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Brasileiro escapou por alguns minutos de ataque em Londres

Ataques deixaram ao menos sete mortos e 48 feridos. Polícia prende 12 suspeitos. Primeira-ministra britânica, Theresa May faz discurso duro. Atentado pode ser início de temporada de ataques no ramadã

Folha de São Paulo
Londres (Reino Unido)
04/06/2017 às 17H44

O escritor e executivo brasileiro Valter dos Santos, 34, escapou por poucos minutos dos ataques que deixaram ao menos sete mortos e 48 feridos na noite de sábado (3), em Londres. O paulistano mora no entorno do mercado de Borough e passou pelo local com o primo para seguir para casa à noite.

"Fui salvo por Deus, pois era para eu estar lá! Minutos depois de passar ali em frente, meu ex-namorado ligou perguntando se eu estava bem".

Vivendo na cidade há mais de 12 anos, Santos disse ainda que, ao contrário dos ataques contra o transporte público londrino em 2005 (52 mortos), o sinal telefônico não foi cortado pelas forças de segurança desta vez. Assim que a polícia chegou, conta o brasileiro, todos os estabelecimentos da região se esvaziaram.

Os policiais solicitaram também que as pessoas que moram na região não voltassem para casa. Todo o entorno foi isolado logo depois para perícia e permanecia assim durante todo o domingo. Por volta das 18h30 (14h30 de Brasília), o clima ainda era tenso na cidade, com carros de polícia circulando de sirene ligada.

Ataques deixaram ao menos sete mortos e 48 feridos  - Reprodução
Ataques deixaram ao menos sete mortos e 48 feridos - Reprodução

Os ataques

Por volta das 22h locais de sábado (18h em Brasília), dois ataques ocorreram em torno da ponte de Londres, que passa sobre o rio Tâmisa. A polícia informou que três agressores foram mortos a tiros durante o confronto com agentes. Outros 12 suspeitos foram presos nas últimas horas.

Um carro branco, descrito como uma van, atropelou entre 15 e 20 pessoas sobre a ponte; homens com facas atacaram pessoas que estavam em um restaurante a poucas quadras do local, no mercado de Borough.

De acordo com os relatos, a van desviou da pista para a direita e seguiu em direção aos pedestres que caminhavam pela calçada.

Polícia prende 12 suspeitos

A polícia britânica anunciou neste domingo a detenção de 12 pessoas na zona leste de Londres na investigação do atentado de sábado. Agentes da unidade antiterrorista da Polícia Metropolitana realizaram a detenção de "12 pessoas no bairro de Barking, zona leste de Londres, em conexão com os incidentes da noite passada na Ponte de Londres e na área do mercado de Borough", anunciou a polícia em um comunicado. As operações prosseguem no bairro.

'Já passou do limite', diz líder britânica

A primeira-ministra britânica, Theresa May fez, um discurso duro na manhã deste domingo, horas depois do ataque terrorista na região da Ponte de Londres, no lado sul da cidade.

May falou na porta de sua casa, em Downing Street, logo depois de presidir uma reunião do gabinete de segurança. Fez um balanço do ocorrido, descreveu a cena e elogiou a polícia por ter surgido e agido apenas oito minutos após o início do ataque.

Disse que em luto e respeito às vítimas, as campanhas eleitorais haviam sido suspensas por hoje, mas em nome da normalidade democrática serão retomadas em toda intensidade amanhã, para que a democracia não seja refém do terror. Ela confirmou a eleição de quinta-feira.

May disse que o país enfrenta "uma nova forma de ameaça", na qual os autores dos atentados "copiam uns aos outros" e se inspiram em "uma ideologia do mal do extremismo islamita".

"O terrorismo alimenta o terrorismo e os autores passam ao ato não com base em complôs cuidadosamente preparados, e, sim, porque são agressores que copiam uns aos outros utilizando os meios mais ordinários", disse.

O ataque de sábado foi o terceiro a atingir o Reino Unido em pouco mais de dois meses, após um incidente semelhante na ponte de Westminster, em 22 março, e o atentado que matou 22 pessoas em um concerto pop em Manchester, norte da Inglaterra, menos de duas semanas atrás.

Mudança de estratégia no combate ao terror

A líder britânica disse que os eventos recentes obrigam o país a mudar sua estratégia de combate ao terror. Mencionou quatro frentes de mudança:

1) Os terroristas agem isoladamente, não há conexão ou articulação direta entre eles, mas, no entanto, são ligados pelo extremismo islâmico, uma ideologia que precisa ser combatida e vencida. "Não conseguiremos vencê-los apenas no campo militar". É preciso vencer a islamismo radical também no campo ideológico, eliminar o seu apelo.

2) A conexão entre os militantes e os disseminadores do extremismo islâmico é feita livremente através da internet e é necessário quebrar a disseminação da ideologia nesse meio. É preciso que o país e a empresa limitem a liberdade de ação do extremismo na internet.

3) Além do espaço virtual, é necessário combater o espaço que os extremistas encontram no mundo real. "Não podemos mais tolerar o terrorismo em casa", não é possível deixar que o extremismo use as leis democráticas em seu favor.

4) "Temos tido sucesso na luta contra o terrorismo", mas novas estratégias e recursos dos terroristas exigem uma renovação das estratégias de combate, inclusive jurídicas. É preciso garantir os poderes para que os mecanismos de segurança combatam os terroristas, as custódias policiais por exemplo devem ser usadas para efetivamente reduzir a ação dos terroristas e dos seus ideólogos.

"Já passou do limite", disse a primeira-ministra, sugerindo que vai endurecer as ações de repressão internas. Não será a primeira vez: durante os anos 1970 e 1980, ações de controle interno foram agravadas para combater o terrorismo do IRA (Exército Revolucionário Irlandês). E fez efeito: nos anos 1990, o grupo terrorista que pregava a independência da Irlanda do Norte estava virtualmente derrotado, quando aceitou o acordo de paz.

Temporada de ataques no ramadã

Poucos dias após o início do ramadã, o atentado a Londres pode ter inaugurado mais uma dura temporada. Neste mês, sagrado aos muçulmanos, é utilizado por organizações terroristas para incentivar mais ataques. Existe uma teoria, segundo essa interpretação radical do islã, de que as recompensas religiosas são ainda mais fartas a quem luta nestes dias.

Essa ideia -sem o apoio da imensa maioria dos muçulmanos- tem sido reforçadas durante os últimos anos por organizações terroristas como o Estado Islâmico e a Al Qaeda, com pedidos específicos de seus líderes para que militantes aproveitem o período sagrado para agir.

O ex-porta-voz do Estado Islâmico, Abu Mohammed al-Adnani, instruiu expressamente no ano passado que seus membros atacassem durante o mês sagrado, marcando dias especialmente violentos tanto no Oriente Médio quanto nos EUA e na Europa. Adnani foi mais tarde morto por um ataque da coalizão internacional.

Foi no ramadã de 2016, por exemplo, que um atirador matou 49 pessoas em uma boate gay de Orlando. Foi também o período de um ataque ao aeroporto internacional de Istambul, com 45 mortos. Foram registradas 421 mortes naquele mês.

Revelação

O ramadã começou neste ano no dia 26 de maio, inaugurando um período de jejum e reflexão entre muçulmanos. O mês não coincide com o calendário gregoriano -utilizado em países como o Brasil- e se encerra no dia 24.

Essas celebrações marcam a revelação do Alcorão, livro sagrado do islã, ao profeta Maomé durante o século 7. O ritual lembra os fiéis das agruras vividas por outras pessoas e tem como um de seus objetivos aproximar os membros da comunidade uns dos outros.

O momento mais importante do mês é o jejum, considerado um dos cinco pilares do islã. Muçulmanos praticantes não comem entre o nascer e o pôr do Sol.

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