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Castração é questão de saúde pública, mas ainda não está ao alcance de todos

Cirurgia pode ajudar a reduzir o número de animais abandonados e proteger pessoas e animais de várias doenças

Andréa da Luz
Florianópolis
13/07/2018 às 09H03

Embora a castração seja uma questão de saúde pública, ela ainda não está ao alcance de todos e também não é muito bem compreendida pelas pessoas. Antigamente, esse tipo de cirurgia era rara, e geralmente realizada quando as pessoas se cansavam de ter ninhadas em casa. Mas além do valor ser muito alto, pouquíssimos veterinários realizavam o procedimento. Hoje, embora mais profissionais realizem a castração, os preços continuam altos, sendo de difícil acesso à maioria da população. “Não costumo criticar quem cobra mais caro, mas enalteço quem consegue fazer as cirurgias com baixo custo”, diz a veterinária Kátia Chubaci, proprietária de uma clínica de castração de baixo custo no Sul da Ilha.

Veterinária Kátia Chubaci realiza castrações há 21 anos - Divulgação/ND
Veterinária Kátia Chubaci realiza castrações há 21 anos - Divulgação/ND


Apenas no Brasil, são cerca de 100 milhões de animais abandonados e não há lares para tantos que nascem. A castração é uma garantia de que o animal não irá mais reproduzir e gerar filhotes, além de trazer uma série de benefícios para eles.

Nas fêmeas, reduz em 90% a incidência de câncer de mama, de ovários e útero, além de Tumor Venéreo Transmissível (TVT), Piometra (infecção no útero), etc. Nos machos, previne o câncer de próstata e de testículo, reduz os hormônios masculinos, tornando-os menos briguentos por território e disputa pelas fêmeas. Também ajuda a reduzir fugas e deixa a urina com menos cheiro.

Há 21 anos trabalhando com esse tipo de procedimento, Kátia afirma que a demanda só cresce. “Nos 11 anos em que trabalho no Sul da Ilha, diminuiu o número de animais abandonados perambulando nas ruas, especialmente nos bairros Rio Tavares e no Campeche. Mas na Tapera e em áreas mais carentes, ainda há bastante animais nas vias”, aponta.

Para Kátia, o trabalho das ONGs que resgatam animais está dando resultados e o aumento da demanda acontece porque as pessoas estão mais conscientes dos benefícios da castração. “O controle de natalidade está intimamente ligado ao controle de zoonoses, como raiva, leishmaniose, escabioses [sarna], verminoses incluindo giárdia, leptospirose”, explica. Isso significa que estamos protegendo não só os animais, como nossa própria saúde

Mutirão internacional de castração

A convite dos médicos veterinários Jeffrey Young, host do programa Planet Animal e Antônio Rios Perez, pioneiros em métodos modernos de castração, Kátia Chubaci e a veterinária Amélia Oliveira, de Minas Gerais, foram as únicas brasileiras a participar da 9º Maratona Internacional de Castração em Yucatán, no México.

O evento, que se compara ao programa Médicos Sem Fronteiras, aconteceu de 16 a 21 de junho e reuniu 200 profissionais de várias partes do mundo – entre Portugal, Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Irlanda, Filipinas, Eslováquia e México.

O Planned Pethood International (PPI), liderado pelo Dr. Young, aconteceu em três cidades do estado de Yucatán e resultou na castração de quase 3 mil cães e gatos, nos seis dias de evento. A meta do programa é contribuir para diminuir o número de animais em situação de rua, prevenir zoonoses e acidentes de trânsito provocados pela presença desses animais nas rodovias.

“Além de voltar de lá com técnicas novas, o evento serviu principalmente para nos mostrar que não estamos sozinhas neste trabalho com os animais”, diz Kátia. Para ela, o mutirão é um exemplo a ser seguido pelo Brasil. “Ele é perfeitamente viável quando o povo e o governo trabalham unidos. Na abertura, fomos recebidos pelo governador do Estado de Yucatán e seu secretário do meio ambiente, prestigiando e valorizando a causa animal e é disto que estamos falando quando nos referimos à Medicina Veterinária do Coletivo”, afirma.

Mutirão internacional de castração atendeu cerca de 3 mil animais, no México - Divulgação/ND
Mutirão internacional de castração atendeu cerca de 3 mil animais, no México - Divulgação/ND


De acordo com Dr. Young, o Planned Pethood acontece quando o governo do país oferece um aporte financeiro para a realização dos mutirões. “Por exemplo, eu doei mais de 2 mil fios de sutura que são melhores para os animais. E qualquer doação financeira extra que recebemos vai para futuros mutirões de castrações e esterilizações de animais. Além disso, contamos com a população que oferece hospedagem e alimentação gratuita pelo trabalho que realizamos em suas comunidades”.

A realização da 9º Maratona Internacional de Castração contou com o aporte do governo de Yucatán no valor de um milhão e 366 mil Pesos. As 3 mil castrações realizadas implicam em cerca de 36 mil outros animais que deixrão de nascer em apenas um ano. Segundo a American Humane Association, apenas um casal de cães ou gatos e seus descendentes geram ao longo de seis anos, uma média de 73 mil novos filhotes, considerando dois cruzamentos ao ano por casal.

Trabalho é levado para cidades menores

Aproveitando a oportunidade de sua participação no mutirão internacional, Kátia apresentou um projeto para trazer o PPI para o Brasil, começando pela região da Amazônia – por seu apelo mundial, e estendendo para outras regiões do país, onde o controle de natalidade não chega. “Tem cidade que pensa em fazer eutanásia de animais saudáveis, construir canil e abrigo como se fosse a solução, mas não é. Esperamos trazer essa iniciativa para o país no próximo ano, e Santa Catarina com certeza estará inclusa no programa”, afirma Kátia.

Em um cálculo inicial, a veterinária estima que os custos de um mutirão de alcance semelhante em Santa Catarina chegariam à cifra de R$ 300 mil, levando em conta um custo de R$ 100 por animal. “Não acho um valor exorbitante, especialmente porque ele pode ser dividido com ONGs e profissionais, inclusive do exterior, para viabilizar o evento”, avalia Kátia.

Mas ela não espera isso acontecer para fazer sua parte. Além do atendimento na clínica, Kátia percorre cidades do interior catarinense nos finais de semana para realizar mutirões de castração. “Comecei há cinco anos, nas cidades menores em que não havia veterinários que realizassem castrações de baixo custo”, revela.

Enquanto isso, ela espera a conclusão do “Castrabus”, um ônibus adaptado para realizar cirurgias itinerantes. Ele funciona como uma clínica sobre rodas que dará mais acesso à população para castrar os animais e deve ficar pronto no final do mês. “Assim, poderei atender cidades que têm dificuldades de achar locais adequados para cirurgias, aprovados pela Vigilância Sanitária, e terei mais mobilidade para continuar meu trabalho”, explica.

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