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Cada vez mais, pais buscam escolas que priorizam valores humanos em vez da tecnologia

Unidades de educação em Florianópolis oferecem aprendizados com diversão, pintura, dança, música, o que cria e estimula o contato humano com a natureza e com os colegas de turma

Carolina Coral - Especial para o ND
Florianópolis
18/11/2018 às 15H38

Todos os pais chegam a um determinado momento que passam a vivenciar um dilema: “Qual escola será mais adequada aos meus filhos?” Sem dúvida, esta é uma escolha difícil que requer muita atenção a diferentes aspectos, que vão desde o método de ensino, a estrutura física do lugar, as aulas extracurriculares disponíveis e, principalmente, a postura da escola diante dos desafios da atualidade. Outro ponto a ser considerado é como as escolas lidam com o uso excessivo da tecnologia por parte das crianças.

Shelley, professora de jiu-jitsu, com seus alunos: além da atividade física, disciplina e dedicação - Flávio Tin/ND
Shelley, professora de jiu-jitsu, com seus alunos: além da atividade física, disciplina e dedicação - Flávio Tin/ND



Entre as escolas com crescente procura ao redor do mundo e presentes em todos os continentes estão as de pedagogia Waldorf, que contam com uma filosofia da educação criada pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner, que procura integrar de maneira holística o desenvolvimento emocional, espiritual, artístico e intelectual dos estudantes. Aluna da primeira escola do método Waldorf no Brasil, Maria Cristina Hering, 66 anos, atuou durante 26 anos como professora na Escola Anabá, do mesmo método, e relata: “Devemos priorizar que as crianças aprendam primeiramente com o corpo, e não com a cabeça. Hoje elas estão sendo muito exigidas intelectualmente e estimuladas de forma constante à competitividade”.

Maria Cristina destaca que ainda não foram apresentados todos os resultados científicos com relação ao uso indiscriminado de aparelhos tecnológicos e aos danos cerebrais e comportamentais das crianças que têm acesso a joguinhos eletrônicos, vídeos e afins. Entretanto, já se pode constatar o aumento significativo de crianças com sintomas de ansiedade, depressão, apatia, hiperatividade e déficit de atenção, por exemplo. “A principal diferença do método Waldorf é que a escola incentiva um espírito de comunidade, por meio do qual as crianças aprendem a potencializar os seus dons e tornam-se mais cooperativas. Como não há prova nem nota de avaliação, elas não competem entre si. Ademais, o campo artístico é bastante valorizado, estimulando que os alunos aprendam a falar por eles mesmos”, afirma a professora aposentada.

Proatividade e pensamento mais livre

A arquiteta paulistana Maria Carolina Duva, 43 anos, mãe de Augusto, 7, e de Alice, 13, explica que escolheu o método Waldorf para os filhos porque conhece adultos que tiveram essa formação e são grandes exemplos de pessoas proativas, autênticas e com um pensamento mais livre. “O simples fato de a escola estar situada numa estrutura como a de uma casa, com jardim e árvores para subir, torna o ambiente muito familiar e acolhedor. Além disso, os brinquedos são todos de madeira, e não há nenhum aparato eletrônico, por isso elas aprendem a ficar tranquilas e em silêncio sem estar na frente de nenhuma tela”, pontua a mãe.

Maria Carolina revela que nunca teve televisão em casa, mas que preferiu não adotar uma postura radical e permite o uso do celular pela filha adolescente, que faz parte das redes sociais comuns à geração atual. “Eu restrinjo o tempo de uso do celular, mas também não vejo isso como uma preocupação, pois a Alice tem outros interesses como ler livros, tocar clarinete e atuar nas peças de teatro da escola”, conta.

Troca de aprendizados

A empresária Chiara Cabreira, 35 anos, mãe de Valentina, 7, decidiu colocá-la no Cemj (Centro Educacional Menino Jesus), do método Montessori, desde os 8 meses de idade, mesmo sem inicialmente conhecer o método a fundo, pois gostou muito da estrutura do local e de como os professores conheciam cada aluno individualmente. A pedagogia montessoriana insere-se no movimento das Escolas Novas, assim como a pedagogia Waldorf, sendo que o método Montessori é resultado de pesquisas científicas e empíricas desenvolvidos pela médica e pedagoga Maria Montessori.

As principais características desse método são a ênfase na autonomia, a liberdade com limites e o respeito pelo desenvolvimento natural das habilidades físicas, sociais e psicológicas da criança. Nesse caso, o professor é mais um guia da criança, e apenas acompanha o seu processo de aprendizado, porém não dita nem impõe o que será aprendido por ela.

Chiara conta que na sala de Valentina há alunos de diferentes faixas etárias, crianças com dificuldades de aprendizagem e filhos de funcionários, o que propicia uma troca de aprendizados entre as diferentes crianças, gerando um ambiente mais inclusivo e de respeito às diferenças. Além disso, nessa escola, a tecnologia não está presente, mas sim os trabalhos manuais. “A visão de mundo que minha filha está formando é muito interessante e pluralista, pois a escola estimula o conhecimento de diferentes culturas e das habilidades artísticas. A Valentina adora pintar, desenhar e escrever”, conta.

E complementa que a menina até assiste de vez em quando a um desenho animado, mas na maioria das vezes consegue facilmente se entreter sozinha sem o recurso da tecnologia. “Minha paixão pelo método Montessori, além do avanço dela, é perceber como ela faz parte da construção desse aprendizado, inclusive na organização e na limpeza da sala de aula, o que cria um senso de responsabilidade na criança desde cedo”, observa Chiara.

Práticas extracurriculares

Segundo a psicóloga Fernanda Baggio Gasperin, hoje a preocupação dos pais vai muito além do aprendizado das disciplinas tradicionais como português e matemática. Para essa nova geração de adultos, o mais importante é a formação do caráter humano dos filhos. “Os métodos humanísticos de ensino priorizam muito a inteligência emocional e o controle do corpo, o que influencia positivamente no aprendizado”, destaca.

Fernanda ressalta também que as práticas extracurriculares oferecidas pelas escolas possibilitam diferentes formas de prazer e de alegria para as crianças, ou seja, elas aprendem a se divertirem, pintando, dançando, cantando, criando, estimulando o contato humano com a natureza e com os seus colegas de turma, e tudo isso são excelentes ferramentas de diversão que vão muito além das atividades eletrônicas. Entretanto, apesar das atividades realizadas nas escolas, os filhos têm como principal modelo de vida os seus pais, portanto “as crianças precisam que seus responsáveis tragam outras opções de lazer para o cotidiano delas, como levá-las ao parque, conversar com elas e, principalmente, comprometer-se a ser um exemplo para os pequenos, deixando de lado os seus celulares, desligando a televisão e dando atenção a elas sempre que possível”, reforça.

Tema escolhido por alunos

Shelley Ceccato, 42 anos, professora do 2° ano do ensino fundamental da Escola da Ilha há 20 anos, tem como método de ensino o Construtivismo, que objetiva a criação de um projeto pedagógico em que o tema é escolhido pelos alunos e é permeado por todas as disciplinas ao longo do ano letivo. O tema deste ano da turma de Shelley abordou o uso da tecnologia de forma crítica. “Percebi que muitos alunos vinham para a sala de aula trazendo reclamações sobre os pais, que preferiam ficar ao celular em vez de brincar com eles, por isso achei fundamental resgatar as relações humanas presenciais e valorizar o contato entre os familiares e as amizades entre as crianças”, destaca.

A professora enfatiza que os alunos de 7 e 8 anos de idade estão saindo da primeira infância e iniciando a construção de sua personalidade, e que o uso excessivo dos aparatos tecnológicos como tablets, celulares e computadores tem dificultado muito as relações humanas e a aceitação das diferenças por parte delas, levando as crianças a se comportarem de modo mais superficial em vez de trocarem experiências reais. “As relações verdadeiras não têm controle remoto, as crianças estão tendo muita dificuldade em lidar com as perdas e as frustrações”, diz.

Shelley relata que atualmente, em função do excesso de uso da tecnologia, muitas crianças desaprenderam a brincar, e por esse motivo ela propôs que cada aluno indagasse os seus pais sobre quais as brincadeiras deles quando crianças. O resultado do projeto foi muito divertido e gratificante, pois fez com que as crianças começassem a brincar de corda, peão, bambolê, elástico, amarelinha e começassem também a cantar as cantigas da infância dos pais, o que ajudou a lidar com os conflitos comportamentais entre elas e fortaleceu seus laços de amizade.

Além de atuar no ensino fundamental, Shelley é também professora de jiu-jitsu há quatro anos na Escola da Ilha: “Os esportes, assim como as artes marciais, ajudam as crianças a ultrapassarem os seus desafios físicos, a conhecerem a sua estrutura corporal, além de ensinar sobre disciplina e dedicação”. afirma.

Esporte e hábitos saudáveis

Segundo a secretária-geral da Sociedade Catarinense de Pediatria, Ana Paula Aragão, a prática de atividade física, assim como a adoção de hábitos saudáveis de vida, previne o sobrepeso e a obesidade em crianças e adolescentes, que infelizmente aumentaram muito nos últimos anos. A última pesquisa realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostrou que na população de cinco a nove anos de idade a prevalência de excesso de peso é de 34,6% e a de obesidade é de 16,6%.

Ana Paula explica que “um dos fatores contribuintes para esses dados é o sedentarismo causado pelo tempo excessivo de tela das crianças (tablets, celulares, TV e videogames), pois esse tempo desmedido diante de uma tela pode causar prejuízos na socialização com outras pessoas, nos distúrbios do sono, no aumento da ansiedade, além de problemas posturais, excesso de peso, entre outros”. Para a pediatra, é importante que professores, educadores físicos, profissionais de saúde, família e comunidade incentivem as crianças e os adolescentes a terem hábitos de vida saudáveis para a promoção integral da saúde dessa população.

Inclusive, a pediatra faz um alerta: “Deve-se restringir o tempo de tecnologia digital para duas horas ao dia nas crianças de dois a cinco anos de idade, desencorajar a utilização de telas entre uma e duas horas antes de dormir e durante as refeições, além de monitorar constantemente o uso das tecnologias digitais”. Ela ressalta ainda que “é contraindicada a exposição de crianças menores de dois anos a essas tecnologias”. Por isso, nada melhor do que brincar ao ar livre, andar de bicicleta, jogar bola, dançar, fazer caminhadas e praticar esportes dos quais a criança goste.

Há dois anos, o aluno de jiu-jitsu Caio Rezende, 6 anos, contou que se sente feliz praticando a atividade e se tiver que escolher entre um jogo de videogame e o jiu-jitsu, prefere as artes marciais. Sua colega de turma, Tessa Marri, 7, é da mesma opinião: “Praticar jiu-jitsu é muito legal e ensina a me defender”.

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