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Sábado, 17 de Novembro de 2018
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Canoas tradicionais representam elo entre passado e presente em comunidades pesqueiras da Ilha

Coloridas e bordadas, elas são verdadeiras obras de arte

Edson Rosa
Florianópolis

Esculpidas em tronco único de madeira nativa, as canoas estão entre as mais antigas embarcações utilizadas pelo homem. Existem em todos os continentes, foram utilizadas por praticamente todos os povos primitivos e, apesar de aparentemente toscas e frágeis, sobrevivem a milênios exatamente pela facilidade de fabricação e de se adequarem às diversas condições do mar e necessidades de navegação.

Marco Santiago/ND
Cascos quase sempre são pintados de branco, com as bordas em amarelo, verde, azul ou vermelho

 

Nas comunidades pesqueiras da Ilha, movidas a remos e de tamanhos diversos, elas ainda são imprescindíveis na lida secular do cerco aos cardumes de tainhas. Coloridas e bordadas, as canoas são verdadeiras obras de arte esculpidas em troncos de garapuvus, figueiras e canelas, espécies nativas da mata atlântica que não podem mais ser derrubadas. Para substituí-las, nos últimos anos surgiram réplicas ou as similares bateiras, construídas em fibra de vidro, plástico ou alumínio. Quase todas equipadas com motores de popa ou de centro.

Os tamanhos são variados. Os cascos quase sempre são pintados de branco, com as bordas contornadas em amarelo, verde, azul ou vermelho. São comuns, também, as pétalas disformes e pequenas estrelas pintadas a mão, com tinta naval, e destaque para a marca característica que identifica a Colônia de Pescadores de Florianópolis [Z11].

Na proa, o nome registrado na Capitania dos Portos de Santa Catarina tem significado especial para quem o escolheu. Batizada, a canoa passa a ser tratada como membro da família.

Glória, Osmarina, Natália, Ana Maria, Vó Laura, Luisa, Maria do Carmo, Santa Paulina, Santa Teresinha, Joia Rara, Estrela do Mar, Atrevida... Femininas, as canoas homenageiam mulheres, avós, mães, filhas, tias ou sobrinhas de pescadores, santas de devoção ou simbolizam o estado de espírito do pescador, uma fantasia ou algo de predileção.

“A gente se apega, investe em manutenção, gasta tinta, cola e madeira para fazer os remendos”, diz Joel Brito, 60, que mantém duas raridades de dois remadores para a safra da tainha na Cachoeira do Bom Jesus, adequadas ao mar calmo daquela baía

Maiores, canoas usadas em mar grosso (Lagoinha, Praia Brava, Ingleses, Moçambique, Barra da Lagoa, Campeche, Pântano do Sul e Naufragados) são movidas a quatro ou cinco remadores. Como não têm lemes, são conduzidas pelo “patrão”, pescador que ocupa lugar na popa e utiliza pequeno remo de pá para dar direção, como leme, e manter o ritmo das e conduzir o cerco.

As canoas predominam entre as embarcações pesqueiras de pequeno porte da Ilha. Entre elas, também navegam as baleeiras, com formato mais arredondado, equipadas com motor de centro, mas, igualmente, femininas, a exemplo de parte da frota usada no transporte de passageiros na Costa da Lagoa. Mais robustos, botes e barcos têm nomes masculinos e também fazem parte da rotina do pescador ilhéu. Rotina que não para nem neste primeiro sábado de junho, Dia Municipal do Manezinho. 

Relação entre pais e filhos

Antiga, é mais ou menos como acontece entre mães e filhos a relação de Nildo Vilmar dos Santos, 50, e demais pescadores da parelha da Praia Brava com as seis canoas a remo utilizadas para a pesca da tainha. Relíquias centenárias entalhadas em troncos de garapuvu, cedro, pinho e figueira, cada uma delas tem função específica durante a safra, e são adaptadas para as características do mar e do cardume.

“Usamos de acordo com o tamanho da rede e a distância do cardume. Cada situação exige uma canoa específica no momento do cerco de arrasto”, explica Santos, que avalia entre R$ 20 mil e R$ 40 mil cada uma das embarcações da família, mas não cogita fazer negócio. “Na verdade, elas não têm preço, fazem parte da tradição da Ilha e, em particular, da minha família. É importante preservar a cultura local, e procuramos fazer isso na comunidade”, diz.

“Hoje em dia, as ferramentas elétricas, como lixadeiras, facilitam o trabalho”, diz Nildo Santos. Padronizadas na pintura [cascos brancos e bordas com faixas vermelhas, verdes e amarelas], cinco delas foram batizadas com o nome do lugar e são diferenciadas apenas pela numeração de série – Praia Brava 1, 2, 3, 4 e 5 e registro na Capitania dos Portos da Marinha do Brasil.

Para a próxima safra, no entanto, todas serão rebatizadas, uma delas em homenagem à mãe de Santos, dona Antonieta. As outras serão chamadas de acordo com as características identificadas pelos próprios pescadores – Malandra, Favorita, Charmosa e Somos Felizes. Atualmente, a única de nome diferente na família é a Feliz nas Ondas, com casco de pinho pintado de branco e as bordas azuis, uma das prediletas de Santos.  Com pelo menos 80 anos, a canoa já teve o nome de Erisete, homenagem do antigo dono, Arnoldo, à mulher com quem pescou camarão em São José do Norte (RS) a bordo da embarcação.

Marco Santiago/ND

 

Para mantê-las em condições de navegabilidade tanto tempo depois da construção, algumas há um século, são realizadas manutenções periódicas, principalmente nos meses que antecedem a corrida da tainha. Geralmente, há substituição de quilhas, conserto em bancos e fixadores de remos e remendos em avarias de casco, trabalho em que o garçom Ednaldo Roberto da Silva, 52, se tornou especialista, hoje em dia com ferramentas elétricas.

Nem sempre foi assim. Valdecir Renovato dos Santos, 61, um dos últimos fazedores de canoa  de Ponta das Canas, conta que antigamente era tudo entalhado a machados e enxós, ferramentas que exigem força física. Para não perder a prática, ele costuma juntar troncos de árvores nativas que encontra pelo chão para confeccionar réplicas em miniatura. “É uma forma de ensinar os mais jovens a preservar nossa cultura”, diz.

Xodó da família, a menina Eloísa, 12, mantém a beleza e a simplicidade de quem cresce na beira da praia ouvindo histórias de pescadores. De tanto ser chamada pelo apelido, acabou assimilando o codinome Luísa, o mesmo ostentado na proa da pequena canoa se sete metros de comprimento, construída em tronco de garapuvu, ainda usada pelo pai, Sérgio Luís de Sousa, 47, em cercos com redes de anchova e de arrasto.

Motivo de orgulho da garota, para Sérgio Luis a embarcação não serve apenas como equipamento indispensável no reforço da economia doméstica, a canoa de três remos de voga é como um dos membros da família. Fora da safra deste ano, a embarcação permanece com a rede de anchova embarcada e é uma das camas usadas pelos camaradas da parelha licenciada para a tainha na Praia Brava.

Lagoinha, o reduto delas

Na Ilha, a Lagoinha do Norte é o reduto das canoas de um pau só, quase todas centenárias ou chegando lá. De tamanhos variados, durante a pesca da tainha [entre 1º de maio e 31 de julho] permanecem perfiladas na praia à espera dos cardumes e, obviamente, da correria da tripulação. Lá, estão expostas Maria de Fátima, Samaritana, Boa Fé, entre tantas outras também equipadas com redes de nylon e remos de madeira, sempre prontas para cortar as primeiras séries da arrebentação até deslizarem suavemente sobre as ondas para navegar mar adentro. Seguras e utilitárias.

Duas delas parecem “gêmeas” e se destacam pela singeleza e história que representam na comunidade. Com os cascos brancos e as bordas com faixas vermelhas e azuis, as canoas Ana e Maria dos Santos não estão licenciadas para a safra deste ano, mas simbolizam a tradição pesqueira na Ilha cada vez mais pressionada pelas exigências do turismo internacional.

“É a minha canoa”, se emociona a pescadora aposentada Ana dos Santos, 67, ao rever a velha companheira de trabalho, ao lado de Maria, esta batizada em homenagem à sogra, mãe de Francisco Domingos dos Santos, que em vida chegou a ter até seis embarcações semelhantes para a pesca de arrasto de praia.  Restaram três, uma delas, a Aventureira, inadequada para o tamanho das dedes atuais,  serve de depósito de tralhas na garagem da casa.

“Sinto saudade da juventude, dos tempos de fartura, quando saía para o mar com meu marido”, completa Ana dos Santos, mãe de Marcelo, 37, considerado o melhor patrão de canoa das praias de Ponta das Canas. Dono de três redes licenciadas para a Tainha na Lagoinha, ele trabalha para a parelha de Nildo Vilmar dos Santos, na Praia Brava.

 

Rainha da Praia agora é Santa Paulina

Os detalhes do casco, as bordas bem acabadas e a força de cinco remos são características específicas da canoa Santa Paulina, preservada como troféu por João Manoel Vieira, o João da Passa, 69, veterano que faz plantão de olho no mar em um dos ranchos improvisados para espera das tainhas na Praia Grande, ou Moçambique, no Rio Vermelho. Antes de chegar lá, no entanto, quando ainda era Rainha da Praia, a embarcação de 9,40 metros de comprimento e entalhada a mão em tronco de figueira, pescou na Praia Brava, foi levada na carroceria de caminhão até José do Norte de Rio Grande (RS) e passou por São Francisco do Sul, no litoral Norte de Santa Catarina.

É uma das maiores e mais seguras para o mar grosso da costa leste da Ilha. “Só existem duas iguais por aqui, uma na Lagoinha e outra no Santinho”, orgulha-se  João da Passa. Devoto de Madre Paulina antes mesmo da santificação da beata, o pescador comprou a canoa e a rebatizou Santa Paulina em 1980, como símbolo do recomeço da atividade pesqueira na família depois de incêndio que destruiu rancho, canoas e redes dois anos antes.

Os cinco remos, três do lado esquerdo e dois à direita, são a garantia de equilíbrio para navegação em mar aberto, com ondulações de até dois metros e repuxo para o costão. “Quando é preciso remar perto das pedras, é preciso mais força a estibordo [esquerda]”, explica o pescador.

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