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Segunda-Feira, 24 de Setembro de 2018
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Ciclistas falam sobre o medo de pedalar em Florianópolis

Com índice crescente de acidentes e mortes envolvendo ciclistas, Região Metropolitana de Florianópolis segue construindo cidades para carros, e não para pessoas

Beatriz Carrasco
Florianópolis

Essa reportagem faz parte de um caderno especial produzido pelo Jornal Notícias do Dia em comemoração aos seus 10 anos. Durante dez meses serão publicados cadernos com temas específicos. O escolhido para o mês de abril é Mobilidade Urbana. Para ler o caderno na íntegra, basta acessar a versão digital do ND, disponível apenas para assinantes.

 

Eduardo Valente

Ciclistas Guilherme Roveda, Cris Lei e Erni Meira

 

Na madrugada de 24 de janeiro, a auxiliar de cozinha Simoni Bridi, de 28 anos, voltava para casa com sua bicicleta após mais uma jornada de trabalho, quando sua vida foi interrompida por um motorista que a atropelou no acostamento da SC-401, em Canasvieiras, no Norte da Ilha, e fugiu na sequência. Mãe de dois filhos, Simoni passou a fazer parte de uma estatística trágica e crescente na Grande Florianópolis: a da morte de ciclistas.

Em 2015, outros três morreram apenas nas rodovias estaduais de Florianópolis, e três nas rodovias federais que cortam a Região Metropolitana. Os números alarmantes trazem à tona um problema latente que continua sem espaço entre as prioridades do poder público, que é a falta de infraestrutura viária para todos os cidadãos, não apenas para os que possuem carro.

Por ser um meio de transporte democrático, a bicicleta emerge como uma ferramenta de locomoção cada vez mais utilizada, com perfis de usuários que vão do atleta às pessoas que a utilizam para seus afazeres diários. O crescimento ocorre porque, além das dificuldades de se comprar e manter um automóvel, o transporte público na Região Metropolitana de Florianópolis não aparece como uma alternativa atrativa, tanto pela falta de opções de horários, integrações e trajetos, quanto pela superlotação e valor alto da passagem.

Nesse cenário, todos os dias milhares de pessoas se aventuram por vias projetadas apenas para carros, em que falta até mesmo o básico da infraestrutura urbana: calçadas. “Somos uma das piores cidades do planeta no quesito mobilidade urbana. Lembrando que mobilidade urbana não são mais ou menos congestionamentos, mas o cidadão poder se deslocar 24 horas e sete dias da semana sem ter que ser proprietário de um carro”, aponta o biólogo Daniel de Araújo Costa, ciclista e integrante da Bicicletada Floripa, Viaciclo, entre outros grupos de pedal na Grande Florianópolis.

Segundo o Ipuf (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis), um levantamento de 2015 aponta que as rotas cicloviárias de Florianópolis somam 58,75 km - a área territorial da capital catarinense tem mais de 600 km². Outro detalhe é que os escassos espaços para ciclistas são desconectados em sua maioria, sendo necessário transitar nas vias junto aos carros. Nesse contexto, surgem outros problemas ainda mais agravantes, que é a falta de respeito dos motoristas e a impunidade em relação aos crimes de trânsito.

 

Os embates para as ciclovias

Ruas estreitas e dificuldade nas desapropriações estão entre os principais argumentos apontados pelos órgãos competentes para a criação de novas ciclovias. “Ocupações historicamente irregulares do solo de Florianópolis levaram a vias com dimensões muito restritas, o que resulta em uma falta de espaço para atendimento satisfatório dos modos de transporte. Outro fator é a existência de rodovias estaduais e federais cortando o município, que não competem à prefeitura municipal, o que acarreta numa dificuldade de gestão destes espaços”, justificou Vanessa Pereira, superintendente do Ipuf.

Diretor de Obras do Deinfra (Departamento Estadual de Infraestrutura), Adalberto de Souza também cita a falta de espaço. “Falta largura, o que se faz necessário várias desapropriações, sendo que a SC-401, em toda sua extensão, virou área comercial, com elevado valor de desapropriações”, disse o engenheiro. A rodovia em questão é considerada uma das vias mais perigosas para se pedalar em Florianópolis, com ciclofaixa precária e que desobedece as normas básicas, além de possuir diversas interrupções abruptas.

 

Cidade voltada às pessoas

Os 13 municípios da Região Metropolitana de Florianópolis somam 891,336 mil pessoas, segundo senso do IBGE de 2010. Dessa população, 48% utiliza os transportes individuais motorizados, 27% os coletivos e 25% os não-motorizados. Os dados fazem parte do Plamus (Plano de Mobilidade Urbana Sustentável da Grande Florianópolis), que traz um estudo, análise e proposta de soluções para o tema na região, desenvolvido por especialistas na área, com apoio de empresas privadas e administrações públicas, viabilizado com recursos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

O relatório mostra alternativas para que os veículos motorizados deixem de ser priorizados, com requalificação do sistema viário que inclui cerca de 400 km de ciclovias na Região Metropolitana, além da implantação dos conceitos de ruas completas, zonas 30, entre outros. No caso da SC-401, que é consenso entre os ciclistas quando o assunto é periculosidade, o projeto propõe uma remodelação que inclui corredores de transporte coletivo, calçadas, ciclovias bidirecionais e travessia de pedestres. A via deixaria de ser uma rodovia e passaria a assumir a característica da avenida urbana que é, já que liga o centro ao Norte da Ilha com intensa ocupação em seus arredores.

“É uma rodovia importante não só para os carros, mas também para os pedestres e ciclistas. Estamos buscando recursos para essa estruturação e revitalização da SC-401. Existe muito conflito, mas eu defendo que ela seja realmente transformada em uma avenida, ou ao menos alguns trechos dela. Por outro lado, é uma via que atende a todo o Norte da Ilha e não há alternativa, por isso existe um conflito de tráfego bastante intenso. Então, essa reconfiguração tem que acontecer, mas também tem que considerar que essa rodovia continuará a ser o acesso para o Norte da Ilha”, disse Guilherme Medeiros, coordenador técnico do Plamus, ao afirmar que a SC-401 é prioridade no projeto – no trecho mais carregado, passam mais de 100 mil veículos por dia.

Para as ruas alegadas estreitas demais para receber as ciclovias, o estudo propõe, por sua vez, a adequação com base no conceito da Zona 30, que é bem presente em países como a Holanda. Nesses casos, a velocidade máxima é de 30 km/h, o que possibilita a convivência harmoniosa entre veículos motorizados, bicicletas e pedestres. “Não estamos falando de vias arteriais, mas de vias que ligam uma quadra à outra e que possuem baixo fluxo. Isso não traria grandes problemas mesmo para a situação dos carros”, comentou Medeiros.

 

“Um dia eu vou morrer atropelado”

Morador de Florianópolis desde 1990, Erni Meira, de 43 anos, acompanhou o crescimento do Norte da Ilha, região onde residia, sempre utilizando a bicicleta como meio de transporte e lazer. Com o aumento dos automóveis que passaram a circular na SC-401, ele viu muitas pessoas serem obrigadas a abandonar a bicicleta, restando apenas atletas que se arriscavam na via. “Eu pegava a SC-401 todos os dias, até que falei para a minha esposa: vamos mudar para mais próximo do nosso trabalho, porque acho que um dia eu vou morrer atropelado”, relembrou.

Hoje, Erni mora com sua família próximo ao trabalho, no Itacorubi, tendo presenciado diversos acidentes de amigos e também a morte de outros, entre eles o jornalista Roger Bittencourt, que foi atropelado em dezembro de 2015 enquanto pedalava na ciclofaixa da SC-401, próximo ao trevo de Jurerê. “Ciclovia que liga o que a o quê? Eles fazem pedaços e alegam que Florianópolis tem grande extensão de ciclovias. Por que não começam fazendo pelo menos as interligações?”, questionou.

Assim como Erni, Guilherme Roveda, de 26 anos, também utiliza a bicicleta para se deslocar de sua casa, em Coqueiros, até o Itacorubi, onde trabalha. No trajeto, ele enfrenta dificuldades ao dividir a via com os automóveis, e comenta que muitos motoristas não respeitam os ciclistas, fazendo entradas violentas, andando muito próximo, entre outros problemas. “O pessoal não respeita, mas por outro lado percebo que a visão está começando a mudar por parte dos motoristas. Talvez para o meu filho vai chegar a hora de ter uma ciclovia decente”, disse.

A educação no trânsito também é um ponto destacado pela ciclista Cris Lei, de 37 anos. “Eu sempre digo que não é só ciclovia que resolve, é o motorista se atentar e saber que pode ter um ciclista no trânsito. O cérebro enxerga a realidade que ele entende como realidade, então, se um ciclista não faz parte da vida daquela pessoa, ela não imagina o ciclista na via”, comentou ela, ao citar que ações de conscientização no trânsito poderiam ser o primeiro passo rumo à mudança para uma cidade mais humanizada.

 

Raio-X

Questões relacionadas às ciclovias na Grande Florianópolis segundo ciclistas ouvidos pela reportagem

Via mais perigosa: SC-401, em Florianópolis.

Principais problemas: desconexão entre as ciclovias existentes, ciclofaixas precárias, infraestrutura das vias focadas nos veículos motorizados, falta de iniciativas para promover a educação no trânsito, falta de fiscalização (principalmente relacionadas à embriaguez ao volante), impunidade para os crimes de trânsito.

Soluções: reforma das ciclovias problemáticas (respeitando as normas e definições de ciclovias e ciclofaixas), criação de conexões entre as ciclovias existentes, criação de novos trechos de ciclovias, criação de bicicletários para integração com outros sistemas de transporte, ações que promovam educação no trânsito, fiscalização reforçada e punição mais rígida para crimes de trânsito.

 

As opiniões

“Copiamos o modelo que prioriza o carro e por isso somos uma das piores cidades do planeta no quesito mobilidade urbana. Lembrando que mobilidade urbana não são mais ou menos congestionamentos, mas o cidadão poder se deslocar 24 horas, sete dias da semana sem ter que ser proprietário de um carro. Não há dúvidas sobre a efetividade da humanização do espaço público que a bicicleta realiza.” 

- Daniel de Araújo Costa, ciclista e integrante da Bicicletada Floripa, Viaciclo

 

“Para se conseguir um adequado atendimento da questão das ciclovias, se faz necessária maior arrecadação de verbas nas esferas municipais, estaduais e federais, bem como trabalho com a iniciativa privada para execução de algumas obras de maneira compensatória pela implantação de empreendimentos, mitigando efeitos de pólos geradores de tráfego, por exemplo. Uma maior interação entre os órgãos municipais, estaduais e federais responsáveis pelas vias existentes no município também é importante para a solução destes problemas.” 

– Vanessa Pereira, superintendente do Ipuf

 

"Temos que pensar a mobilidade como um conjunto de ações e, nesse contexto, a ciclovia tem papel fundamental no desenvolvimento do transporte não motorizado e na mudança de cultura necessária de nossa sociedade, já que Florianópolis é a segunda capital que mais utiliza o transporte com veículo individual no seu desenvolvimento."

- Rafael Hahne, secretário de Obras de Florianópolis

 

“Se o município apresentar algum projeto e o Estado aprovar poderemos ter uma parceria em prol da humanização das rodovias, principalmente nos pontos onde as vias estão mais urbanizadas.”

– Adalberto de Souza, diretor de Obras do Deinfra

 

“O automóvel é uma das formas de deslocamento, mas em Florianópolis é a mais importante. Aqui, pela característica geográfica e deficiência no transporte público, as pessoas acabaram sendo empurradas para o carro, que é quase uma necessidade. Estamos tentando mudar essa realidade, mas é um desafio. Você tem que oferecer outras alternativas melhores”

- Guilherme Medeiros, coordenador técnico do Plamus

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