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Quarta-Feira, 19 de Setembro de 2018
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Clube da Carta: entre e-mails e mensagens de WhatsApp, grupo se corresponde à moda antiga

Ao entrar no grupo, o iniciante deve escrever aos veteranos e se apresenta detalhando seus gostos e características pessoais

Alessandra Oliveira
Florianópolis

O gosto por cartas surgiu durante uma atividade escolar, no ensino fundamental. A prática, mantida por alguns meses caiu no esquecimento ao fim do ano letivo. Anos mais tarde, já na universidade, a estudante Adrielly Cavalheiro, 19 anos, soube por meio de um blog, da existência de um grupo de pessoas de diversos pontos do Brasil que, embora não se conhecessem, se correspondiam utilizando o serviço dos Correios. O grupo era fechado, com vagas limitadas. Foi preciso esperar a desistência de um membro para que a moradora de Florianópolis pudesse fazer parte do “Clube da Carta”.

Ao entrar no grupo, o iniciante deve escrever aos veteranos e se apresenta detalhando seus gostos e características pessoais. Lógico que Adrielly falou sobre signos, filmes, livros e músicas. Também relatou sua experiência como bailarina na Escola Bolshoi, em Joinville, cidade onde nasceu e viveu até os 18 anos, quando se mudou para Capital para cursar biblioteconomia na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Como se referindo a uma amiga de infância, a estudante assegura que a afinidade com algumas moças e senhoras do Clube cresce a cada nova abertura de envelope. “É semelhante a uma amizade tradicional, a intimidade aumenta na medida em que encontramos gostos parecidos aos nossos. A confiança chega ao ponto de não haver mais segredos”, detalha a jovem, que há dois anos acumula quase uma centena de cartas de pessoas com as quais nunca se encontrou pessoalmente.

Flávio Tin/ND
Adrielly mora em Florianópolis e se comunica por cartas com amigas que nunca viu de vários Estados do país

  

Pelo menos quatro homens compõem o grupo de pessoas entre 18 e 60 anos. Os endereços são disponibilizados em uma rede social, mas os participantes evitam contatos virtuais até para terem assunto para as cartas. O espaço digital é também ferramenta utilizada para o sorteio do amigo secreto de Natal. Em 2014, o sorteado de Adrielly pediu exemplares de jornais de Santa Catarina. Nas demais postagens via correio tradicional os envelopes levam e trazem fotos impressas, cartões postais, origamis e lembrancinhas. Em datas especiais, o capricho com as correspondências é ainda maior. As cartas podem ser de papel reciclado pelo próprio autor, ou receber detalhes como colagens, poemas ou desenhos.

 

 

“Existe uma magia em esperar pela correspondência, em aguardar para ler as respostas às perguntas que fiz na última carta. Aquece minha alma descer os olhos pelas linhas da folha e saber sobre a casa nova, a mudança de emprego, a cura da doença, as viagens. As frustrações também são divididas, fazem parte. Quando há reciprocidade os laços afetivos vencem a distância imposta pelo mapa”, observa entre sorrisos  a jovem que desenha uma nuvem e registra a temperatura local ao lado da data cada vez que começa uma nova carta. “Se tudo der certo, em janeiro irei ao Nordeste para conhecer a Kal e participar de seu casamento”, diz, ao se referir a uma de suas melhores amigas do Clube.

Divulgação/ND
Thaís Ribeiro, da Bahia,é uma das administradoras do Clube da Carta 

 

Duzentas cartas em três anos

Muitas das cartas escritas por Adrielly têm como destino a caixa de correios da estudante de psicologia Thaís Ribeiro, 21. A jovem baiana é uma das administradoras do clube. O grupo tem atualmente 43 membros, sendo que apenas quatro são homens. Com pelo menos 35 destas pessoas a moradora de Santo Antônio de Jesus (BA) se corresponde com maior frequência. “Nos últimos três anos enviei mais de 200 cartas e recebi outras 150. Compartilhei alegrias, prestei e recebi apoio em momentos difíceis. Não somos estranhos e sim uma família que troca conselhos e dá ‘puxões de orelha’”, garante Thaís.

 A universitária lembra que as primeiras cartas, exigem cautela. Por essa razão os textos são menos particulares e mais genéricos. Como nos relacionamentos presenciais a confiança aumenta com o passar do tempo e chega ao ponto de conter relatos íntimos não revelados antes a ninguém do circulo familiar. A segurança e os laços afetivos crescem a cada vez que a caixa dos Correios recebe novos envelopes. As cartas chegam toda semana. Às vezes são três, mas podem chegar a 15. Para respondê-las Thaís aproveita os intervalos entre as aulas, os finais de semana e em muitos casos, se priva do descanso para escrever durante a madrugada. “Quando escrevo uma carta tento colocar no papel o máximo de afeto possível. Seja desenhando, escrevendo poesia, decorando os envelopes, ou enviando postais da Bahia e fotos. Tento fazer com que meu correspondente sinta o quanto o amo do mesmo modo em que me sinto especial para ele”, enfatiza.

Com as amizades surgidas e mantidas por meio dos Correios, Thaís conta que se tornou uma pessoa melhor, mais organizada. Aprendeu a expressar seus sentimentos nos textos para os amigos e para si mesma, ao ponto de passar a registrar suas experiências de vida em um diário. “Pela escrita é possível perceber a emoção do autor no momento em que se dispôs a compor o texto. As cartas da Ana Kalline, por exemplo, sempre me comovem muito em razão da facilidade com que ela transmite seus sentimentos. É uma forma peculiar e única. Um e-mail não tem a mesma intensidade”, compara. A estudante não se corresponde com familiares e afirma que por meio do Clube estreitou os laços com uma amiga de infância com quem divide assuntos que não são citados em conversas presenciais.

Thaís afirma que a troca de informações torna estranhos em pessoas ‘de casa’. “Muitas das vezes os laços criados através das cartas são mais fortes que os tradicionais. Tenho saudade de gente que conheço somente por fotos e textos manuscritos. Se eu pudesse passaria uma semana na casa de cada um desses amigos. Conheceria o centro histórico de São João del Rei (MG) em companhia da Jai e da Mayra, mergulharia nas praias de Guajiru (CE), onde a Ana Kalline nasceu e ainda andaria pelas ruas do Pará com a Die. Sonho em conhecer os meus amigos de selo”, almeja. A espera pela resposta, parte intrínseca ao processo tradicional de correspondência causa ansiedade. Porém a angustia é sanada quando os olhos identificam o tão esperado nome do remetente no envelope. “Às vezes, demora mais que o normal. Já esperei dez meses para receber uma carta. O serviço dos Correios nem sempre facilita o nosso mundo de papel e caneta”, observa sobre seu modelo preferido de comunicação. “Quem escreve cartas sempre envia um pouco de amor ao remetente e com certeza recebe amor em troca”, defende.

Divulgação/ND
Ana Kalline teve apoio de amigos de cartas para vencer um câncer 

 

Após o bullyng, o refúgio nas correspondencias 

Adolescente tímida, acima do peso e com óculos que enfeavam a face fizeram de Ana Kalline Vital, 23, uma vítima perfeita de bullyng. Na tentativa de fugir das agressões e do isolamento e ter sua voz ouvida, a menina utilizava o correio elegante da sala de aula. Mas os resultados foram ainda mais desastrosos. Cada palavra escrita virava munição nas mãos dos zombadores. Hoje, ao ler e ser lida a jovem percebe que superou aqueles tempos e entende que as experiências majoritariamente negativas, fizeram dela uma pessoa atenta às necessidades alheias. “Ajudar meus amigos por meio de meus textos engrandece minha alma. Cada carta é uma experiência diferente. A maioria dessas pessoas não é ouvida em suas casas, creio que por essa razão elas se sentem tão à vontade para partilhar seus anseios, medos e também suas conquistas, ainda que aparentemente ínfimas. Ao escrever, exponho algo que sai de dentro de mim, assim como elas também o fazem. Desta forma ambos crescemos”, acredita. 

De Congonhas (MG), a auxiliar administrativo envia até 20 cartas a cada semana. Seus envelopes são cuidadosamente decorados antes de serem enviados a outros estados e países. Kal -como é conhecida-, participava de um grupo de correspondência tradicional que veio a se dissolver. Para não perder as amizades já conquistadas, ela se uniu à Thaís Ribeiro, uma das mais ativas no antigo grupo e criou há dois anos o Clube da Carta. As duas dividem o gerenciamento das atividades, dentre elas o controle de atualização de endereço de cada membro e a manutenção de algumas regras, como a de não ficar mais de quatro meses sem escrever, sem justificativa.

O hábito de escrever cartas Ana Kalline mantém há 11 anos, razão pela qual acumula um baú com histórias pessoais e mais de 3 mil postagens nos Correios. Incluindo os 43 membros do clube, a auxiliar administrativo tem quase 200 correspondentes. A grande maioria são mulheres com idade entre 13 e 66 anos. Tão diferentes quanto os pontos geográficos são as funções das amigas. Umas são advogadas, outras donas de casa. Algumas são artesãs, chefs de cozinha, professoras, estudantes ou arquitetas unidas por um objetivo em comum: compartilhar experiências de vida usando papel e caneta.

Ao parar em frente ao portão de Ana Kalline o carteiro retira envelopes coloridos dentre a pilha de boletos e correspondências desprovidas de qualquer afeto. “Hoje a bolsa veio florida”, avisa o mensageiro enquanto deixa as cartas nas mãos da destinatária. Em muitos dos envelopes, os remetentes deixam recadinhos aos entregadores, pedindo que os mesmos levem as mensagens com cuidado ao seu destino final. A frequência nas postagens chama a atenção também na agência dos Correios, no bairro onde Kal envia cartas semanalmente. Além dos amigos de selo, ela se corresponde com os pais e o irmão, que moram no Ceará, onde ela nasceu. Uma tia também recebe mensagens manuscritas da jovem que sonha mudar o mundo usando papel e caneta. “Falo com meus familiares por telefone, mas não é a mesma coisa. Não abro mão de enviar um pouco de mim pelo papel”, assegura. O tempo para responder às cartas ela encontra ao se afastar da internet, seguindo sugestão de uma amiga do Clube.

“Recebo fotos dos animais de estimação, dos pais e dos filhos e das viagens que meus amigos fazem. Eles me enviam chás para que eu desfrute enquanto leio atentamente cada linha que tão sinceramente escreveram. Recebo tudo isso como um cafuné. Sinto-me como se fizesse parte da família, de várias famílias, aliás. São laços fortes e muito reais. Tenho a impressão de que um dia chegarei à porta deles e direi: ‘Não tem comida nessa casa, não?’”, brinca, detalhando que muitos amigos moram em lugares em que sonha conhecer desde criança, como a Finlândia, de onde vêm os as cartas de Anna.

Kal é pessoa de choro fácil. E foi secando os olhos que ela leu o relato de abuso em uma inesquecível carta. As quatro páginas carregadas da mais pura angústia provocaram uma reação na destinatária. “Alguém precisava acabar com a violência que durava mais de dez anos. Consegui contatar a mãe da vítima e lhe contei o que se passava em sua própria família. O abusador foi denunciado e nunca mais tocou nela”, revela sobre o episódio que lhe abalou emocionalmente e que por fim tornou possível a mudança de um mundo, o mundo de uma jovem amedrontada pela violência em sua própria casa. “O que divido com as pessoas é forte e muito sincero. O que recebo em troca também é. Esse sentimento os meios digitais não conseguem transmitir. E sim, é possível ajudar, amar e sentir saudade de alguém que nunca abracei, ou toquei”, garante. Ana que faz papel de terapeuta dos correspondentes passou por uma inversão de papéis há pouco mais de um ano, quando recebeu o diagnóstico de câncer. Durante o combate à leucemia, ela viu o volume de cartas crescer em sua caixa de correios. As mensagens de apoio continham piadas e frases motivadoras que expressam a crença na cura.  Com a saúde recuperada, Ana ocupa a mente com os preparativos do casamento, mas sem abrir mão de escrever para os amigos unidos pelos carimbos e selos.

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