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Terça-Feira, 20 de Novembro de 2018
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Casarão construído em 1924 no Centro de Biguaçu começa a ser demolido

Uma lei municipal poderia ter tombado o imóvel, porém a prefeitura não levou à frente a ideia

Marciano Diogo
Florianópolis

Os moradores da Rua João Born foram surpreendidos neste início de semana. Isso porque o histórico casarão Wollinger, concebido em 1924, começou a ser demolido. A casa, que pertencia ao INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e foi leiloada há dois meses para um terceiro, deve ir abaixo ainda neste mês, de acordo com o atual proprietário, o empresário Gilson Junckes. A Seplan (Secretaria Municipal de Planejamento e Gestão) já acatou o pedido de demolição do atual proprietário e expediu o documento com a autorização.

Divulgação
Novo proprietário afirma que estrutura estava comprometida e que local tinha se tornado ponto para usuários de droga


O biguaçuense Leonardo Ramos, assim como outros moradores, lamenta a demolição do imóvel. “Não dá para entender. A prefeitura reconhece a importância da casa, mas mesmo assim não pode fazer nada diante da demolição”, relatou o vice-presidente da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) da cidade. “Brincava muito aqui em frente, inclusive dentro da casa, porque era colega dos proprietários. É uma pena porque no local poderia ser implantado algum centro de cultura ou algo do gênero. As pessoas não valorizam o resgate histórico, e infelizmente, é um bem material a menos para lembrar meu neto da história da cidade”, concluiu Manoel Souza, 75 anos, que juntamente com seu neto, Rodrigo Henrique Souza, 13, reside ao lado do casarão Wollinger.

Flávio Tin/ND
Manoel e o neto lamentam perder o visual do casarão histórico , que ficará apenas na memória


A compra do casarão Wollinger chegou a ser negociada pela Prefeitura de Biguaçu, que despertou interesse em adquiri-lo em julho de 2013. Porém, de acordo com a administração municipal, a transação não foi fechada por falta de verba no caixa da prefeitura. “Como não há como adquiri-lo por venda direta, chegamos a tentar negociar a troca do imóvel por outro, porém o INSS não aceitou”, disse o prefeito interino Ramon Wollinger. De 1963 a 1992, o casarão Wollinger pertenceu à família de Francisco Wollinger, tio de Ramon. “Cheguei a morar no casarão. Além de ser uma perda sentimental, creio que é uma perda cultural para o município. Mas infelizmente não disponibilizamos de verba para assumir o imóvel”, complementou o prefeito interino.

O casarão Wollinger não é tombado a nenhum nível, nem pelo município, Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) ou FCC (Federação Catarinense de Cultura). Uma lei municipal poderia ter tombado o imóvel, porém a prefeitura não levou à frente a ideia do tombamento histórico. “Chegamos a comentar a possibilidade de realizar o tombamento da fachada do imóvel, mas efetivamente não se chegou ao conceito de tombamento, pois há controvérsias perante as características históricas do imóvel. O tombamento impediria a demolição, mas possivelmente o imóvel ficaria abandonado devido às restrições. Como surgiu a possibilidade de negociação perante a aquisição do imóvel, a ideia do tombamento foi deixada de lado”, afirmou o secretário da Seplan, Felipe Asmuz.

As aberturas do casarão já foram retiradas no último domingo, e segundo o atual proprietário, a demolição total do casarão será feita ainda neste mês. “A estrutura está muito comprometida e muitos reclamam que o local virou um ponto para usuários de drogas e moradores de rua. Não tenho interesse em conservá-lo e ainda não sei qual empreendimento construirei no local. Se a prefeitura tinha interesse, porque não arrematou o imóvel antes?”, questionou o empresário Gilson Junckes, que também é dono de uma construtora, e adquiriu o casarão Wollinger pelo valor de R$ 650 mil.

Questionamentos sobre a demolição

Ainda no ano passado, a Prefeitura de Biguaçu manifestou o interesse em dar uma utilidade pública ao casarão Wollinger. “Porém existe uma normativa do INSS que os impediu de fazerem a cessão do imóvel à prefeitura. Mesmo assim, houve a pré-disposição da prefeitura em adquiri-lo, mas em função dos altos valores apresentados pelo órgão na negociação, não houve evolução no assunto”, relatou o secretário da Seplan, Felipe Asmuz. Segundo a assessoria de comunicação do INSS, a normativa de fato impediu a cessão do casarão Wollinger à prefeitura, e o leilão do imóvel ocorreu no dia 3 de junho, e assim como outras licitações públicas, ela chegou a ser publicada no veículo de maior circulação do Estado.

De acordo com o procurador-geral do município, Daniel César da Luz, o município poderia interditar a derrubada do imóvel, mas este não será o caso. “Desde que haja interesse público podemos emitir uma ordem de interdição da demolição. A questão é que a prefeitura teria de alguma maneira indenizar esse proprietário, e infelizmente não disponibilizamos de verba para isto”, explicou o procurador.

O que leva a muitos moradores questionarem é o porquê de o casarão Wollinger não ter sido tombado até agora como patrimônio histórico. “Pela própria construção arquitetônica ele tem toda uma importância, é um dos casarões remanescentes e será uma grande perda para a cidade”, disse o historiador biguaçuense Bruno Anderson.  A arquiteta Clarissa Fontoura, que há 12 anos comprou uma casa construída em 1936 na mesma rua do casarão Wollinger, contou que compreende a posição de derrubar o imóvel. “Apesar de acreditar que a área histórica da cidade está abandonada, gasto tanto com manutenção da casa que comprei devido à umidade e aterros ao redor, realmente não vale à pena mantê-la”, concluiu a moradora. 

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