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Quinta-Feira, 15 de Novembro de 2018
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Caminhadas por trilhas antigas revelam belezas, mas também ocupações ilegais em Florianópolis

Protegidos por propriedades particulares, caminhos usados por agricultores e caçadores desde o período colonial agora têm acesso restrito

Edson Rosa
Florianópolis

A subida aos quatro pontos mais elevados da Ilha, ou ao mais próximo possível deles, seguindo caminhos ainda hoje percorridos e respeitando nomes e conhecimentos repassados de pai para filho há pelo menos 300 anos, revelou ângulos inéditos de Florianópolis. Lugares antes só vistos por agricultores e caçadores que, independentemente da altitude conquistada, testemunharam o surgimento gradativo de manchas urbanas na mata nativa. Presenciaram, também,  a transformação irreversível da paisagem natural da Ilha.

Daniel Queiroz/ND
Vista para o Sítio do Capivarí, praia do Moçambique e Ilha das Aranhas
Vista para o Sítio do Capivarí, praia do Moçambique e Ilha das Aranhas

Com 451 metros quadrados de área, área insular de Florianópolis tem relevo formado por cristas descontínuas de montanhas. Altitudes entre 400 e 532 metros servem como divisor de águas – a Oeste, as baías norte e sul; a Leste, o mar aberto, de Naufragados à Praia Brava.

Apontado por ambientalistas como o mais importante corredor ecológico da Ilha, ao Norte o morro dos Macacos - entre Vargem Grande, Rio Vermelho e Ratones - fecha a cordilheira central que se forma no maciço da Costeira, passa pela cadeia da Lagoa e se estende até Cachoeira do Bom Jesus e Ponta das Canas. Fecha, também, a rede de caminhos históricos pelas encostas de Norte a Sul da Ilha, alguns reabertos e ainda utilizados.

Luiz Evangelista/ND
Resquícios de uma casa ou engenho histórico
Resquícios de uma casa ou engenho histórico

Caminhadas pelas trilhas antigas ou por aquelas abertas recentemente proporcionam vista quase completa das costas leste/norte. Mostram, por exemplo, ocupações ilegais junto a dunas e restinga, do Rio Vermelho a Ingleses. Mais ao Norte, paredões de concreto invadem áreas de marinha nas praias de Canasvieiras e Jurerê, em contraste com o mar azul. Da vertente Sul, córregos do Rio Vermelho ganham corpo até se integrarem à bacia da Lagoa da Conceição.  

Aparentemente resguardados pela dificuldade de acesso, que ainda mantém afastada a especulação imobiliária, vales e encostas do morro dos Macacos são APPs (Áreas de Preservação Permanente) protegidas também pela propriedade privada. Alguns trechos da mata e nascentes dos rios Palha e Papaquara estão em processo de transformação em RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural).

Proibida há 35 anos, a caça de animais silvestres ainda ocorre no chamado corredor ecológico formado pelos morros de Rio vermelho, Vargem Grande e Ratones, que os moradores mais velhos conhecem como caminhos do Macacu, ou morro dos Macacos. Pegadas revelam passagem recente de caçadores e cães, e levam a picadas abertas entre caetés e sob árvores centenárias. Lá em cima, depois de localizadas as tocas, os tatus são presas fáceis.

A prática ocorre principalmente em comunidades tradicionais, onde no passado a caça foi complemento da alimentação familiar. Algumas espécies desapareceram, como veado mateiro, macaco bugio, capivara e felinos. Outras, como ocorre com a vegetação nativa da mata atlântica, estão em fase de regeneração – macaco prego, cutia e graxaim, por exemplo.

 “É uma atividade que ainda ocorre, em pequena escala. Está em declínio no interior da Ilha”, diz Mauro Manoel da Costa, do Departamento de Unidades de Conservação Ambiental da Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente). Educação ambiental e mentalidade moderna das novas gerações, segundo ele, aos poucos mudam o perfil cultural da população.

O topógrafo Celso Manoel dos Santos, 41, mede e demarca terrenos particulares do sopé ao topo do morro dos Macacos, e quase sempre usa trilhas deixadas por caçadores para se orientar na mata. “Seguimos pelos caminhos utilizados por agricultores até mais ou menos a década de 1960. Mas, para chegar aos picos mais elevados e achar as extremas das propriedades, é preciso reabrir a facão as pegadas dos cães farejadores”, explica.

Luiz Evangelista/ND
Celso Manoel dos Santos usa as antigas trilhas e caminhos para fazer medições de terrenos
Celso Manoel dos Santos usa as antigas trilhas e caminhos para fazer medições de terrenos

Na terra fértil da encosta ainda há vestígios do Brasil colonial. São bananais, clareiras de antigas roças, silos, escombros de casas e engenhos de farinha ou cachaça, resquícios do período em que os caminhos do Macacu eram passagem obrigatória entre Vargem Grande e Rio Vermelho, entremeados por extensas plantações de cana, mandioca, café, milho e feijão.

O acesso do carro de boi definia os limites das plantações nas encostas recortadas por desfiladeiros. Locais escolhidos para casas, silos e engenhos ficavam próximos a mananciais de água cristalina e bambuzais, ainda preservados. “Bambu e barro eram matéria prima nas construções de estuque, ou pau a pique”, observa Santos, neto de agricultores na Vargem Pequena.

Interligados e cercados de raros exemplares de peroba e canela e dos maiores garapuvus da Ilha, os caminhos levam também ao topo da Deserta, no contraforte dos morros entre Vargem Pequena e Ratones. E, após três horas de caminhada a partir da Vargem Grande, a opção é descansar no Saquinho da Costa da Lagoa.

Luiz Evangelista/ND
O topógrafo Celso Manoel dos Santos, 41, mede e demarca terrenos particulares do sopé ao topo do morro dos Macacos, e quase sempre usa trilhas deixadas por caçadores para se orientar na mata. “Seguimos pelos caminhos utilizados por agricultores até mais ou menos a década de 1960. Mas, para chegar aos picos mais elevados e achar as extremas das propriedades, é preciso reabrir a facão as pegadas dos cães farejadores”, explica.
Garapuvu centenário da trilha percorrida

 

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