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Com apoio de comerciantes, campanha #FloripaLivredePlástico quer conscientizar a população

Lançada no dia 12 de julho, a campanha surgiu após uma série de ações, como mutirões de limpeza de praias e até a produção de um documentário

Cristiano Rigo Dalcin
Florianópolis
27/07/2018 às 22H52

Cantada em verso e prosa por suas belezas naturais, Florianópolis está sendo pioneira no Brasil no combate a um dos principais inimigos da natureza, o plástico. Com adesão de comerciantes, a campanha #FloripaLivredePlástico tem como primeiro objetivo conscientizar e empoderar a população em relação aos impactos do consumo e descarte incorreto de plásticos de uso único, os descartáveis.

Lançada no dia 12 de julho, a campanha surgiu após uma série de ações como mutirões de limpeza de praias e até a produção de um documentário (Uma Gota.doc). “Sentimos a necessidade de fazer uma campanha de empoderamento do cidadão, para criar uma consciência sobre a utilização desses produtos que são extremamente nocivos ao meio ambiente”, explica Marcio Gerba, co-fundador da Route Brasil, ONG que organiza a campanha.

Marcio Gerba, co-fundador da Route Brasil, ONG que organiza a campanha #FloripaLivredePlástico - Flávio Tin/ND
Marcio Gerba, co-fundador da Route Brasil, ONG que organiza a campanha #FloripaLivredePlástico - Flávio Tin/ND


A campanha viralizou nas redes sociais com apoio de simpatizantes e ativistas e ganhou respaldo da comunidade com a adesão de comerciantes e empresários do setor de alimentação. Eles têm se mostrado abertos a modificar processos internos nos estabelecimentos para evitar a utilização de produtos descartáveis, como canudos, copos plásticos, sacolas plásticas e garrafas pet. Soluções de praticidade para uma rotina atribulada, hoje, esses produtos são protagonistas da poluição dos mares. “De tudo que polui o mar, 70% é plástico descartado pelo homem”, afirma Gerba.

Com a campanha, os organizadores esperam construir uma consciência “de baixo para cima”, capaz de inverter a lógica imediatista da população, sem proibições ou aplicação de multas, já que o lobby da indústria pode rechaçar qualquer proposta de criação de leis para banimento dos produtos. Estão previstas também três ações de limpeza nas praias, e na sequência, uma intervenção urbana no Centro, com a presença de artistas, ambientalistas e surfistas que apresentarão o lixo coletado nas praias.

Para direcionar o consumidor, a campanha terá o reforço tecnológico de um aplicativo desenvolvido pelo curso de oceanografia da UFSC, que será lançado terça-feira (31), na Câmara de Vereadores. “O aplicativo vai mapear os estabelecimentos que aderiram à campanha e apontará em percentual o quanto aquele estabelecimento está livre do plástico”, informa Gerba.

Logística reversa pode ganhar força

A mudança de comportamento da população proposta pela campanha #FloripaLivredePlástico pode fazer com que a linha produtiva de algumas indústrias volte a ser como era no passado. É o caso, por exemplo, das indústrias fabricantes de refrigerantes, que ganharam comodidade e menos custos com a introdução das garrafas pet, pois o caminhão não precisa mais recolher os cascos de vidro, economizando em logística e combustível.

Para isso, é preciso garantir a aplicação das leis federal e municipal que já exigem a chamada logística reversa, um conceito introduzido pela legislação ambiental. Ou seja, é a implantação de ações destinadas a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento ou destinação final ambientalmente adequada. 

Do outro lado, a indústria alega que o processo poderá aumentar custos, encarecendo os produtos, o que pode ser impeditivo e arrefecer a pressão feita pela sociedade. “Porém, quando diminuiu o custo, o produto não barateou. A sociedade pagou essa conta com a coleta seletiva, mas deveria ser pago por eles que economizaram muito com a introdução das garrafas pet. Foram quase duas décadas e agora chegou a conta”, ressalta Marcio Gerba.

Diante do impasse, a indústria também tem encontrado brechas na legislação para manter os processos. No Rio de Janeiro, onde o consumo de canudos plásticos foi banido, uma indústria começou a produzir canudos oxi-biodegradáveis, embalados em papel reciclado com a inscrição “biodegradável”.  Essa identificação do papel pode confundir os comerciantes que acham que estão adquirindo um produto sustentável. “Eles só estão mudando a máquina do polímero para o oxi-biodegradável, que é pior do que o plástico, pois fragmenta, mas não some, e os animais comem”, diz. 

Legislativo abre espaço para debate

A Câmara de Vereadores de Florianópolis está engajada na campanha através da Frente Parlamentar de Combate ao Lixo no Mar. Nesta terça-feira (31), às 14h, a campanha será lançada com a presença de um representante da ONU, que lançou em 2017 a campanha mundial Mares Limpos.

“Nosso objetivo é fazer com que o município assuma o acordo com a ONU para combater a utilização do plástico”, destaca o vereador Pedro Silvestre, da Frente Parlamentar. O grupo ainda conta com a participação dos vereadores Maria da Graça Dutra (MDB), Vanderlei Farias (PDT), Afrânio Boppré (PSOL), Lino Peres (PT), Marquito (PSOL), Marcelo de Oliveira (PP) e Maikon Costa (PSDB). 

As políticas públicas devem começar a ser propostas a partir de 2019, mas a Frente Parlamentar já iniciou diálogo para encontrar soluções. Uma dessas discussões tenta alterar uma lei municipal aprovada em 2008 sobre a utilização do plástico oxi-biodegradável, que decompõe mais rápido que o plástico normal e era visto como solução. “Porém, sumia aos nossos olhos, mas continuava presente como micropartículas”, diz Silvestre.

A alternativa seria banir a utilização de sacolas de plástico oxi-biodegradável no prazo de dois anos e a introdução de sacolas passíveis de compostagem, que podem ser usadas para o lixo orgânico, pois se desintegram em duas a três semanas em condições ideais de temperatura e umidade. Outra das propostas é a implantação da lei dos bueiros inteligentes, para fazer a substituição gradual das atuais bocas-de-lobo, que são vazadas.

A proposta está em tramitação na Câmara. Um ciclo de palestras semanais nas escolas da rede municipal, com a promoção de gincanas de artes também está prevista para conscientizar as novas gerações.

Mudança traz resultados a longo prazo

Em busca da meta lixo zero, o empresário Rodrigo Bungus Ferreira, 50 anos, começou a modificar os processos do restaurante Puerto Escondido Kioske Mexicano, inaugurado há quase sete anos. Biólogo de formação, ele encontrou uma séries de dificuldades, principalmente com fornecedores, mas não se arrepende da atitude e tem recebido elogios e reconhecimento dos clientes no estabelecimento localizado no bairro de Coqueiros. 

Rodrigo deixou de comprar sacolas plásticas e utiliza embalagens de papel reciclado - Flávio Tin/ND
Rodrigo deixou de comprar sacolas plásticas e utiliza embalagens de papel reciclado - Flávio Tin/ND


“O imediatismo fecha a visão, mas se pensares a longo prazo, o negócio fica infinitamente mais rentável. Toda mudança de processo custa um pouco mais no início, mas esse investimento se diluiu com o tempo ”, explica Ferreira, que está há três anos sem comprar sacolas plásticas desde que passou a utilizar embalagens confeccionadas com papel reciclado. O empresário também não vende mais garrafas pet com água sem gás e estuda abolir a água com gás, se não conseguir introduzir um processo que gaseifica a água. Assim, o cliente tem a opção de pagar R$ 1,50 pelo copo de água e pode reabastecer quantas vezes quiser através de um galão de 20 litros.

Já os canudos foram abolidos em maio deste ano. “Tenho apenas três canudos de inox para, se precisar, serem utilizados por pessoas com algum tipo de deficiência”, justifica. A maior dificuldade mesmo foi encontrar produtos ecologicamente corretos para substituir as embalagens plásticas utilizadas no delivery, opção que, em dia de chuva, chega a responder por 50% das vendas do restaurante.

O empresário só não conseguiu ainda substituir o pote de 100 ml, usado para acondicionar molhos. “Já pesquisei e a linha de produção das empresas fabricantes é pequena e não há muitas opções. Quem sabe essa mudança de paradigma proposta pela campanha altere essa percepção das empresas”, comenta.

A meta do lixo zero permanece e Ferreira pretende alcançá-la em um período de dois anos. “Os desafios para quem se compromete com essa causa ainda são grandes, mas as recompensas são ainda maiores, com a nossa satisfação e a dos clientes, e que não tem preço”, avisa.

Embalagem fideliza cliente

Idealizado com a proposta de gerar o mínimo possível de resíduos sólidos, o restaurante Origem Natural é um exemplo de como é possível empreender sem a utilização de canudos, copos plásticos e outros produtos de único uso. Mais do que isso, a proposta encontrou um caminho para gerar a fidelização de clientes através da devolução de embalagens.

Com três sócios, o restaurante localizado no bairro Santa Mônica utiliza pratos de vidro ao invés de embalagens plásticas para a opção delivery. “Oferecemos o desconto de R$ 1 para o cliente que devolver o vidro na próxima compra. Já teve cliente que chegou aqui com 30 pratos e ganhou R$ 30 de desconto”, conta Joana Wosgraus, sócia de Arthur Ferreira e Alexandra Lemos, no restaurante que completa um ano de atividade em agosto.

Arthur, Joana e Alessandra (à dir.), sócios de um restaurante que propõe gerar o mínino possível de resíduos sólidos - Flávio Tin/ND
Arthur, Joana e Alessandra (à dir.), sócios de um restaurante que propõe gerar o mínino possível de resíduos sólidos - Flávio Tin/ND


De acordo com Joana, o desafio maior foi trabalhar essa lógica com os fornecedores, mas a proposta tem avançado além dos limites físicos do restaurante. “Aos poucos, o pessoal está aderindo. Graças a Deus moramos em uma cidade em que as pessoas são muito abertas a esse tipo de visão”, diz.  

O tofu, por exemplo, que antes era entregue pelo fornecedor em sacos plásticos, passou a ser acondicionado em uma embalagem retornável (tupperware). Até o papel filme, muito utilizado em qualquer cozinha, foi substituído pela embalagem de silicone, reutilizável após ser lavada. Os cogumelos, por sua fragilidade, ainda são entregues em caixas de isopor, mas estão na mira dos sócios.

As substituições das embalagens não impactam em maior consumo de água. “Não afeta de forma alguma. É mais uma embalagem que entra no ciclo de lavagem do restaurante”, garante a empresária.

Os clientes também ficam satisfeitos ao descobrirem, por exemplo, que o talher é feito de bagaço de cana e 100% biodegradável, pois é facilmente confundido com plástico, embora seja mais resistente. “Todo mundo acha incrível. É possível termos um mundo melhor”, completa.

Restaurante usa talheres feitos de bagaço de cana e canudo de inox - Flávio Tin/ND
Restaurante usa talheres feitos de bagaço de cana e canudo de inox - Flávio Tin/ND


Prejuízos ao meio ambiente

  • Os canudos plásticos demoram 10 segundos pra serem fabricados e levam até 500 anos pra se decompor
  • 1 milhão de garrafas de plástico são compradas a cada minuto no mundo
  • 500 bilhões de sacolas plásticas descartáveis são usadas todos os anos
  • 51 trilhões de partículas de microplásticos já estão nos oceanos
  • 17 milhões de barris de petróleo são usados para produzir garrafas plásticas todos os anos
  • 8 milhões de toneladas de lixo plástico vão parar nos mares anualmente
  • 99% das aves marinhas terão ingerido plástico até 2050
  • 71 milhões de toneladas de lixo foram produzidas no Brasil e 7 milhões de toneladas não foram coletadas. Do lixo coletado, 13% era lixo plástico, só apenas 15% foi reciclado.
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