídio vai acrescentar um terceiro, que deve sair em janeiro de 2016. Ali, ele contará histórias dos imigrantes, da escravidão e aspectos da própria trajetória de defensor da cultura dos pioneiros na região.

Zimmermann passou a escrever artigos no “Biguaçu em Foco” por insistência do diretor do jornal, Ozias Alves, e diz que “a maioria dos leitores são descendentes de alemães cujos filhos estão esquecendo o idioma”. Embora saiba que o hunsrückisch está distante da língua padrão falada na Europa e ensinada nas escolas de línguas, ele persiste na missão de mostrar o “modo alemão de ser”. Leonídio já visitou a região de Hunsrück, na Alemanha, de onde veio boa parte dos imigrantes, e admitiu ter encontrado dificuldades para entender o alemão gramatical. Mas não desiste e ainda quer ver o idioma dos bisavós sendo ensinado nas escolas do município.

 

Bruno Ropelato/ND
Zimmermann escreveu dois livros bilíngues e prepara mais um para lançar em 2016

 

Retorno cultural, turístico e de autoestima

Um evento recente realizado na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) reuniu centenas de especialistas e representantes dos chamados municípios plurilíngues, ou seja, aqueles onde há mais de uma língua oficial. Havia professores de pomerano do Espírito Santo, estudiosos do talian (remanescente do italiano dos imigrantes) do Rio Grande do Sul e autoridades dos Estados da região Norte onde muitas línguas indígenas passaram a ser consideradas co-oficiais em regiões específicas. O “case” de Antônio Carlos, em Santa Catarina, chamou atenção porque já existe ali uma lei que respalda o hunsrückisch e um levantamento linguístico está em fase final de apuração de dados para, mais tarde, integrar o idioma à grade curricular do município.

O secretário municipal de Educação e Cultura, Altamiro Antônio Kretzer, diz que o recenseamento deve ser concluído até o início de dezembro, dando uma idéia precisa de quantas famílias ainda falam o hunsrückisch. Esses dados alimentarão institutos de pesquisa e organismos como o Ipol (Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística), e depois servirão de base para a tentativa de padronizar uma linguagem escrita e a posterior integração desta à rede de ensino local. O próprio secretário se diz um exemplo vivo da perda da língua dos antepassados. “Meu avô materno não sabia o português e ficava triste porque não conseguia se comunicar com os netos”, conta.

Se o projeto (executado com recursos do edital Elizabete Anderle de Estímulo à Cultura, da Fundação Catarinense de Cultura) for bem-sucedido, pode estar chegando o dia em que ninguém mais vai dizer que “aqui se fala o alemão errado”. E nem haverá mais riscos de episódios como os relatados pelo pai de Leonídio, Leopoldo Pedro Zimmermann, falando que as forças de segurança “entravam nas casas e queimavam tudo o que era escrito em alemão” na época da guerra.

Com cerca de 3 mil famílias e 10 mil habitantes, Antônio Carlos é um dos maiores produtores de hortifrutigranjeiros do Estado e também espera retorno turístico com a adoção do hunsrückisch como língua co-oficial. O município é um dos 17 em todo o Brasil que adotaram, por lei, um segundo idioma formal.

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