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Comunidade no Sertão do Valongo, em Porto Belo, guarda memórias dos tempos da escravidão

Descendentes dos escravos ainda mantêm alguns costumes dos antepassados, principalmente na agricultura e na culinária

Brunela Maria
Porto Belo
12/05/2017 às 16H21

De chapéu de palha, sentado no degrau de acesso à pequena cozinha, Gonçal Marinho Caetano, 86, saboreava uma bergamota colhida no quintal da casa, localizada no Sertão do Valongo, comunidade quilombola de Porto Belo, no Litoral Norte. Enquanto as cascas se amontoavam no chão, ele mastigava as gomas sem nenhuma pressa e relutava em falar do passado. “Seu Neném”, como é chamado, tem no sangue a força do povo escravo, que chegou ao local no século 19. O “Quilombo do Valongo” é um dos onze refúgios de escravos reconhecidos pela Fundação Cultura Palmares em Santa Catarina.

“Seu Neném” carrega no sangue a força do trabalho escravo - Marco Santiago/ND
“Seu Neném” carrega no sangue a força do trabalho escravo - Marco Santiago/ND


Apesar de não ter apanhado nos troncos ou ter sofrido nas senzalas, o idoso de fala mansa, guarda memórias repassadas de geração a geração. “Meus bisavôs foram escravos. Naquele tempo eram judiados, sofriam. Eu não fui, só herdei o sofrimento. A vida difícil acompanhou eles. Depois as dificuldades ficaram. Cheguei a tirar da minha boca para alimentar os meus filhos. Tenho seis aqui e outros dois no cemitério junto com minha esposa”, revela

Com o olhar distante, Neném lembra dos anos de serviço braçal para levantar dinheiro e que naquela época o pouco recebido quase nada valia. Mas de trocado em trocado, ele conseguiu alimentar a família. As oito crianças foram criadas na roça com a venda de lenha na cidade de Tijucas. O percurso, feito a mão pelos escravos, era percorrido em carro de boi. “Seguia para beira do rio para vender. Depois voltada e trabalhava na lavoura”, comenta.  Além da madeira tudo o que ele sabe de agricultura foi ensinado pelos avós e pelos bisavós, que vierampara a região como escravos.

Como a vida toda trabalhou muito e ganhou pouco, o luxo na pequena casa de seu Neném, mesmo nos dias de hoje, é ter comida na mesa. Viúvo há 40 anos, prepara sozinho o que come, cuida das plantas, faz orações e ouve hinos religiosos no velo rádio. “Sou negro, carrego sangue de escravo, mas não tenho orgulho disso. Deus quis assim, desse jeito. Herdei a força deles, isso não nego”, comenta.

Preconceito oprimiu a comunidade

A comunidade do Sertão do Valongo faz divisa com a cidade de Tijucas e por lá o contraste social é claro. Ao contrário do glamour das praias vizinhas de Itapema e Balneário Camboriú, no “Sertão dos Pretos”, como já foi chamado, o trânsito ainda é de carros de boi e a tranquilidade impera. Casas de madeira misturam-se à imensidão verde das montanhas e pastos. Há energia elétrica e água encanada, mas faltam serviços e praticamente não há comércio.

Segundo moradores, o Valongo surgiu quando os escravos da região conquistaram a liberdade. Como a maioria trabalhava para fazendeiros, optou por continuar no meio rural, produzindo para subsistência e cultivando cana de açúcar, mandioca e banana.

Até os dias de hoje, os descendentes de escravos do Valongo integram três famílias: Fael, Caetano e Costa. Elas se uniram ao longo dos anos e hoje quase todo mundo que mora por lá tem algum parentesco.

Na comunidade predomina entre os descendentes a Igreja Adventista do Sétimo Dia. A maioria frequenta cultos e segue as normas da religião. Eles contam com a fé e o apoio dos pastores para superar as dificuldades.  Boa parte  diz que, sem a ajuda da Igreja, a comunidade podia ter desaparecido.

Os costumes e as tradições dos negros vindos da África foram abandonados com o tempo e especialmente por causa do preconceito. Mesmo assim a comunidade foi reconhecida como quilombola em 2004, pela Fundação Palmares do Ministério da Cultura.

Orgulho de ser negro

A escravidão,  os maus tratos dos fazendeiros, a venda de pessoas como se fossem objetos ou animais e todo o sofrimento associado ao passado, boa parte dos habitantes do Valongo prefere esquecer. Até hoje, dizem ser vítimas de preconceito.

Ester Bertolino Caetano, 64. Bisneta de escravos, foi bastante discriminada desde a infância. Mesmo assim, ela diz que não omite sua descendência. “Me orgulho pela cor da minha pele e também sei que meus bisavôs sofreram muito, mas eu não gosto desse nome quilombola. Não tenho orgulho e nem preservei os costumes”, declara.

O terreno onde construiu sua casa foi uma herança do matrimônio com Moacir Caetano, 64. Juntos, eles tiveram três filhos, dois permaneceram no Valongo e apenas um foi morar fora. Assim como os pais, nenhum mantém as tradições e nem consideram a linhagem vinda dos escravos. “Uma coisa nós herdamos, foi as dificuldades. Todo mundo aqui sofreu demais. Hoje escolher a roupa que vou usar é luxo. Cozinho qualquer item, mas antigamente não podia. Passamos fome, era sofrimento mesmo”, comenta Ester.

Lembrar da abolição pela Lei Áurea de 1888, assinada pela Princesa Isabel, é uma data comum no vilarejo. Não há comemorações. É um dia normal de trabalho, sem mudança na rotina. “Não lembramos, passa batido aqui. Sabemos que é importante, mas nem temos que festejar nada. Esse povo sofreu demais, apanharam muito. Foram judiados e de alguma forma nós também acabamos sendo, porque de bisavó até meu pai, a vida foi difícil”, ressalta.

A energia deixada pelos escravos

Para receber a visita na porta de casa, Leopoldina Fael Caetano, 85, tia de Ester, a “Dona Poda do Sertão do Valongo”, corre pegar o lenço. Ela passa os dias cuidando do marido, Antônio Marinho Caetano, 90, que tem problemas de saúde e não pode se levantar. Não para um minuto se quer. “Eu não fico quieta nem à noite, não consigo descansar”, confessa. O atendimento em saúde é uma necessidade constante dos quilombolas.

Embora a idade pese, Dona Poda quer se manter na ativa. Segundo ela, a energia vem dos antepassados, que mesmo cansados da lida na roça ainda tinham fôlego para cuidar dos seus quando voltavam para casa. O que falta, segundo ela, é memória para reviver o passado. 

 “Tinha muitas histórias sobre escravos, contadas pela família, mas esqueci tudo. Vem chegando a idade e vai levando embora a memória da gente. Os problemas da vida também são culpados pelo esquecimento”, salienta.

Tradição mantida na cozinha

Alguns costumes dos escravos, os valonguenses mantêm sem perceber. Na cozinha de Seu Neném, onde está o fogão a lenha e as canecas de alumínio penduradas na parede, ele faz sua comida com uma pitada de tempero e tradição quilombola. A filha, Ester, também preserva nas receitas as poucas tradições das escravas que conhece.

Uma das iguarias da culinária quilombola é o Polento,  também conhecido como ou Tarde Toda. Ele é feito com fubá, leite, margarina e sal, enrolado no pano e assado durante a tarde inteira sob o fogão à lenha. Ester aprendeu com a mãe, Bertolina Caetano, que lhe repassou os truques da receita antiga. “Faço polvilho e o Polento, meus avós e bisavós faziam, veio deles isso. A gente tem outros costumes, mas nem nota”, comenta ela enquanto alimenta as galinhas do terreno.

Para a agricultora Noeli Pinheiro, a comunidade é feliz apesar das dificuldades. Segundo ela, todos são tranquilos, discretos e muito religiosos. O problema é quando precisam de assistência. O posto de saúde mais próximo fica à 12 km. “São felizes, pessoas simples e muito verdadeiras”, conta. A única movimentação do vilarejo é em direção à propriedade dela, que vende produtos orgânicos e plantas.

Região teve quase 3 mil escravos

No Brasil a abolição demorou.  Os movimentos pela libertação dos escravos, segundo estudiosos e registros históricos, ocorreram a partir de 1850. Na mesma época a Lei Eusébio de Queiroz, a qual impedia tráfico de escravos africanos no país, proporcionou um verdadeiro colapso na renovação da mão de obra. Neste período muitos escravos juntavam dinheiro para comprar a alforria e outros fugiam para os quilombos.

Com as leis avançado, como em 1871, quando uma lei garantia o direito de pecúlio, proibindo fazendeiros de confiscar dinheiro economizado pelos escravos e na Lei do Ventre Livre, que libertava os filhos de escravas nascidos depois da lei, o sistema foi perdendo a força em alguns estados. Assim que assinada, a Lei Áurea, também demorou para chegar em muitas propriedades. Sem ter para onde ir, com falta de trabalho e moradia, mesmo com a lei assinada, muitos ex-escravos optaram por ficar com os senhores.

Acredita-se que o número de escravos em Tijucas e Porto Belo, tenha chegado há quase 3 mil. Pelos dados apresentados por estudiosos, que analisaram os relatórios das autoridades do Arquivo Público do Estado de Santa Catarina (Apesc), somente em Tijucas, em 1872, aproximadamente 1.114 escravos foram mantidos. Cinco anos depois o número caiu para 508. Porto Belo chegou a ter 2.257 escravos em 1856.

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