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Casa Chico Mendes lança projeto de educação popular para formação de líderes na periferia

Neste sábado acontece primeiro encontro do Mutirão de Saberes, que busca capacitar moradores do bairro e demais interessados para a formação de novas lideranças

Fábio Bispo
Florianópolis
15/07/2017 às 08H39

O número 88 da rua Pau Brasil, no Monte Cristo, há muito é ponto de referência entre as nove comunidades que formam um dos bairros mais populosos de Florianópolis – são 30 mil habitantes -, localizado na região continental, no limite com São José. Quem vê as ruas pavimentadas, prédios, comércios, iluminação pública, transporte público, e assim por diante, talvez não imagine que cada metro quadrado de infraestrutura ali empregada tenha sido fruto de tanto esforço e luta.

Casa Chico Mendes foi inaugurada em 1994 - Fábio Bispo/ND
Casa Chico Mendes foi inaugurada em 1994 - Fábio Bispo/ND


Em 1994, quando a Casa foi inaugurada, era o único ponto da comunidade Chico Mendes aonde os Correios chegavam. As casas eram de madeira – a maioria delas prestes a desabar a qualquer momento- e as ruas praticamente inexistiam como são hoje. Eram, na verdade, vielas e servidões abertas para abrigar famílias de trabalhadores que desde sua chegada brigaram pelo direito à moradia.

Constituída como uma ONG (Organização Não-Governamental), a Casa Chico Mendes, ao longo dos anos abrigou diversos projetos e iniciativas, como educação infantil, oficinas profissionalizantes, atendimento psicológico, grupos terapêuticos, assistência social, projetos de economia solidária e formação para professores. Neste sábado (15), não será diferente. Chica, seu Antônio, Valéria, Melita, Preta, Karol, Cintia, Sandra, Dodô e outros e outras se reúnem no primeiro encontro do Mutirão de Saberes, projeto que busca a capacitação para moradores do bairro e demais interessados para a formação de novas lideranças.

“A proposta busca dar visibilidade às periferias como espaços de resistência, reflexão e reinvenção do ‘fazer política’”, conta o educador Donizéti de Lima, o Dodô, um dos coordenadores do projeto. O Mutirão dos Saberes conta com apoio da Rede de Entidades Articuladas do Bairro Monte Cristo, Núcleo Vida e Cuidado da UFSC e da Udesc.

Como memória, ou bagagem, o Mutirão dos Saberes não se apresenta como um projeto para as pessoas da comunidade, mas sim como um espaço construído com as pessoas do bairro, que se armou das diferentes e inúmeras inter-relações que o espaço permite, entre as atividades comunitárias, as oficinas, os encontros de estudos e os mais despretensiosos.

Contexto de violência e carência de serviços

O Monte Cristo, assim como todas as comunidades pobres de Florianópolis são apresentadas, carrega estigma de lugar de perigo, de violência. Ao longo dos últimos anos, na medida em que a população local aumentou, moradores e lideranças notam uma estagnação, em alguns casos completa escassez, de serviços e equipamentos públicos.

Atualmente, uma das creches, a Joel Rogério, passa por ampliação, mas isso não garante o atendimento da demanda, pois historicamente a fila de espera sempre é maior que a capacidade. A creche funciona com defasagem de profissionais, e enfrenta todos os problemas da educação. Um dos mais visíveis é a ausência de oferta de educação na modalidade de EJA (Educação de Jovens e Adultos).

O reflexo é o abandono dos estudos por parte dos alunos, que também pode ser visto como um abandono da própria escola em conquistar o estudante. Ainda faltam cursos de formação para o mercado de trabalho e a uma política de geração de empregos. Se não bastasse, coincidindo com o aumento da violência (a taxa de homicídios do bairro passa de 40 mortes por grupo de 100 mil habitantes), nos últimos anos a comunidade sentiu o fechamento de projetos sociais, governamentais ou não, especialmente no contraturno escolar.

Mutirão de Saberes se reunirá em encontros semanais e quinzenais - Fábio Bispo/ND
Mutirão de Saberes se reunirá em encontros semanais e quinzenais - Fábio Bispo/ND



Conhecimento horizontal

O contexto de imprevisões que atravessa a rotina da comunidade força as lideranças a discutirem e reivindicarem solução para diversos problemas: recolhimento e destinação de lixo, educação, restauração de equipamentos comunitários, projetos para jovens com idade entre 14 e 19 anos, entre outros. “Além das políticas de educação, geração de trabalho e renda, precisamos pensar em políticas de esporte e lazer comunitários”, diz Dodô.

O Mutirão de Saberes se reunirá em encontros semanais e quinzenais. Além disso, os participantes serão orientados e incentivados a participar de eventos (palestras, seminários, oficinas, teatros, mobilizações, etc) que aconteçam em outros locais, como universidades, escolas, praças e ONGs.

A experiência busca horizontalizar o conhecimento em uma via de mão dupla da comunidade com um contexto mais amplo. “Ainda mais quando vivemos um tempo em que as vozes populares, aquelas expressas nos movimentos populares são ameaçadas com censura e violência”, afirma Dodô, que veio de Campos do Jordão (SP) há mais de 20 anos, quando ajudou a fundar a Casa Chico Mendes. Formado em sociologia, teologia e doutor em educação pela UFSC, Dodô em muitas vezes é o primeiro contato entre os moradores e o espaço, que sempre está de portas abertas para receber quem chega.

O psicólogo André Luiz Strappazzon, que trabalhou na Casa, chamou o lugar de “Casa dos Bons Encontros” em sua tese de mestrado apresentada em 2011 na UFSC, na qual analisou as relações éticas e estéticas na Casa Chico Mendes. Ele analisou que o lugar se constitui pelo encontro: às vezes para uma conversa rápida, noutras quando serve de ponto para se aprender a ler, trabalhar, ter um lugar para viver com dignidade, compartilhar uma refeição ou reparti-la.

Participantes serão orientados e incentivados a participar de eventos - Fábio Bispo/ND
Participantes serão orientados e incentivados a participar de eventos - Fábio Bispo/ND



Histórico de luta comunitária

Mas a história do Monte Cristo não está circunscrita apenas na Casa Chico Mendes. Ela está no orgulho dos moradores que dia a dia, pouco a pouco se reinventaram para ver impregnado por toda a vizinhança o espírito comunitário que sempre buscaram. Antônio José de Paula, o seu Antônio, ou Toninho, 61 anos, é um desses sujeitos. De fala mansa e simples, natural de Caçador, nunca esconde o orgulho que tem da própria história quando desata a falar nos encontros na comunidade.

Toninho entrou na escola com 11 anos, estudou até a quinta série e antes de fixar moradia em Florianópolis trabalhou 14 anos na indústria moveleira. Foi coordenador de esportes da empresa e construiu um centro esportivo e uma cozinha industrial ligados ao Sesi. Chegou à comunidade Novo Horizonte em 1990 e logo se engajou na luta comunitária. Nos anos 1990 foi eleito conselheiro no Orçamento Participativo de Florianópolis, foi presidente da Casa Chico Mendes, revezando as atividades no bairro com o trabalho de zelador de prédios, e até hoje é uma das principais lideranças do bairro.

Não com menos luta, a piauiense Francisca das Chagas, a Chica, 57, chegou ao Monte Cristo com as 98 primeiras famílias que formam a comunidade Novo Horizonte. Até ser aprovada no concurso da Comcap, em 1993, Chica passou por Porto Alegre e chegou à Capital em 1984. Em 1990 participou das negociações da Prefeitura de Florianópolis para garantir a permanência dos moradores na comunidade, se tornando uma das principais líderes comunitárias do Monte Cristo.

E assim Antônios, Chicas e Dodôs cruzam todos os dias as vias do Monte Cristo mirando um futuro. Eles não têm superpoderes e não são capazes do impossível. O que mais sonham é que esse futuro seja de menos sofrimento, menos promessas políticas a cada quatro anos e de mais amor. Tudo dentro do possível.

SERVIÇO

Quando: Sábado, 15 de julho, das 8h30 às 12h

Onde: Casa Chico Mendes, no bairro Monte Cristo, em Florianópolis

Tema do primeiro encontro: “Monte Cristo: lugar de lutas e conquistas”

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