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Terça-Feira, 20 de Novembro de 2018
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Comunicação nos presídios, do bilhete às ondas de rádio

Nem todo diálogo é criminoso, às vezes é só para confortar a família e espantar a solidão

Fábio Bispo
Florianópolis
Marco Santiago/ND
Pastor lê cartas de diversos lugares. Entre os remetentes ele já leu saudações presos como Neném da Costeira, que está preso no Mato Grosso do Sul, mas que tem familiares em Florianópolis.

 

O patuá corre de mão em mão com sigilo e discrição. Passa de uma galeria para outra, ganha o pátio e chega, finalmente, nas mãos do destinatário. O conteúdo do bilhete pode ser uma simples saudação ou os traços de um plano mirabolante. Tudo grafado em gírias. E esta é apenas uma das formas de comunicação usada dentro dos presídios de Santa Catarina. Ainda tem a troca de códigos com espelhos entre celas; uso de celulares, alguns com acesso a internet e até a participação em programas radiofônicos. No confinamento, qualquer oportunidade de comunicação é valiosa.

Todos os dias, entre as 20h e 21h, boa parte dos cerca de 16.000 presos do Estado estão ligados no programa “A Hora do Presidiário”, que vai ao ar pela rede Record de rádio. Com a voz enérgica de um pregador, o pastor Nereu Amorim media desabafos, saudações e trocas de afetos entre presidiários e o mundo exterior. As cartas chegam via correio, e vêm de todas as partes do sistema prisional. “Pastor, quero mandar um salve para as minas do feminino, para as meninas da cozinha, sem exceção. Um salve para as meninas de Tijucas, especialmente para a Morgana...”, diz a voz no rádio, preenchendo as celas úmidas e frias com as palavras de carinho.

Nereu visita as unidades prisionais da região todos os dias. Ele sabe tudo que acontece dentro do sistema, mas a confiança que adquiriu ao longo dos 14 anos trabalhando é fruto de uma cumplicidade invejável. “Não leio cartas de reclamação, de denúncias ou qualquer outra coisas que não sejam recados de coração para coração”, diz o pastor. O único propósito do programa é confortar a solidão dos que estão presos e tranquilizar aqueles que os aguardam do lado de fora.

O pastor só aceita cartas dos presos. Durante o programa ele as lê e atende telefonemas dos parentes, como o de uma família do interior onde a voz de uma criança de seis anos manda beijos para o tio que está preso. Antes de desligar a mãe da criança diz: “Pastor, ele nunca viu o tio.”.

Celular é preferência

A necessidade de se comunicar no confinamento se torna uma extensão do próprio preso. “Eles têm essa necessidade de se comunicar. Quando as famílias moram longe e não tem como fazer visitas semanais, eles usam o programa para mandar mensagens uns para os outros”, conta o pastor Nereu.

Mas nem toda troca de informação é tida como inocente. Não raro, casos onde detentos usam celulares e até a internet para fazerem negociações criminosas são flagrados nas prisões catarinenses. Por lei, os aparelhos celulares são proibidos nas prisões, mas as fragilidades do sistema acabam permitindo a entrada massiva desses aparelhos.

Desde fevereiro deste ano, o Gaeco (Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado) já prendeu pelo menos quatro carcereiros suspeitos de facilitar fugas e a entrada de objetos nas unidades prisionais de SC. Só no presídio de Joinville foram apreendidos 30 aparelhos de telefones celulares. O que reforça a existência de comunicação massiva na unidade.

O Projeto de Lei 496/11, de autoria do deputado Elizeu Mattos (PMDB) prevê que a instalação de bloqueadores de sinal no sistema penal deve ser feito pelas operadoras. A lei ainda precisa da sanção do governador Raimundo Colombo.

Bloqueador é solução e custa só R$ 15 mil

Para o promotor de Justiça titular, da 3ª Promotoria de Justiça da Comarca de Caçador, Jadson Javel Teixeira, o uso de bloqueadores de celular nos presídios é a solução para o problema. Segundo ele, o uso da tecnologia a favor do Estado defende a sociedade além de se considerada barata. Como exemplo, ele cita o Presídio Regional de Caçador, onde a proposta do Ministério Público de reverter valores obtidos a título de transação penal foram utilizados para compra do sistema de bloqueio de telefonia celular. Desde a implantação dos bloqueadores, em 28/11/11 (estava em período de teste, e recentemente passou a funcionar oficialmente), não foi registrada nenhuma apreensão de aparelho celular, o que antes ocorria rotineiramente.

Em Caçador o MP precisou acumular cerca de 25 transações penais (pagamento de finaça) para implantar o projeto. O próprio gerente do presídio fez o orçamento e por R$ 15 mil o problema dos celulares em Caçador foi resolvido. “Acredito que falta  o Estado dar a devida atenção a esse problema que é fácil de resolver e barato”, declarou o promotor.

O modelo de Caçador também foi implantado pela comarca de Videira e já está em funcionamento na UPA (Unidade Prisional Avançada). Via de regra, nenhuma outra unidade possui equipamento semelhante. O Deap não divulgou se existem projetos neste sentido.

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Serviço: Hora do Presidiário vai ao ar todos os dias pela Rádio Record (1470 AM) e pela Rádio Aleluia (93,5 FM).

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