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Domingo, 23 de Setembro de 2018
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Colóquio na UFSC debate mudanças estruturais no jornalismo

Em conversa com o ND, quatro estudiosos expuseram seus pontos de vista sobre o momento da profissão e prática no Brasil e no mundo

Rafael Thomé
Florianópolis

 “Jornalismo é uma prática social que se transforma”. A definição de Fábio Pereira, professor da UNB (Universidade de Brasília) e um dos palestrantes do 3º Colóquio Internacional Mudanças Estruturais no Jornalismo – Mejor 2015 –, nessa semana, na UFSC, ilustra o constante processo de aperfeiçoamento da profissão frente às transformações do mundo em que vivemos. O encontro acontece a cada dois anos e reúne jornalistas e acadêmicos de diferentes países para debater os rumos da comunicação.

Francisco Karan, coordenador do colóquio e do curso de pós-graduação em jornalismo da UFSC, pontua que “as mudanças estruturais afetam diretamente a alma jornalística, que seria a reportagem”. No centro deste debate está o advento das redes sociais e a crise de credibilidade pela qual a profissão atravessa.

“[Na internet] há um conjunto de informações que são produzidas a partir de relatos muito pessoais, mas muito distante do ‘contrato social’ definido por Jean-Jacque Rousseau, que é prestar determinado serviço com apuração rigorosa vinculada ao campo de interesse público”, completa Karan. Em conversa com o ND, quatro acadêmicos expuseram seus pontos de vista sobre o momento do jornalismo no Brasil e no mundo.

 

Flávio Tin/ND

Fábio Pereira, jornalista e professor da UNB, escreveu, entre outros livros, ‘Práticas Socioculturais e Discurso: Debates Transdisciplinares’. Parte de sua pesquisa acadêmica é voltada para as relações entre jornalismo e redes sociais, um dos temas discutidos no colóquio.

“As redes sociais não trouxeram, necessariamente, uma forma nova de comunicação. É muito mais um espaço para dar visibilidade a conversas e formas de trocas que existiam em espaços privados e que, agora, está [na esfera] pública. Isso, do ponto de vista do jornalista, assusta, mas não acho que isso vá tomar o lugar do jornalismo, porque não é uma prática profissional regular de produção e transmissão da informação.

“A sociedade precisa de informação e esse papel de mediação nunca foi tão importante. Na hora em que o indivíduo quer confirmar a veracidade de uma notícia, não vai para as redes sociais, vai para sites jornalísticos. O jornalismo é uma prática social que nasce em um contexto específico e se transforma ao longo do tempo, na medida em que a sociedade se transforma. No fundo, o grande problema do jornalismo é que nos colocamos à frente do interesse público. Em algum momento, temos que tentar ir ao encontro do que esse público pensa.”

 

Flávio Tin/ND

Marie-Soleil Frère, professora da Universidade Livre de Bruxelas (Bélgica), suas pesquisas se concentram sobre a mídia francófona da África subsaariana, onde, assim como o Brasil, há reprodução de estereótipos das classes sociais menos favorecidas.

“Se você constantemente insistir na idéia de que a população pobre, jovem e negra está envolvida em crimes, você estará reforçando uma imagem que, nem sempre, condiz com a realidade. É importante é tentar mostrar o outro lado da história. Na África do Sul, após o fim do apartheid, quando Nelson Mandela foi eleito presidente, houve um debate em que alguns jornalistas diziam que eles precisavam de um novo tipo de jornalismo, que insistisse na reconciliação, mostrando para a população branca o lado bom da população negra e vice-versa.

“Parte dos veículos de mídia dizia que não queria mudar o modo de trabalho, porque não acreditava em jornalismo de conciliação. Por outro lado, outra parte dos jornalistas estava realmente convencida de que a mídia poderia cumprir um papel de incentivo ao entendimento entre as pessoas. Com certeza, isso merece um debate: ver como nós retratamos essa parcela da população e como nós podemos mostrar uma imagem melhor.”

 

Flávio Tin/ND

Fernando Paulino, professor da UNB e ex-ouvidor das rádios da EBC (Empresa Brasil de Comunicação), defendeu tese de doutorado em 2008 na área de responsabilidade social da mídia, tema que abordou em sua conversa com o ND.

“Tem havido certa dessacralização do jornalismo. Antigamente, muitas pessoas procuravam os veículos de comunicação, porque, possivelmente, eram um dos únicos canais para evadir suas angústias e necessidades. Hoje em dia, existem outras formas. As tecnologias têm possibilitado um tipo de visão [sobre a imprensa], às vezes satírica, às vezes crítica, que começou a ganhar mais forma após aquela coisa da ‘dança do siri’, das pessoas interagirem numa situação muito diferente do que era antes.

“A posição que as emissoras de TV e rádio, e mesmo os jornais, ocupam hoje é muito diferente do  era antes. Como recuperar esse prestígio? Estabelecendo cada vez mais diálogo com a sociedade e demonstrando ao público como o jornalismo se organiza, como a sociedade se estabelece, como a comunicação funciona e qual a relevância do trabalho que a gente desenvolve. Quanto mais diálogo tivermos, melhor para os veículos de comunicação e para a sociedade como um todo.”

 

Flávio Tin/ND

Madalena Oliveira, professora da Universidade do Minho (Portugal), se especializou no estudo dos metadiscursos sobre o jornalismo. No colóquio, conversou sobre a maneira que os profissionais podem transmitir notícias com credibilidade e seriedade.

“Uma das coisas que refletimos durante esse evento é que os jornalistas exigem a transparência de todos, mas são muito pouco transparentes relativamente a si próprios. Quando falo sobre a questão de também fazer do jornalismo e dos jornalistas material de interesse informativo, falo precisamente dessa necessidade de explicar às pessoas como é que se faz, qual a importância da informação. Dessa forma, é possível conquistar a confiança do público, que é algo que se tem perdido.

“Quando o jornalista relata casos em que o sigilo da fonte, por exemplo, foi o tema principal das suas preocupações e dos seus procedimentos profissionais, está, de certa forma, preparando o público para entender o que é isso e quais são suas implicações. É importante haver um espaço onde se possa explicar o por quê é preciso respeitar o sigilo da fonte, porque isso contribui para ‘desocultar’ as práticas jornalísticas e para que o cidadão compreenda o que está por trás da informação que recebe.”

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