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Quinta-Feira, 20 de Setembro de 2018
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Caravana reconhece 22 pedidos de anistiados políticos

Governo Brasileiro pediu desculpas a ex-perseguidos do período da Ditadura Militar

Everton Palaoro
Florianópolis
Marco Santiago/ND
Paulo Marcomini, 72 anos, não esquece dos amigos mortos durante o regime

Um misto de tristeza e emoção marcou a 59ª sessão de apreciação de Requerimentos de Anistia Política, realizada na sexta-feira, na Capital, quando eram relatados as histórias dos “perseguidos”. Ao todo, foram julgados 27, dos 36 processos de ex-perseguidos do período da Ditadura Militar. Destes, 22 casos foram aprovados. Durante todo o dia, conselheiros da Comissão da Verdade, do Ministério da Justiça, analisaram casos de prisão, tortura e até morte. 

Entre os processos, estavam pedidos referentes aos anos de chumbo em Santa Catarina. Os jornalistas Sérgio Antonio Flores Rubim (o Canga) e Jurandir Pires de Camargo, tiveram a solicitação deferida e ouviram o pedido oficial de perdão do Estado, além de ganhar indenização no valor de R$ 2.200 por mês. Cada um vai receber R$ 227 mil de valores retroativos. Os dois jornalistas foram presos e tiveram que passar três anos no Uruguai por combater o regime no jornal “Afinal”. O requerimento de Amilton Alexandre, o blogueiro Mosquito, morto ano passado, foi um dos oito pedidos adiados por falta de tempo.

O paulista Paulo Marcomini, 72, veio a Florianópolis para acompanhar a apreciação do pedido. Ser reconhecido como anistiado é a oportunidade de tentar apagar todo o sofrimento que passou ao longo do período militar. Perseguido por ser integrante do Partido Comunista, Marcomini passou anos se escondendo dos militares. Chegou a se exilar na China. “Quase todos os meus companheiros daquela época foram mortos. Eu tive sorte”.

Herdeiros limpam o nome do pai

Os herdeiros do comandante da Marinha Mercante Emílio Bonfante Demaria conseguiram limpar o nome do pai. Nascido em Florianópolis, em 1923, Emílio construiu carreira no Rio de Janeiro. Sindicalista, foi preso e teve o registro de exercício da profissão cassado nos primeiros dias do Golpe de Estado de 1964. Durante 15 anos, até a Anistia em 1979, foi detido e torturado outras três vezes e privado do convívio familiar ao se exilar na Rússia.

Os irmãos Ivo Ney Rodrigues Demaria, 62 anos, Emirame Demaria Silva, 58, (do primeiro casamento do comandante) e Ludmila dos Santos Demaria, 50, comemoraram a decisão dos conselheiros. “Eu lavei a minha alma. Sabíamos que ele não era criminoso como os vizinhos nos diziam na rua”, lembrou Emirame. Dúlcineia Freire, segunda mulher de Emílio, vai receber como indenização R$ 285.933,33 e uma pensão permanente de R$ 2.000 mensais. O julgamento do comandante arrancou lagrimas dos familiares e do público.

Dificuldades para reunir provas

O professor José Rebelo de Lima recebeu o pedido formal de desculpas do Estado, mas teve dificuldades de comprovar os prejuízos trabalhistas impostos pela perseguição dos militares. O processo dele continha documentação relativa ao período de 45 dias preso no extinto Dops (Departamento de Ordem Política e Social), que justificava que a banca concedesse a condição de anistiado, mas não garantia direito a pensão mensal vitalícia.

Durante 30 minutos, o professor tentou explicar aos conselheiros por que tinha direito ao benefício. Sem sucesso, já que ele ainda trabalhou mais dois anos na instituição de ensino após a prisão. “Eu fiquei, mas era difícil aguentar os alunos te chamando de comunista safado. Saí quando a escola foi incorporada por um colégio da Igreja Católica, que era contra o comunismo”, explicou.

O professor recebeu o pedido oficial de desculpas, mas indenização em parcela única de 30 salários mínimos. Os casos adiados serão julgados em Brasília nas sessões regulares da Caravana da Anistia. Ao longo de 11 anos, o governo federal já pagou R$ 2,5 bilhões em indenizações. A próxima Caravana será em Fortaleza, no Ceará, entre os dias 3 e 4 de agosto.

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