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Combatendo as fake news: verificar a informação com fontes confiáveis é o primeiro passo

Entenda como as notícias falsas se disseminam nas redes sociais e o que pode ser feito para ter acesso a informações legítimas

Alexandre Gonçalves (Especial para o Notícias do Dia)
Florianópolis
28/03/2018 às 23H02

Para José Vitor Lopes, advogado especializado em direito digital da Lopes&Philippi Advogados, o perfil dos usuários de WhatsApp é mais suscetível ao compartilhamento de fake news por causa da diferença na forma de acesso à internet em computadores e em celulares. “O hábito de navegação no computador favorece a leitura do conteúdo e a navegação por links que podem levar à descoberta da inveracidade do conteúdo”, diz. Como nem todas as páginas possuem versão otimizada para celular, isso leva ao hábito de pouco ler e muito compartilhar, especialmente quando a mensagem é recebida de uma fonte considerada confiável pela proximidade, por exemplo.

Nem todas as páginas possuem versão otimizada para celular - Agência Brasil/Divulgação/ND
Nem todas as páginas possuem versão otimizada para celular - Agência Brasil/Divulgação/ND


“Quando as fake news chegam às redes sociais, já passaram pela publicação nos sites/blogs”, diz a professora da pós-graduação da Estácio, de São José, e consultora especializada em marketing digital, Luciana Manfroi. “Como há fábricas de criação de notícias falsas espalhadas pelo mundo, há uma cadeia a ser seguida até o objetivo final, que é o de que repercuta nas redes sociais, causando a viralização”. Segundo ela, o Facebook, com mais de dois bilhões de usuários no mundo, é a rede social em que se encontram muitos usuários de todas as idades. “Ele é o grande circo que tem diversas atrações, uma Torre de Babel, onde há de tudo”, afirma Luciana. “E onde cabe tudo, entram os boatos também”.

Além disso, na avaliação da consultora, o Facebook tem um público mais idoso, que muitas vezes não produz conteúdo, mas compartilha muito, e sem checar as fontes. Mas, o WhatsApp ainda é o pior local para controle, conta Luciana, porque uma vez repassada a notícia lá, não há mais controle do remetente. “E principalmente quem faz campanha profissional de fake news via WhatsApp não envia a mensagem um a um, mas contrata empresas e dispara a mensagem em massa”, completa.

“É preciso educar as pessoas para que busquem fontes oficiais e curadores compromissados com a ética e a verdade. E também é preciso um trabalho com mais qualidade de quem seria o principal responsável pela circulação de informações verdadeiras na sociedade: os jornais” - Raquel Recuero, professora, pesquisadora e especialista em mídias sociais da Universidade Federal de Pelotas (RS)

As características técnicas de redes sociais como o Facebook contribuem para a propagação das fake news, como analisa José Vitor Lopes. “Os usuários acreditam que as postagens que lhe são exibidas refletem exata e cronologicamente as publicações das pessoas e marcas que eles seguem”, diz. “Mas as aplicações de redes sociais é que definem o que é conteúdo relevante para cada usuário e a manipulação dos critérios de avaliação de relevância permite a propagação de conteúdos falsos ou cujas premissas não permitem ao leitor formar juízo completo sobre o assunto”, explica Lopes. Para ele, o volume de fake news semelhantes desestimula o leitor a buscar fontes de contra argumentos.

Saídas

O fantasma das fake news assusta, mas há saídas para, ao menos, amenizar seus efeitos. Tudo começa pelos próprios usuários das redes sociais, peças-chave na tarefa de reduzir o alcance das notícias falsas. Quem usa redes sociais como Facebook ou Twitter ou se comunica com aplicativos como WhatsApp precisa compreender que é preciso buscar notícias de fontes conhecidas e com compromisso com a verdade. “É preciso educar as pessoas para que busquem fontes oficiais e curadores compromissados com a ética e a verdade”, ensina a professora, pesquisadora e especialista em mídias sociais da Universidade Federal de Pelotas, Raquel Recuero. “E também é preciso um trabalho com mais qualidade de quem seria o principal responsável pela circulação de informações verdadeiras na sociedade: os jornais”.

A busca por fontes oficiais é uma forma de combater as fake news - EBC/Divulgação/ND
A busca por fontes oficiais é uma forma de combater as fake news - EBC/Divulgação/ND


Desconfie e cheque é o que recomenda a professora da pós-graduação da Estácio, de São José, e consultora especializada em marketing digital, Luciana Manfroi. “A melhor prática é desconfiar de fontes que não sejam seguras”, diz. Para isso, caso desconfie, Luciana indica que o melhor é buscar no Google se a notícia está sendo comentada por fontes seguras. “Lembre-se que mesmo o melhor amigo, aquele em quem se confia, não está livre de cometer uma publicação de notícia falsa, pelo afã, pelo impulso”.

O comportamento dos usuários das redes sociais contribui para a propagação das redes sociais. Luciana compara a um playground. “É uma festa, são todos a mídia, são todos entusiasmados com tanta informação”. O meio para se resolver isso é garimpar as fontes seguras para ver se estão publicando a notícia duvidosa.

“Lembre-se que mesmo o melhor amigo, aquele em quem se confia, não está livre de cometer uma publicação de notícia falsa, pelo afã, pelo impulso” - Luciana Manfroi, professora da pós-graduação da Estácio, de São José, e consultora especializada em marketing digital

Exemplo de quem desceu para o “play” sem saber como evitar a propagação de conteúdo falso ocorreu em Florianópolis recentemente, envolvendo as pontes Pedro Ivo e Colombo Salles. Da primeira vez, em 2015, a foto de uma rachadura na ponte Rio-Niterói circulou no Facebook como sendo da Colombo Salles. E em fevereiro deste ano, fotos antigas das pontes vistas de baixo (feitas em 2011 pelo fotógrafo do ND, Daniel Queiroz) foram compartilhadas com legendas indignadas com o estado de preservação das estruturas. Mas no meio das fotos antigas das pontes foi compartilhada uma foto do hipódromo de Roma. E muitos usuários pagaram “mico” com posts indignados com a imagem, que na verdade era da capital italiana e não de Florianópolis. Uma busca no Google Imagens evitaria a gafe (veja box).

Uma maneira de confirmar a veracidade de uma imagem é procurar no Google Imagens - Reprodução/ND
Uma maneira de confirmar a veracidade de uma imagem é procurar no Google Imagens - Reprodução/ND

Ações de combate

Recorrer a sites com o E-farsas e Boatos.org é outra opção recorrente. Mas o caminho para conter o avanço das fake news, diz o advogado José Vitor Lopes, inclui ações de longo e de curto prazo. A longo prazo ele cita campanhas de conscientização para uso seguro e responsável da internet com base nas obrigações já existentes no Marco Civil da Internet e na missão do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). “As empresas devem participar, trabalhando para educar os usuários quanto às boas práticas para uso das próprias aplicações”, diz.

“As empresas devem participar, trabalhando para educar os usuários quanto às boas práticas para uso das próprias aplicações” - José Vitor Lopes, advogado

Já a curto prazo, na avaliação de Lopes, é necessário aproximar o judiciário, o Comitê Gestor da Internet  e empresas de mídia para permitir reação rápida na remoção de páginas e conteúdos. Neste caso, explica o advogado, eventualmente, provedores de conexão (administradores de sistemas autônomos) poderão ser demandados a bloquear o acesso a conteúdos cujo endereço e hospedagem estejam fora do alcance da legislação nacional.

Legalmente, conta José Vitor, a legislação brasileira já alcança as hipóteses necessárias para apuração e punição da fake news uma vez que tanto as questões indenizatórios podem ser apuradas pelas atuais disposições do código civil quanto os reflexos na esfera criminal já são abrangidos pelo código penal. De acordo com ele, no entanto, ainda é necessário um maior entendimento do Judiciário quanto à capacidade técnica das empresas em fornecer os dados que efetivamente coletam.

O criador de fake news, na esfera civil, pode ser condenado a ressarcir pelos prejuízos que causar, podendo também cumprir penas privativas de liberdade. Quem compartilha uma notícia falsa também está sujeito a sofrer punições dependendo dos seus atos. Se escrever algo junto com o link da notícia falsa, por exemplo. “Tudo vai depender de quão consciente era a pessoa quanto a veracidade do conteúdo da mensagem e o potencial danoso de sua replicação”, diz. “Tanto a indenização na esfera civil quanto a apuração dos crimes de opinião na esfera penal (calúnia, injúria e difamação) devem ser medidas pela extensão proporcional dos prejuízos que deu origem, vontade do agente (dolo ou culpa) e o resultado que buscava”, explica José Vitor Lopes.

Barreiras no combate

Uma barreira para o combate das fake news é a dificuldade para identificação dos seus autores, somada às funcionalidades disponíveis para a propagação do conteúdo, como compartilhar e curtir. Por mais que o Facebook demonstre interesse no combate às fake news, como o recém-lançado projeto Fátima, em parceria com a agência de checagem Aos Fatos, na prática, ainda há um longo caminho a ser percorrido. A avaliação é de José Vitor Lopes. “O Facebook não cumpre minimamente as leis que permitiriam às vítimas de fake news a rápida remoção de conteúdo e identificação dos ofensores”, diz.

Um exemplo disso são arquivos de áudio e vídeo compartilhados no WhatsApp e utilizados como fonte de notícias no Facebook. “A forma com que tais arquivos são indexados nas bases de dados das aplicações do Facebook permite traçar o caminho inverso dos compartilhamentos para determinar o usuário que primeiro os publicou”.

O advogado conta ainda que Facebook possui funcionalidades de denúncia de conteúdo ofensivo aos contratos de uso da aplicação, tendo mais recentemente lançado consulta aos usuários quanto às suas fontes confiáveis e opiniões sobre determinados sites. “Lamentavelmente tais funcionalidades não alcançam o objetivo necessário à mitigação dos prejuízos com fake news e outras publicações ofensivas”, conclui Lopes.

Passo a passo para descobrir  veracidade de uma foto

Não é de hoje que a regra deveria ser investigar toda imagem que aparece nas redes sociais antes de sair compartilhando ou, pior, publicando notícia a respeito. Uma busca no Google Imagens já serviria para tirar qualquer dúvida. E é simples de fazer. 

1 – Clique o mouse direito sobre a imagem; 

2 – Copie o endereço da imagem;

3 – Depois, acesse o Google Imagens;

4 – Clique no ícone “câmera”;

5 – Cole o link do endereço de imagem no campo e clique em Pesquisar Imagem;

6 – Será aberta a página com os resultados, mostrando onde a imagem/foto foi publicada (no caso da foto italiana, os resultados mostram fontes variadas sobre o assunto).

Fonte: Primeiro Digital

Na próxima reportagem da série: Fake news, eleições e jornalismo

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