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Domingo, 17 de Fevereiro de 2019
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Com doença genética, professora de Florianópolis pedala pela vida

Ana Destri controla obstrução de artéria carótida com o auxílio de exercícios físicos

Leonardo Thomé
Florianópolis

O que para muitos seria uma limitação, para Ana foi um empurrão. O que faria outros fraquejar, lhe deu doses extras de determinação. Em 2012, Ana Destri, professora de educação física na rede municipal de ensino de Florianópolis, descobriu que sofria de uma doença genética que provoca o crescimento de uma placa de gordura que obstrui a artéria carótida, que liga o coração ao cérebro. Sem essa circulação, são grandes as possibilidades de um ataque cardíaco ou AVC (acidente vascular cerebral). Abalada, ao receber o diagnóstico não se conformava com seu resultado. “Eu fazia tudo certo e, mesmo assim, me aparece um problema dessa gravidade”, contou.

Divulgação
 Ana transformou o tratamento em algo prazeroso


Mas o choque inicial foi substituído por uma dieta balanceada e mais exercícios, uma vez que já praticava corrida e muay thai. Apostou com o médico que conseguiria reduzir a placa de gordura unindo medicamentos e atividades físicas e se alimentando melhor. Ana transformou o tratamento em algo prazeroso e, de quebra, encontrou uma de suas maiores paixões: pedalar. Por ser um exercício aeróbico, que usa o oxigênio no processo de geração de energia, a bicicleta estimula a frequência cardíaca e o músculo do coração, melhorando a capacidade cardiopulmonar e cardiovascular.

A partir daí, a doença começou a ficar para trás e, de pedalada em pedalada, Ana também superou o medo do trânsito e passou colecionar vitórias pessoais. Como quando ganhou a primeira bicicleta em que enfim pode chamar de sua. (quando jovem, tinha que dividir uma com os irmãos). Batizou o veículo de Bik’Ana.  

Começou se aventurando pelo seu bairro, e aos poucos foi expandindo seus horizontes.  Superou o medo do trânsito e conseguiu atravessar a Ponte Pedro Ivo Campos pedalando. “Naquele momento, eu não encarava o trânsito como algo muito perigoso, pois eu fazia parte dele”, relatou.

Economizando tempo e unindo a família

Hoje, aos 50 anos, Ana trabalha em duas unidades: na Creche Celso Ramos, no Centro, e no Núcleo de Educação Infantil Nagib Jabor (NEI), no Estreito. De bicicleta, leva 15 minutos para chegar até a creche. De carro, levaria 45 minutos. Até o NEI, passa nove minutos em cima da bike, quando levaria 20 de automóvel.

A família foi contagiada e acabou entrando nesse universo. Seu marido, João Destri, 49 anos, vai pedalando para o trabalho, na Agronômica, totalizando oito quilômetros. “Pouco depois de Ana ter começado a pedalar, meu médico me indicou que eu também realizasse atividades físicas. Então embarquei nessa com ela”, disse João.

Mariana, de 29 anos, aceitou a proposta da mãe de receber uma bicicleta de presente em seu aniversário. Giovanna, a filha mais nova, de 18 anos, está dando suas primeiras pedaladas com a Ana em pequenos trajetos, pois ainda se sente insegura para enfrentar as ruas da Capital. A família queima calorias e fortalece as pernas e o abdômen.

‘Você mora longe?’, ‘É perigoso?’

Em 2013, Ana dava aulas na Escola Desdobrada Municipal José Jacinto Cardoso, na Serrinha. No primeiro dia, foi até o trabalho de bicicleta e a Bik’Ana se tornou atração no intervalo. A criançada ficou curiosa com a professora que se deslocou até a unidade pedalando e a encheu de perguntas. “Você mora longe?”, “Atravessa a ponte de bicicleta?” e “É perigoso?” foram algumas das indagações.

O interesse das crianças foi tanto que isso se tornou um projeto da unidade. No começo, foi trabalhada em sala de aula a história da bicicleta. Logo, chegaram à questão da mobilidade urbana, já que na comunidade não há calçadas e o trajeto até a escola é complicado.

Assim, nasceu na José Jacinto Cardoso o projeto Bicicleta na Escola, que tem como objetivo principal aguçar o senso crítico quanto às questões de mobilidade, assegurando o direito de ir e vir de todos. “Quando pedalo, observo tudo e todos. A rua é de todos e vejo cada vez mais gente utilizando a bicicleta para se deslocar. Buscamos auxiliar, nessa transição de brinquedo para meio de transporte, dando as orientações necessárias.”, informou Ana.

Em 2014, a educadora levou a ideia até a Gerência de Programas Suplementares da Secretaria de Educação, com a intenção de torná-la realidade em outras unidades da rede. O projeto foi aceito e, desde então, Ana coordena a iniciativa voluntariamente, com formação de semeadores do projeto, visitas a unidades e participando de eventos. Nove unidades municipais e uma estadual aderiram ao movimento.

Projeto tipo exportação

A ideia de Ana poderá ser adotada em outras regiões do país. A professora foi requisitada e já repassou informações do projeto às cidades de São Paulo, Santa Bárbara d’Oeste (SP), Balneário Camboriú (SC), Rio de Janeiro e Niterói (RJ). 

Quando inserida no mundo dos ciclistas, Ana teve vontade de ajudar as pessoas a andarem de bicicleta no trânsito. Logo em seguida, conheceu o Bike Anjo, voluntários de Florianópolis que realizam este trabalho. Pouco tempo depois, ela se tornou membro do grupo.

A turma dá assistência e indica os melhores trajetos para se fazer, acompanha o ciclista iniciante em suas primeiras pedaladas e ensina manutenção básica da bicicleta e medidas de segurança no trânsito. O serviço é gratuito. Mais informações podem ser encontradas no site:www.bikeanjofloripa.com.

Mensalmente, é promovida a Escola Bike Anjo, uma oficina para quem quer aprender a pedalar e receber orientações. O evento é gratuito e ocorre na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

 

 

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