Publicidade
Domingo, 17 de Fevereiro de 2019
Descrição do tempo
  • 27º C
  • 22º C

Cenário político conturbado não é barreira para estudantes que almejam a política

Universitários de Florianópolis veem na educação forma de melhorar o debate político do país

Felipe Alves
Florianópolis
17/06/2017 às 13H42

Em meio aos frequentes escândalos, às polêmicas em torno da Lava Jato, do impeachment e da polarização acirrada em todo o país, o descrédito da classe política serve também como combustível para quem quer fazer diferença e ajudar na construção de um Brasil melhor. Os jovens André, Gabriel e Isabela são exemplos disso. Envolvidos de diferentes formas com a política, eles veem na educação uma forma de melhorar o debate no país e contribuir para mudar a cultura em torno do tema.

Daniel Pinheiro, Algusto Manoel e Gabriel Marmentini - Marco Santiago/ND
Professor Daniel Pinheiro com os alunos André Manoel e Gabriel Marmentini - Marco Santiago/ND


Estudante de administração pública na Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), André Augusto Manoel, 21, concorreu a vereador no ano passado pelo PSOL em Biguaçu. Desde pequeno, sempre teve envolvimento político ou de liderança. “O que vemos na realidade política hoje, especialmente nos que estão em cargos eletivos, é a insatisfação das pessoas com o despreparo dos políticos. Se quero um bom embate político, então preciso de informação. O curso nos dá essa análise de modelos de administração, de como gerir e de compreender o jogo político”, afirma.

Isabela da Costa Rodrigues, 20, não descarta uma futura candidatura, mas no momento ela se dedica à assessoria. A estudante de administração pública cresceu no ambiente político. Quando ela nasceu, o pai, Nadir Rodrigues (PP), era vereador em Paulo Lopes e, na eleição mais recente, se tornou prefeito da cidade. No ano passado, enquanto estudava, Isabela também ajudou a coordenar a campanha política do pai e percebeu que teoria e prática se complementavam. “O descrédito da política é da nossa cultura de não investir em educação. O lucro da máquina pública tem que ser em bem estar social, saúde e educação”, assegura.

A relação de Gabriel Marmentini, 24, com a política passa longe de partidos, eleições ou aspiração a cargos eletivos. Mestrando em administração, mira no terceiro setor como forma de ajudar a mudar a situação em que vive, sem necessariamente estar dentro da política. Gabriel é um dos empreendedores que criou em julho de 2015 o site Politize, que apresenta conteúdos apartidários em diferentes formatos como instrumento de educação política. “Nosso papel é de fomentar a cidadania e a reflexão política. O Politize nasceu com as manifestações, quando o povo estava clamando por mudanças”, explica.

Diferentes olhares sobre política

Professor de administração pública da Udesc, Daniel Pinheiro, 38, afirma que nos últimos anos houve um crescente interesse dos alunos por política – tanto em pretensões de se candidatar a algum cargo quanto outras formas de envolvimento. “Na antropologia política trabalha-se com a teoria do tempo da política, que no Brasil acontece a cada dois anos. Ou seja, quando se têm eleições, as pessoas debatem, mas quando sai desse período, esquecem. Só que desde as manifestações de 2013, isso não caiu. A política continua sendo debatida frequentemente”, diz.

O curso de administração pública, segundo Pinheiro, é uma forma de dar ao aluno uma visão de gestor da máquina pública com várias possibilidades de escolha. A ideia é desmistificar a visão do político tradicional e mostrar que há outros métodos de se fazer política. “A proposta é estimular os alunos a terem olhares políticos, não a seguir carreira, mas a entender as possibilidades. Enxergar que política não é só partido e político profissional e a trabalhar a consciência do que o serviço público é para o cidadão”, ressalta o professor.

Estudantes de administração, André, Isabela e Gabriel são envolvidos com política de diferentes formas - Marco Santiago/ND
Estudantes de administração, André, Isabela e Gabriel são envolvidos com política de diferentes formas - Marco Santiago/ND



Educação política

Criado em 2015 por meio de um financiamento coletivo, o site Politize teve seu pontapé inicial em Joinville pelo empresário Diego Calegari. Junto com outros sete jovens, como Gabriel Marmentini, e dezenas de voluntários, eles fazem a expansão do site e de outros projetos com foco em educação política. No site há diversos artigos, vídeos e infográficos que têm a missão de descomplicar assuntos políticos.

Diferentemente de um veículo tradicional de comunicação, o Politize não se preocupa em cobrir a pauta do dia a dia, mas aprofunda temas e conceitos que estão em discussão. A importância do sigilo da fonte no jornalismo, o funcionamento da fiscalização alimentar no Brasil, a discussão sobre eleições diretas e indiretas são alguns dos temas trabalhados.

“A reflexão que a gente está falando é de uma mudança de cultura. Queremos que a pessoa leia os conteúdos e vá pesquisar o candidato antes de votar nas eleições, participe de audiências públicas em sua comunidade, não venda seu voto e, a partir disso, se tornar um cidadão. Por que a gente não é preparado de fato pra cidadania”, afirma Gabriel. Como projeto social e de mudança cultural, a ideia é que, no futuro, o Politize não precise mais existir, quando a sociedade chegar a um bom nível de compreensão política.

Vontade política

Desde pequeno, André Manoel esteve presente nas discussões políticas em casa e na escola. Os pais nunca foram filiados a partidos, mas faziam militância. Aos poucos, André se viu envolvido com a política. “Quando era pequeno dizia até que iria ser presidente da República. Hoje não tenho essa pretensão, mas ainda quero me candidatar novamente”, afirma.

Candidato em Biguaçu aos 20 anos, André viveu no ano passado todas as etapas de uma campanha eleitoral. Para ele, foi uma oportunidade de ganhar experiência em busca de uma oportunidade para fazer a diferença em sua cidade. “Foi bastante extenuante, cansa física e psicologicamente, e é uma das formas de se ver o jogo político de forma mais crua. O que me move são os ideais, de fazer com que Biguaçu seja uma cidade um pouco mais justa, e que a prefeitura e a Câmara possam ser, de fato, instrumentos de promoção de direitos”, diz.

Apesar do descrédito da população na classe política, André vê como fundamental participar desse meio exatamente como forma de reverter essa visão. “O que tenho para oferecer é a minha formação e de não me isolar na luta política por achar que é um espaço só de gente suja. Senão, vamos continuar na mesma situação que a gente não deseja. Só vamos conseguir mudanças quando tivermos coragem de se meter na política”.

Experiência na política

Nascida em cidade pequena, Isabela Rodrigues teve que ganhar a confiança da classe política ao trabalhar na coordenação da candidatura do pai, em Paulo Lopes, município com 7.000 habitantes. “Houve uma dificuldade por ser mulher e jovem. Em cidade pequena ainda tem um machismo grande e tive que enfrentar essa barreira”, diz. Isabela foi delegada fiscal e de coligação da chapa do pai e fazia toda a documentação dos 18 candidatos a vereador da coligação do PP.

Hoje, ela trabalha na equipe administrativa de um deputado na Alesc (Assembleia Legislativa de Santa Catarina), e foca em ganhar experiência para exercer assessoria política ou, até mesmo, candidatar-se algum dia. “Eu me vejo agindo. A gente tem que ter ação, ser participativo na nossa comunidade, no nosso Estado. Temos que ter voz e se fazer ouvir”, reflete.

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade